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FELIZMENTE HÁ LUAR! - ESTRUTURA

 

Felizmente Há Luar!  tem dois actos que não estão divididos em cenas, embora estas sejam detectáveis pela entrada e saída das personagens.

 

Os actos são iniciados pelas réplicas de Manuel, “O mais consciente dos populares”, conforme nos é dito em texto didascálico (p. 13).

 

ACTO I

 

No 1º acto, ficamos a saber que o general Gomes Freire de Andrade encontra-se na sua casa “para os lados do Rato donde não há qualquer referência que tenha saído”.

 

O primeiro  núcleo de personagens do povo – de que fazem parte Manuel, Rita, Antigo Soldado e vários outros populares sem nome – vêem no General o seu herói, o único homem capaz de os libertar da opressão, da miséria e do terror em que vivem. É neste quadro que se insere a frase reticente de Manuel "Se ele quisesse…" (pág. 21), o que significa que todas as expectativas e esperanças de libertação da tirania da regência e  da exploração dos ingleses que os  subjuga estão depositadas nesse herói...

 

 

 

 

O segundo núcleo de personagens do povo – constituído por Vicente, Andrade Corvo, Morais Sarmento e os dois polícias – vai contribuir, através da denúncia, da delação, da traição e da força das armas, para a prisão de Gomes Freire de Andrade e para a sua posterior execução.

 

Assim, o general Gomes Freire de Andrade é um herói (ainda que "adormecido") para Manuel, Rita, o Antigo Soldado e outros populares anónimos. Pelo contrário, tem comum oponentes os governadores do reino e os delatores Vicente, Morais Sarmento e Andrade Corvo.

 

Em conclusão: no primeiro acto é feita a apresentação da situação, mostrando-se o modo malévolo e maquiavélico como o poder funciona, não olhando a meios para conseguir os seus fins. Para os poderes político, militar e religiosos  vale tudo: a delação, a vingança, a bufaria, a compra de informações e de influências e a exploração das fraquezas humanas.

Este primeiro acto termina em festa pela condenação do General Gomes Freire de Andrade.

 

ACTO II

 

O acto II transporta o espectador para o campo do antipoder e da resistência. A acção centra-se em Matilde, cuja força interior, proveniente do facto de ver a desagregação da sua família, vítima da opressão perpetrada pelos poderes instituídos, e cujo estatuto social lhe permitem confrontar-se com os representantes do poder.

 

Vítima inconformada da injustiça, Matilde

 

* Suplica a Beresford para que este, movido por um hipotético pingo de dignidade, lhe liberte o marido;

 

* Dirige-se ao povo em tom intimidatório, tentando levá-lo da inacção à acção e a solidarizar-se com ela, numa luta sem tréguas contra a opressão e pela libertação do marido;

 

* Interpela D. Miguel e, sentindo o ultraje do primo do marido, amaldiçoa-o;

 

Matilde e Principal Sousa - TEP, 2004.

* Confronta o Principal Sousa com a sua consciência e os seus deveres religiosos, acabando por acusá-lo de hipócrita, prepotente e cobarde ao portar-se como Pôncio Pilatos;

 

* Sente-se reconfortada com  a solidariedade e a compreensão de Frei Diogo, que acabara de confessar o General preso em S. Julião da Barra e que, de forma velada, mas quase a raiar o explícito, condena as atitudes do Principal Sousa, um mau representante da doutrina e papel da Igreja, que deveria aliar-se aos explorados e não aos poderosos;

 

* Na  companhia  do  amigo   de  sempre   da família, Sousa Falcão, chega à serra de Santo António, local onde a fogueira queima o corpo de Gomes Freire de Andrade e de outros dos seus sequazes.

 

Em jeito de conclusão:

 

Acto I  – neste acto trama-se a prisão do General.

Acto II – a acção deste acto centra-se na execução do General, que nunca teve, intencionalmente, a palavra para se defender, surgindo, assim, como vítima de uma conspiração que o poder vigente faz nas suas costas.

 

Joaquim Matias da Silva

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© Joaquim Matias 2008

 

 

 

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