A análise de Felizmente Há
Luar! ficaria incompleta se não contemplássemos
outros aspectos indissociavelmente relacionados com o
espaço literário do teatro. Consideremos, pois, ainda
que de forma sucinta, outros elementos que ajudam a
melhor compreender a globalidade da obra.
ELEMENTOS PARATEXTUAIS:
Dos vários elementos paratextuais
de que podemos dispor na análise de um texto dramático
(Dedicatórias, Prefácios Pósfácios, Advertências,
Imprimatur, Comentários, Autocomentários, Debates,
Cartas), facilmente verificamos que Felizmente Há
Luar! ou, inclusive, as demais obras de Sttau
Monteiro, pouco nos disponibiliza.
Com efeito, Sttau Monteiro
escassamente falou do seu teatro.
Consideremos, no entanto, três
elementos que convergem na interpretação global da obra.
1. A
dedicatória a Fernando Abranches Ferrão,
«que quase [me] obrigou a escrever esta peça»,
indica-nos a esfera de amizades de homens de esquerda
onde se inseria Sttau Monteiro, por um lado, e o
estímulo externo que o autor terá necessitado para
concretizar esse projecto, por outro.
2. Esta nota
pode relacionar-se com o longo autocomentário que Sttau
Monteiro dedicou à sua trajectória dramática, onde o
autor assume que todo o seu envolvimento dramático
surgiu de uma necessidade de tomar posição cívica
perante os vários atropelos à liberdade individual
durante a ditadura.
3. De especial importância se revela a longa
citação da peça de John
Osborn (“A subject of
scandal and concern”). Sttau Monteiro revela-nos a
importância que teve o contacto com a dramaturgia
inglesa, e, nomeadamente, com Osborne. Se lermos a longa
citação que o autor escolheu para introduzir
Felizmente Há Luar!, facilmente verificamos como ela
de imediato remete para o exemplo humano e cívico de
Gomes Freire de Andrade. Com efeito, a peça inglesa,
escrita em 1961, «é a reduplicação do tema de Luís de
Sttau Monteiro» (Diniz,1991:73). Osborne explora
dramaticamente a história de Holyoake, professor inglês
preso por crime de blasfémia e que, apesar de
socialmente pressionado, assume a sua própria defesa em
tribunal, apesar das dificuldades que lhe podem advir da
sua incurável gaguez. Holyoake acredita que a liberdade
individual só é viável quando em total consonância com
as verdades do poder instituído. Por isso, opta pela
denúncia da hipocrisia dos que não aceitam a invectiva,
o sarcasmo, a verticalidade coerente, sempre que a
crítica fere ou ataca a opinião dominante (prevailing,
opinion). O mote estava dado. Gomes Freire, também ele,
tal como Matilde de Melo, são personagens que não
aceitam – levando até ao sacrifício da morte e da dor
pessoal.
INTERTEXTUALIDADE
Sttau Monteiro dispunha de dois
“modelos” históricos sobre a vida de Gomes Freire de
Andrade. Um de matriz narrativa – a obra de Raul Brandão
– e outro de matriz dramática, da autoria de Teófilo
Braga.
A entusiástica Vida de Gomes
Freire, de Raul Brandão, permitiu a Sttau Monteiro
operar uma cuidada selecção factual, para valorizar o
sentido pessoal e humano do sacrifício de Gomes Freire.
Porém, se esta matriz modelou o
quadro informativo histórico de que se socorreu o
dramaturgo, outros textos dialogam ao longo de toda a
peça. Desde os topoi mais conhecidos do discurso do
poder salazarista, até ao aproveitamento de passos
bíblicos, tudo se conjuga para apresentar, confrontar e
denunciar as contradições do poder perante a
manifestação da liberdade individual. É, aliás, graças a
esta hábil montagem intertextual que a peça ganha
particular eficácia referencial. Falando do passado,
fala-se do presente. Reconstruindo personagens
históricas, sem as historicizar em demasia, Sttau
Monteiro aproxima-as do espectador seu contemporâneo. A
indefinição histórica que a cena ajuda a criar oferece
ao espectador o necessário espaço para reflectir
actualizando, com dados da sua experiência pessoal, o
sentido e significado da proposta cénica de Sttau
Monteiro.
Do(s) signo(s)
ao(s) sentido(s): a hermenêutica da imagem central e a
abertura ao simbólico
Felizmente Há Luar! é, na sua
essência, uma tragédia, como bem assinalou Gaspar
Simões. A ausência de Gomes Freire adensa o climax
sacrificial que se começa a desenhar a partir do segundo
acto até ao epílogo apoteótico e purificador das chamas
que devoram o mártir, para exemplo de quem vê.
Situada num determinado tempo
histórico, Felizmente Há Luar! expressa tragicamente e
agonicamente a luta entre a coerência individual e o
frio calculismo de um poder despótico. Valores como o
Amor, a Amizade, a Luta por um Ideal, confrontam-se com
os ínvios desígnios de um Estado policial, obstinado na
defesa das suas verdades, apesar de se saber
inapelavelmente condenado pela marcha da História. Os
gritos de Matilde lembram uma Antígona moderna.
O conflito que se desenrola num
apertado microcosmos social abre-se, para exemplo de
todos, perante o sacrifício do mártir Gome Freire. O
clarão das fogueiras neo-inquisitoriais assinala a
apoteose dolorosa de princípios e valores que acabarão
por triunfar, por vezes após um longo cortejo de
sofrimento pessoal e colectivo. De tudo isto dá
testemunho Sttau Monteiro, não se eximindo, num tempo em
que tantos se calavam, a dar o seu testemunho. Como
explicitamente escreveu na Nota Explicativa a Guerra
Santa e a A Estátua:
Trata-se de um texto engagé –
como eu – à causa do homem e, portanto, à causa da vida.
(Monteiro, s. d: 9)
Palavras também válidas para
Felizmente Há Luar!
(in Para
Compreender Felizmente Há Luar!, de José Oliveira
Barata)
A DIDASCÁLIA
A peça é rica de marcações com
referências concretas (sarcasmo, ironia, escárnio,
indiferença, galhofa, adulação, desprezo, irritação -
normalmente relacionadas com os opressores; tristeza,
esperança, medo, desânimo - relacionadas com as
personagens oprimidas).
As marcações são abundantes: tons
de voz, movimentos, posições, cenários, gestos,
vestuário, sons (o som dos tambores, o silêncio, a voz
que fala antes de entrar no palco, um sino que toca a
rebate, o murmúrio de vozes, o toque de uma campainha, o
murmúrio da multidão) e efeitos de luz (o contraste
entre escuridão e luz; os dois actos terminam em sombra,
de acordo, aliás, com o desenlace trágico).
De realçar que a peça termina ao
som de fanfarra (“Ouve-se ao longe uma fanfarronada que
vai num crescendo de intensidade até cair o pano") em
oposição à luz (“Desaparece o clarão da fogueira."); no
entanto, a escuridão não é total, porque "felizmente há
luar".
LINGUAGEM
Simples, natural, viva, maleável, fluente, coloquial,
a linguagem utilizada surge, com frequência, como
marca caracterizadora e individualizadora de algumas das
personagens, denunciando, por exemplo, a classe social
ou grupo socioeconómico, cultural ou religioso a que
elas pertencem.
Uso de frases em latim que, por aparecerem por
altura da condenação e da execução, ganha foros de
conotação irónica.
Frases incompletas, por hesitação ou interrupção,
sugerindo sentimentos ou estados de espírito diversos:
tristeza, impotência, revolta, incredulidade,
angústia...
Marcas características do discurso oral;
Recurso frequente à ironia e ao sarcasmo. No discurso
de Matilde, um tanto ou quanto melodramático, proferido
contra os governadores do reino, a crítica é mordaz,
extremamente cáustica, até porque esses agentes do poder
despótico mereciam bem esse poder corrosivo de uma
linguagem mais rude, agressiva.