Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Sttau Monteiro
 

DO CONTEXTO DE PRODUÇÃO À RECEPÇÃO DO TEXTO

 

"Uma peça ímpar entre nós, nitidamente muito bem estudada e

pensada, totalmente conseguida sob o ponto de vista literário e dramático.

Uma peça que nos não deslustra ao lado da literatura dramática do estrangeiro. Na noite até agora escura do nosso teatro felizmente há luar!"

 

Mário Vilaça -Vértice

 

Seria errado escrever sobre FELIZMENTE HÁ LUAR! sem se apresentar, ainda que sumariamente, a época em que LUÍS DE STTAU MONTEIRO produziu o seu texto.

De facto, o final da década de 50 e o início da década de 60 foram um momento de instabilidade e convulsão política e social nesse espaço que era, à data, o de Portugal e que é bem diferente do nosso espaço hoje.

 

Nessa altura, o território nacional não se limitava ao que hoje é. Dele faziam parte as colónias, e entrava-se no momento de decadência de um império de cerca de quatrocentos anos. Iniciava-se uma guerra colonial que marcou a vida de uma geração, para fazer frente aos movimentos independentistas que surgiam nas nossas colónias de África. Esta guerra não fazia qualquer sentido para os que partiam, a jovem geração, nem para os que ficavam e que estavam bem distantes das colónias. Tratava-se, no fundo, da teimosia de um regime autoritário e ditatorial, com dificuldade em se projectar no futuro e remetido para vãs glórias do passado.

 

Fugazmente, com as eleições presidenciais de 1958, a sociedade portuguesa mais virada para a mudança ainda acalentara uma esperança de que algo iria mudar com a candidatura forte e decidida do general Humberto Delgado, um homem saído do regime mas que, inteligentemente, se apercebeu das contradições em que vivia o Portugal desse tempo.

Apesar da vitalidade que essa candidatura trouxe à vida política portuguesa, o regime não deixou os seus créditos por mãos alheias. Os resultados eleitorais acabaram por confirmar que não havia mudança possível e que o futuro ainda permaneceria adiado. O General teve tempo para chegar ao exílio, no Brasil, após ter contestado o resultado das eleições e o país continuou, silencioso, a aguardar.

 

Tudo isto aconteceu num país parado no tempo, num país marcadamente rural, muito estratificado do ponto de vista social, com um grande número de pessoas a viverem em condições muito precárias e uma minoria de famílias a controlarem a riqueza e a favorecerem um regime que as protegia.

A miséria em que sobreviviam os mais fracos conduziu a um fenómeno de grande impacto nessa época: a emigração. De facto, os mais novos procuravam noutros países da Europa, nomeadamente em França e na, então, Alemanha Ocidental, as condições de vida que o seu próprio país lhes negava.

 

O poder político ainda apresentava facetas de antigo regime pela proximidade e interdependência entre o poder do Estado e a Igreja, o que é facilmente compreendido pela amizade que unia Salazar e o cardeal Cerejeira desde os tempos de universitários, em Coimbra. E nem os ventos de mudança da preparação do Concilio de Vaticano II, que viria a preconizar uma atitude social mais empenhada e dinâmica relativamente aos desfavorecidos, conseguiam arejar o bafio que se fazia sentir nos meios absolutamente tradicionais da nossa sociedade de então.

 

(...) Nos ambientes estudantis preparavam-se as primeiras revoltas, os primeiros movimentos de contestação. Como é facilmente compreensível, o clima de descontentamento era grande e a situação avolumava-se pelo peso de um regime totalitário que não permitia a liberdade de expressão e que baseava toda a sua legitimidade na força do silêncio e no poder de uma polícia política, a Pide, hábil instrumento do regime, especializada na perseguição e na tortura, favorecendo o clientelismo político e a delação.

 

A oposição existia, centrada nos núcleos do Partido Comunista Português que actuavam na clandestinidade e num forte contigente de exilados políticos espalhados por algumas capitais europeias, sobretudo Paris e também pelo Norte de África, em Argel.

Pelos calabouços da Pide, na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, pelas prisões do Aljube, de Peniche e de Caxias, e ainda pelo Tarrafal, o campo de concentração, situado em Cabo Verde, passaram, durante estas décadas, a maior parte dos que enfrentaram o regime e de maneira activa o contestaram.

 

É natural que, neste clima, encontremos o mundo cultural português silenciado pela acção rápida e consequente da censura: nenhuma obra, nenhum texto era publicado sem antes ser sujeito ao exame prévio da censura. Era uma época inquisitorial, fora do tempo, mas tal facto constituía, também, um poderoso incentivo para qualquer artista se tentar ultrapassar a si próprio nas subtilezas de criatividade que possibilitariam à sua obra uma passagem incólume ao risco vermelho da censura, ou ao seu carimbo radical.

 

Podemos dizer que a existência da censura determinou praticamente tudo, ou quase tudo, do que se produziu, em literatura como noutras artes. Tratava-se de dizer, sem dizer, ou seja, de falar nas entrelinhas.

Os meios teatrais foram dos que mais sentiram as pressões dos censores: para além das perseguições, torturas e prisões de que foram vítimas autores, actores e encenadores, os textos eram, também eles violentados, amputados de diálogos, proibidos de subir à cena no último instante, ou mesmo retirados do mercado livreiro.

É neste contexto que vai surgir FELIZMENTE HÁ LUAR!, uma crítica implícita ao regime salazarista, melhor dizendo aos seus vícios, tomando como assunto central uma verdade histórica, perfeitamente actualizável pelo seu contexto de produção. A revolta liberal de 1817, uma revolta falhada, pretensamente conduzida pela figura emblemática do general Gomes Freire de Andrade, num tempo em que os que querem estar com o futuro são perseguidos e os que estão com o passado exercem o poder, tutelados por uma forte presença da Igreja, é facilmente reconhecida como a alegoria do Portugal de 60, subjugado por um regime que não admite o direito à diferença e que se recusa a encarar o futuro, cultivando antes uma atitude perfeitamente autista.

 

A criação de toda esta alegoria só se torna compreensível sabendo nós STTAU MONTEIRO um opositor do regime que (...) conheceu, ele próprio, os calabouços das prisões portuguesas.

(...) A sua realização cénica, no entanto, estava longe das expectativas do autor, consciente do facto de as suas palavras ditas em cena ganharem um impacto muito maior do que unicamente no papel. Sabia também que o seu texto teatralizado não escaparia à censura que tinha por hábito acompanhar desde o início a encenação de qualquer texto, proibindo-o imediatamente ou deixando-o avançar para o impedir de subir à cena no último instante. Na altura em que FELIZMENTE HÁ LUAR! recebeu o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, o seu autor encontrava-se no Aljube, e é aí que recebe a notícia da atribuição desse galardão. O êxito desta publicação é grande, e o livro depressa se torna num panfleto de literatura de intervenção política. Este sucesso faz Sttau Monteiro passar do anonimato ao estrelato que lhe foi atribuído não só pela crítica mas também pelos seus leitores, rostos anónimos que aderiram à alegoria que suporta toda a mensagem do texto.

 

(...) Segundo palavras do autor, a sua intenção ao escrever a peça não era um "intuito político imediato", mas "foi uma espécie de espirro contra tudo o que me irritava, então, em Portugal: a torpeza, a sacanice, a cobardia dos que se acomodam". No fundo, Sttau Monteiro desenterrou a história porque a considerava emblemática para os que não se devem deixar acomodar, já que é essa a grande mensagem dessa figura histórica do liberalismo português. Também por isso, a imagem que nos é dada de Gomes Freire não é a de um herói, antes de um homem comum que mantém o sentido crítico num país onde todos se vergam e ninguém ousa questionar o poder.

 

Como é evidente, era disso que o Portugal dos anos 60 precisava e tinha sido isso que o país tinha perdido há bem pouco tempo, nas eleições presidenciais de onde saiu derrotado o general Humberto Delgado.

Infelizmente, o texto de STTAU MONTEIRO é como que premonitório, visto que anuncia, sem ser essa a sua intenção, o final trágico de Humberto Delgado, também ele, à imagem e semelhança de GOMES FREIRE, vítima de uma forma violenta do regime a que se opunha. De acto, o general Humberto Delgado foi morto pela Pide, a 13 de Fevereiro de 1965, em território espanhol, Vilianueva dei Fresno, Badajoz, perto da fronteira portuguesa, e ainda hoje os responsáveis pelo seu assassinato se mantêm impunes.

 

Ironia das ironias, a operação montada pela polícia política para eliminar o rosto da oposição que abalou o regime nas eleições de 1958 começou a ser pensada "na sequência da tentativa de assalto ao quartel de Beja" (1962), ocorrência que esteve na origem da prisão de STTAU MONTEIRO no Aljube, onde se encontrava à data da publicação de FELIZMENTE HÁ LUAR!


DELGADO, Isabel Lopes. Para uma Leitura de FELIZMENTE HÁ LUAR!, de LUÍS DE STTAU MONTEIRO

 

Joaquim Matias da Silva

 

Voltar

Início da página

 

© Joaquim Matias 2008

 

 

 

 Páginas visitadas