"Uma peça ímpar entre nós,
nitidamente muito bem estudada e
pensada, totalmente conseguida
sob o ponto de vista literário e dramático.
Uma peça que nos não deslustra
ao lado da literatura dramática do estrangeiro. Na noite
até agora escura do nosso teatro felizmente há luar!"
Mário Vilaça -Vértice
Seria errado escrever sobre
FELIZMENTE HÁ LUAR! sem se apresentar, ainda que
sumariamente, a época em que LUÍS DE STTAU MONTEIRO
produziu o seu texto.
De facto, o final da década de 50
e o início da década de 60 foram um momento de
instabilidade e convulsão política e social nesse espaço
que era, à data, o de Portugal e que é bem diferente do
nosso espaço hoje.
Nessa altura, o território
nacional não se limitava ao que hoje é. Dele faziam
parte as colónias, e entrava-se no momento de decadência
de um império de cerca de quatrocentos anos. Iniciava-se
uma guerra colonial que marcou a vida de uma geração,
para fazer frente aos movimentos independentistas que
surgiam nas nossas colónias de África. Esta guerra não
fazia qualquer sentido para os que partiam, a jovem
geração, nem para os que ficavam e que estavam bem
distantes das colónias. Tratava-se, no fundo, da
teimosia de um regime autoritário e ditatorial, com
dificuldade em se projectar no futuro e remetido para
vãs glórias do passado.
Fugazmente, com as eleições
presidenciais de 1958, a sociedade portuguesa mais
virada para a mudança ainda acalentara uma esperança de
que algo iria mudar com a candidatura forte e decidida
do general Humberto Delgado, um homem saído do regime
mas que, inteligentemente, se apercebeu das contradições
em que vivia o Portugal desse tempo.
Apesar da vitalidade que essa
candidatura trouxe à vida política portuguesa, o regime
não deixou os seus créditos por mãos alheias. Os
resultados eleitorais acabaram por confirmar que não
havia mudança possível e que o futuro ainda permaneceria
adiado. O General teve tempo para chegar ao exílio, no
Brasil, após ter contestado o resultado das eleições e o
país continuou, silencioso, a aguardar.
Tudo isto aconteceu num país
parado no tempo, num país marcadamente rural, muito
estratificado do ponto de vista social, com um grande
número de pessoas a viverem em condições muito precárias
e uma minoria de famílias a controlarem a riqueza e a
favorecerem um regime que as protegia.
A miséria em que sobreviviam os
mais fracos conduziu a um fenómeno de grande impacto
nessa época: a emigração. De facto, os mais novos
procuravam noutros países da Europa, nomeadamente em
França e na, então, Alemanha Ocidental, as condições de
vida que o seu próprio país lhes negava.
O poder político ainda apresentava
facetas de antigo regime pela proximidade e
interdependência entre o poder do Estado e a Igreja, o
que é facilmente compreendido pela amizade que unia
Salazar e o cardeal Cerejeira desde os tempos de
universitários, em Coimbra. E nem os ventos de mudança
da preparação do Concilio de Vaticano II, que viria a
preconizar uma atitude social mais empenhada e dinâmica
relativamente aos desfavorecidos, conseguiam arejar o
bafio que se fazia sentir nos meios absolutamente
tradicionais da nossa sociedade de então.
(...) Nos ambientes estudantis
preparavam-se as primeiras revoltas, os primeiros
movimentos de contestação. Como é facilmente
compreensível, o clima de descontentamento era grande e
a situação avolumava-se pelo peso de um regime
totalitário que não permitia a liberdade de expressão e
que baseava toda a sua legitimidade na força do silêncio
e no poder de uma polícia política, a Pide, hábil
instrumento do regime, especializada na perseguição e na
tortura, favorecendo o clientelismo político e a
delação.
A oposição existia, centrada nos
núcleos do Partido Comunista Português que actuavam na
clandestinidade e num forte contigente de exilados
políticos espalhados por algumas capitais europeias,
sobretudo Paris e também pelo Norte de África, em Argel.
Pelos calabouços da Pide, na Rua
António Maria Cardoso, em Lisboa, pelas prisões do
Aljube, de Peniche e de Caxias, e ainda pelo Tarrafal, o
campo de concentração, situado em Cabo Verde, passaram,
durante estas décadas, a maior parte dos que enfrentaram
o regime e de maneira activa o contestaram.
É natural que, neste clima,
encontremos o mundo cultural português silenciado pela
acção rápida e consequente da censura: nenhuma obra,
nenhum texto era publicado sem antes ser sujeito ao
exame prévio da censura. Era uma época inquisitorial,
fora do tempo, mas tal facto constituía, também, um
poderoso incentivo para qualquer artista se tentar
ultrapassar a si próprio nas subtilezas de criatividade
que possibilitariam à sua obra uma passagem incólume ao
risco vermelho da censura, ou ao seu carimbo radical.
Podemos dizer que a existência da
censura determinou praticamente tudo, ou quase tudo, do
que se produziu, em literatura como noutras artes.
Tratava-se de dizer, sem dizer, ou seja, de falar nas
entrelinhas.
Os meios teatrais foram dos que
mais sentiram as pressões dos censores: para além das
perseguições, torturas e prisões de que foram vítimas
autores, actores e encenadores, os textos eram, também
eles violentados, amputados de diálogos, proibidos de
subir à cena no último instante, ou mesmo retirados do
mercado livreiro.
É neste contexto que vai surgir
FELIZMENTE HÁ LUAR!, uma crítica implícita ao regime
salazarista, melhor dizendo aos seus vícios, tomando
como assunto central uma verdade histórica,
perfeitamente actualizável pelo seu contexto de
produção. A revolta liberal de 1817, uma revolta
falhada, pretensamente conduzida pela figura emblemática
do general Gomes Freire de Andrade, num tempo em que os
que querem estar com o futuro são perseguidos e os que
estão com o passado exercem o poder, tutelados por uma
forte presença da Igreja, é facilmente reconhecida como
a alegoria do Portugal de 60, subjugado por um regime
que não admite o direito à diferença e que se recusa a
encarar o futuro, cultivando antes uma atitude
perfeitamente autista.
A criação de toda esta alegoria só
se torna compreensível sabendo nós STTAU MONTEIRO um
opositor do regime que (...) conheceu, ele próprio, os
calabouços das prisões portuguesas.
(...) A sua realização cénica, no
entanto, estava longe das expectativas do autor,
consciente do facto de as suas palavras ditas em cena
ganharem um impacto muito maior do que unicamente no
papel. Sabia também que o seu texto teatralizado não
escaparia à censura que tinha por hábito acompanhar
desde o início a encenação de qualquer texto,
proibindo-o imediatamente ou deixando-o avançar para o
impedir de subir à cena no último instante. Na altura em
que FELIZMENTE HÁ LUAR! recebeu o Prémio da Associação
Portuguesa de Escritores, o seu autor encontrava-se no
Aljube, e é aí que recebe a notícia da atribuição desse
galardão. O êxito desta publicação é grande, e o livro
depressa se torna num panfleto de literatura de
intervenção política. Este sucesso faz Sttau Monteiro
passar do anonimato ao estrelato que lhe foi atribuído
não só pela crítica mas também pelos seus leitores,
rostos anónimos que aderiram à alegoria que suporta toda
a mensagem do texto.
(...) Segundo palavras do autor, a
sua intenção ao escrever a peça não era um "intuito
político imediato", mas "foi uma espécie de espirro
contra tudo o que me irritava, então, em Portugal: a
torpeza, a sacanice, a cobardia dos que se acomodam". No
fundo, Sttau Monteiro desenterrou a história porque a
considerava emblemática para os que não se devem deixar
acomodar, já que é essa a grande mensagem dessa figura
histórica do liberalismo português. Também por isso, a
imagem que nos é dada de Gomes Freire não é a de um
herói, antes de um homem comum que mantém o sentido
crítico num país onde todos se vergam e ninguém ousa
questionar o poder.
Como é evidente, era disso que o
Portugal dos anos 60 precisava e tinha sido isso que o
país tinha perdido há bem pouco tempo, nas eleições
presidenciais de onde saiu derrotado o general Humberto
Delgado.
Infelizmente, o texto de STTAU
MONTEIRO é como que premonitório, visto que anuncia, sem
ser essa a sua intenção, o final trágico de Humberto
Delgado, também ele, à imagem e semelhança de GOMES
FREIRE, vítima de uma forma violenta do regime a que se
opunha. De acto, o general Humberto Delgado foi morto
pela Pide, a 13 de Fevereiro de 1965, em território
espanhol, Vilianueva dei Fresno, Badajoz, perto da
fronteira portuguesa, e ainda hoje os responsáveis pelo
seu assassinato se mantêm impunes.
Ironia das ironias, a operação
montada pela polícia política para eliminar o rosto da
oposição que abalou o regime nas eleições de 1958
começou a ser pensada "na sequência da tentativa de
assalto ao quartel de Beja" (1962), ocorrência que
esteve na origem da prisão de STTAU MONTEIRO no Aljube,
onde se encontrava à data da publicação de FELIZMENTE HÁ
LUAR!
DELGADO, Isabel Lopes. Para uma
Leitura de FELIZMENTE HÁ LUAR!, de LUÍS DE STTAU
MONTEIRO