É a única personagem na peça que
sobe na escala social. Mas isso só acontece pela sua
astúcia, pela denúncia e pela traição ao povo. Por isso
é um corrupto, um dos “vendidos” de uma sociedade também
ela corrupta.
É um frustrado por ter nascido pobre e um revoltado
face às injustiças sociais. Marcado pelo estigma da
diferença, nunca aceitou pertencer à “cambada” (p. 27).
Para escapar a essa “cambada” recorre à traição, pois
chega à conclusão de que só conseguirá ascender
socialmente pactuando com os poderosos.
Astuto, segue uma estratégia de actuação para
“inspirar a confiança” das gentes, ficando sempre pela
“metade das verdades” (p. 25).
Só acredita em duas coisas: no dinheiro e na força”.
Daí a sua falta de escrúpulos, a sua frieza e
calculismo, que chegam a espantar os próprios polícias
que chegaram a pensar tirar dividendos da sua subida a
chefe da polícia, facto que ele encarrega-se logo de
desmentir (pp. 31-32).
Vicente -TEP, 2004.
Ambicioso e inteligente, é
hipócrita quando procura emprestar dignidade à missão de
vigiar o general (p. 38)
É pior do que as próprias forças da ordem, porque
estas, pelo menos, agem por obediência, respeitando uma
certa ordem estabelecida, ao contrário de Vicente que
colabora voluntariamente com o poder estabelecido, de
forma a extrair disso regalias pessoais.
No acto II, confirma a sua indignidade, quando um dos
populares lhe estende a mão e recebe, em troca, uma
“cacetada na cabeça” (p. 103).
Em suma, representa aqueles que evoluem socialmente
à custa da denúncia, da frieza, da astúcia –
denuncia os revoltosos, sem contudo deixar de criticar
os governantes. É um servidor de Deus e do Diabo.
Exemplos deste quilate continuam a abundar na nossa
sociedade. Também os houve em abundância no tempo da
ditadura salazarista.