Para D. Miguel, a
expressão “felizmente há luar” tem um sentido
disfórico, conotado com o medo e o fim de uma
rebelião. O luar permitiria continuar a
“matança” pela noite dentro...
Para Matilde, a mesma expressão, reforçada pela
repetição do advérbio “felizmente” (p.140),
ganha um sentido eufórico, pois indicia a
esperança no começo de uma nova era em que o
povo, tornado esclarecido pelos efeitos nefastos
de um regime autoritário, materializados na
fogueira, se revoltará contra o poder dos
governantes.
FOGUEIRA / LUME
Representa(m) a destruição,
mas, paradoxalmente, também é (são) fonte(s) e forma(s)
de purificação / renascimento (mantêm-se vivas
as chamas da Liberdade e da Justiça...).
NOITE
Remete para as trevas, o sofrimento,
a morte. É ainda símbolo
do poder maldito, das injustiças dos
governantes, do obscurantismo em que vivia o
povo. Porém, a noite não deixa de ser também o tempo das
germinações e das conspirações (prenúncio do
dealbar da revolução liberal).
LUA / LUAR
Permite(m) presenciar a
tortura dos conspiradores, mas propicia(m) também a
visão de um momento esclarecedor que poderá
engendrar a regeneração social.
A lua, tal como o fogo, tem uma dupla
simbologia: prefigura a morte na Terra, mas
pelas suas diferentes fases, associa-se a
rituais de renovação e de mudança da natureza.
É, pois, símbolo de transformação, de
regeneração e de crescimento (de uma sociedade
livre, mais justa, entenda-se...).
SAIA VERDE
A saia verde foi uma prenda
comprada por Gomes Freire de Andrade em Paris (terra da liberdade), no
Inverno, com o dinheiro da venda de duas
medalhas e é vestida por Matilde na noite da execução do
marido assumindo-se, assim, como um claro sinal de substituição do
luto pela esperança. A cor verde surge, com
efeito, associada à renovação da Natureza, à
longevidade e à imortalidade, remetendo também
para o reencontro de ambos num outro mundo. É a
cor da Esperança, esperança num futuro de
Justiça e de Liberdade.
SONS
Os sons emitidos pelos tambores são
símbolo de uma autoridade sempre presente e
sempre pronta a reprimir qualquer conspiração.
Aterrorizam e dispersam os populares (pp.18, 21)
O som dos sinos mostra o
envolvimento da Igreja na repressão que se abate
sobre o povo.
Sugere, ainda, o
fúnebre, a morte, bem como a catástrofe e o
perigo (toque a rebate) que levam ao medo e
consequentes submissão ou resignação.
O som da fanfarra que se
ouve no final da peça, “Num crescendo de
intensidade até cair o pano” é ambíguo; se por
um lado sugere opressão, por outro remete-nos
para o som da festa da liberdade profetizada por
Matilde.
SILÊNCIOS
Sugerem o estado de
espírito das personagens, o fluir dos seus
pensamentos ou os momentos de grande tensão
emocional (momentos posteriores à primeira
conversa sobre o general (p. 21) e os instantes
que precedem a execução dos conspiradores (p.
135).
MOEDA DE CINCO REIS
Sugere o
desrespeito que os mais poderosos mantinham para
com o próximo, contrariando os mandamentos de
Deus: "Sr. Principal: a quanto montam os seus
bens? [...] Quantas moedas destas tem nos cofres
da sua igreja? 30, 60, 90?" (p. 121).
Se, entretanto, nos
ativermos à conversa de Matilde com Sousa
Falcão, a moeda relembra o episódio bíblico da
traição de Judas a Cristo: "Vês? Deram-me esta
moeda! É uma das trinta moedas com que se
compram e vendem as almas..." (p. 120).