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APOTEOSE TRÁGICA

 

 

"A sua peça [de STTAU MONTEIRO] FELIZMENTE HÁ LUAR! é a que melhor revela,

na dramaturgia hodierna portuguesa, as novas perspectivas

do teatro europeu que Osborne delineou (...) Teatro, na verdade!"

 

MONTEIRO GRILLO - Jornal de Letras e Artes

 

 

Designa-se por teatro épico o teatro de influência brechtiana que teve, para além de LUÍS DE STTAU MONTEIRO, outros cultores em Portugal, como é o caso de Bernardo Santareno, com a peça O Judeu, ou mesmo Cardoso Pires, com O Render dos Heróis.

 

Podemos dizer que esta designação surge por oposição a teatro clássico e evidencia uma performance teatral mais virada para a narração e negando o principio da ilusão. O que se pretende não é que o actor viva a acção mas sim que a demonstre, cumprindo deste modo uma das intenções deste tipo de teatro: a sua vocação pedagógica. Os elementos catárticos que caracterizavam o drama clássico e de teorização aristotélica foram, portanto, totalmente banidos do universo brechtiano.

 

Trata-se, agora, de reflectir sobre as características da peça FELIZMENTE HÁ LUAR!, que a podem inserir no teatro épico. Pensamos que o primeiro ponto, como já foi dito anteriormente, é a sua intenção didáctica: o que se pretende é que o leitor ou o espectador saia da sala consciente de que há algo a mudar lá fora e essa consciência crítica conduzi-lo-á a uma atitude socialmente empenhada e modificadora. Este tipo de teatro apela, portanto, a um certo pragmatismo.

Em FELIZMENTE HÁ LUAR!, este apelo está sobretudo bem patente na personagem Matilde, mas também é notório em certas notações do autor relativas à movimentação das personagens e à sua colocação em cena, bem como no discurso de Manuel e no modo como este se move em cena possibilitando uma relação diferente com o espectador.

A designação «apoteose trágica» é uma expressão utilizada por STTAU MONTEIRO para se referir ao tom da sua obra, inserindo-a evidentemente numa esfera diferente da tragédia clássica, querendo com isso colocar em destaque o desfecho trágico, mas ao mesmo tempo o tom apoteótico, verdadeiramente transfigurador, quase de homenagem à figura heróica do general Gomes Freire de Andrade que surge supliciado e transformado em herói capaz de dar esperança a um povo, num final verdadeiramente apologético. Esta designação vem confirmar a classificação da peça como uma obra de teatro épico.

 

A apoteose trágica faz-se sobretudo anunciar nas palavras finais de Matilde que ganham um sentido novo: FELIZMENTE HÁ LUAR! surge como um apelo de esperança para que a luz suplante a noite, entendendo-se uma e outra no seu sentido simbólico - a noite como a opressão, a falta de conhecimento, o obscurantismo; a luz como o conhecimento, o esclarecimento, a liberdade de opinião e de expressão.

 

A contribuir para o carácter apoteótico está o próprio cenário em si: o grupo dos populares, as figuras do poder, a mulher e o amigo, a luz da lua e da fogueira que criam um ambiente mágico e ao mesmo tempo espectral, a notação final de esperança, que faz com que a trágica morte do General ganhe um sentido novo. No final, leitor e espectador perceberam certamente que o que acabaram de ler ou ver não tem data, nem espaço geográfico. É de todos os tempos e de qualquer espaço, afinal é o próprio homem que está em causa: o herói individual ultrapassou qualquer tipo de fronteira geográfica ou cronológica e instalou-se como um épico. Disto se faz prova através das palavras de Matilde que passamos a citar: «Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio. Aquela fogueira, António, há-de incendiar esta terra! (o clarão da fogueira diminui visivelmente) Adeus, meu amor, adeus. Adeus! Adeus! (para o povo) Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina! Até a noite foi feita para que a vísseis até ao fim...(pausa) Felizmente - felizmente há luar!»

 

 DELGADO, Isabel  Lopes. Para uma Leitura de FELIZMENTE HÁ LUAR!, de LUÍS DE STTAU MONTEIRO

 

Publicado por Joaquim Matias da Silva

 

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