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Sttau Monteiro
 

FELIZMENTE HÁ LUAR! - Tempo

 

Tempo histórico: século XIX - anos posteriores às invasões francesas, à fuga da corte real para o Brasil, período em que foi instaurado em Portugal um domínio despótico, com o poder militar, representado pelo general inglês William Carr Beresford, a impor os seus ditames, com a conivência dos poderes político e militar, e a subsequente tentativa de libertação desse regime ditatorial, com a conspiração contra a monarquia, ocorrida em 1817.


Tempo da escrita: 1961, época dos conflitos entre a oposição e o regime salazarista. Foi neste ano que foi publicado Felizmente Há Luar! e é esta época da história portuguesa que Sttau Monteiro quer criticar.


Tempo da representação: cerca de 1h 45m. É mais ou menos o tempo que a peça demora a ser representada.


Tempo dramático ou da acção dramática: a acção que decorre num período relativamente alargado - o general Gomes Freire de Andrade, por exemplo, esteve preso 150 dias (cf. pág. 129) e não sabemos, ao certo, quanto tempo mediou entre a sua incriminação e a sua prisão -, parece, no entanto, estar concentrada em apenas 2 dias: 1 dia para o acto I e outro para o acto II.

Relativamente ao acto I, considere, a título de exemplo, o que diz Andrade Corvo, nas páginas 48  e 50  - "Excelências: trago comigo um patriota que pode testemunhar o que ontem contei ao Sr. marechal"  e "Senhor: há dois dias o meu amigo Morais Sarmento entrou no botequim do Marrare..." e note que essas referências temporais surgem em função de um agora, do hoje (um dia).

Quanto ao acto II, a mesma conclusão pode ser extraída do discurso de Matilde, na página 129: "[...] Esta praga lhe rogo eu, Matilde de Melo, mulher de Gomes Freire d'Andrade, hoje 18 de de Outubro de 1817.

 

Esta sugerida concentração temporal vem, sem dúvida, conferir maior dramatismo à situação e, concomitantemente, acentuar a ideia de que os governadores tinham pressa em condenar (sumariamente, frise-se) o General Freire de Andrade, de forma a poderem oferecer a todos os habitantes de Lisboa um espectáculo degradante (deslumbrante, para os governadores e seus sequazes!...) que servisse de exemplo e que, pela instauração do medo, evitasse o surgimento de outras conjuras ou conspirações.

 
Tempo da narração (acção): é sugerido por todas as informações respeitantes a eventos não dramatizados, ocorridos no passado, mas com grande importância no desenrolar da acção. Há referências a esse tempo nas páginas:

 

 

44

 

 

"Ainda há pouco saiu daqui um homem que confirmou tudo o que V. Ex.ª diz..." (D. Miguel, acto I)

 

 

 

48

 

 

 

"Excelências: trago comigo um patriota que pode testemunhar o que ontem contei ao Sr. Marechal".(Corvo, acto I)

 

 

 

 

 

50

 

 

 

 

"Senhor: há dois dias o meu amigo Morais Sarmento entrou no botequim Marrare e encontrou um tal Calheiros, que lhe mostrou uma proclamação contra o rei, o Sr. Marechal e os empregados públicos..." (Corvo, acto I)

 

65

 

 

"... a execução seguir-se-á imediatamente à sentença." (D. Miguel, acto I)

 

79

 

"Esta madrugada prenderam Gomes Freire..." (Manuel, acto II)

 

 

 

90

 

 

 

"Na esteira do meu homem percorri, sozinha, metade das estradas da Europa, e nunca me senti tão só como hoje..." (Matilde para Sousa Falcão, acto II)

 

 

 

92

 

 

 

"[...] Vivi com ele os anos mais felizes da minha vida. Olhando para trás, parece-me que nunca conheci outro viver." (Matilde para Sousa Falcão, acto II)

 

 

103

 

 

"O Vicente, lembram-se do Vicente? Foi feito chefe de polícia. Vi-o, hoje, fardado, seguido por dois esbirros!" (1.º Popular, acto II)

 

 

106

 

 

"A senhora, hoje, veio ter connosco porque não sabia para onde se havia de voltar..." (Manuel para Matilde, acto II)

 

 

108

 

 

"Ah! Senhora, se o general estivesse esta noite aqui, levava-nos com ele até ao fim do mundo!" (Manuel para Matilde, acto II)

 

 

 

 

109

 

 

 

 

"Amanhã, quando começarem a agradecer a Deus a prisão do general, estaremos à porta das igrejas pedindo esmola..."; "Depois de amanhã, senhora, estaremos arrefecendo as almas ao calor das fogueiras..." (Manuel para Matilde, acto II)

 

 

 

 

 

111

 

 

 

 

 

"Ao chegar a S. Julião da Barra, meteram-no logo numa masmorra e aí ficou todo o dia; às escuras, até que, ao cair da noite, uns oficiais lhe mandaram um enxerga e duas mantas por piedade... Só ao fim de seis dias lhe abonaram dinheiro para comer." (Sousa Falcão, acto II)

 

 

 

 

 

 

 

 

129

 

 

 

 

 

 

 

 

"Alguma vez ouviu praguejar um homem, Reverência? Um homem a sério, capaz de palmilhar as estradas da Galileia? Capaz de passar 40 dias no deserto, ou 150 dias metido numa masmorra?" (...)

 

"Esta praga lhe rogo eu, Matilde de Melo, mulher de Gomes Freire d'Andrade, hoje 18 de Outubro de 1817." (Matilde para o Principal Sousa)

 

130

 

"Há quatro dias que não me deito e que não sinto, na minha, qualquer mão amiga..." (Matilde para o Principal Sousa)

 

 

 

 

131

 

 

 

 

"Lisboa há-de cheirar toda a noite a carne assada, Excelência, e o cheiro há-de-lhes ficar na memória durante muitos anos..."; "É verdade que a execução se prolongará pela noite, mas felizmente há luar... (D. Miguel, acto II)

 

 

 

 

136

 

 

 

 

"Não estou de luto por ele, Matilde, mas a noite passada não pude dormir. Passei a noite a pensar e, de madrugada, percebi que não sou quem julgava..." (Sousa Falcão para Matilde, acto II)

 

 

 

 

 

 

140

 

 

 

 

"Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela nos ensina!

Até a noite foi feita para que vísseis até ao fim...

Felizmente - felizmente há luar!" (Matilde para o Povo, acto II)

 

Joaquim Matias da Silva

Veja aqui outras informações sobre o contexto histórico.

 

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