Neste poema, constituído por três estrofes irregulares,
o eu lírico sente-se dominado completamente pelo anjo /
mulher. Este submissão do "eu" está bem expressa no
presente do indicativo do verbo dominar ("domina") e na
expressão "sem fim", que é determinada por esse verbo e
realça de sobremaneira esse domínio, levado até à
infinitude. Ora, esse poder avassalador que o "tu" tem
sobre o "eu" só pode resultar do facto do primeiro ser um
ser superior, divino, um anjo. Não pode ser um ser
terreno, uma mulher, que tal força não poderia ter. A
ele entrega, humilde e cobardemente, o sujeito da
enunciação todo o seu ser ("Anjo és, que me domina / Teu
ser o meu ser sem fim"): a sua razão, caraterizada pelo
adjetivo "insolente" (= arrogante) que, pelo facto de
possuir esta caraterística, não deveria submeter-se tão
facilmente aos caprichos do "tu" ("Minha razão insolente /
Ao teu capricho se inclina"); e a sua alma "forte",
"ardente" (dupla adjetivação, que vem reiterar a ideia
de que nem por esse facto o "eu" se vê impune à sujeição),
rebelde, porque não está (estava) habituada a
sujeitar-se fosse ao que fosse, como o explicita a
expressão metafórica "Que nenhum jugo respeita".
O sujeito poético vê-se, pois, uma presa do destino,
sente-se um prisioneiro de um ser omnipotente que só
pode ser um anjo - note-se que, nesta primeira estrofe
de doze versos de redondilha maior, a expressão "Anjo
és" (anástrofe, com anteposição do predicativo do
sujeito, pela qual se reforça a ideia de semelhança
entre a mulher amada e um ser divino) é empregue três
vezes, sempre a encabeçar o verso, vindo por esse motivo
enfatizar o poder divino desse ser. Não nos devemos
esquecer que o número três se prende com a divindade e,
se levarmos em linha de conta os números doze - versos -
e o sete - sílabas métricas -, o simbolismo daí
resultante ganha mais expressão. Não nos podemos
esquecer igualmente que, às vezes, a necessidade
premente de afirmar uma coisa poderá sugerir já a sua
própria negação.
Mas se até este momento o eu lírico não parece ter
dúvidas em dizer que esse "suserano" a quem presta
vassalagem só pode ser um anjo e não uma mulher, na
segunda estrofe vemo-lo a começar a ficar assolado por
incertezas sobre a natureza desse ser: "... Mas que anjo
és tu?". E isto porque esse hipotético ser divino não está em consonância com a
imagem convencional que todos temos de anjo: onde está a
"... c'roa nevada / Das alvas rosas do céu."? Por que é
que não se vê "... ondear o véu / Com que o sôfrego
pudor / Vela os mistérios d'amor."? Por que é que os
seus olhos têm a cor negra, a "Cor de noite sem estrela"
(imagem metafórica que vem realçar a negritude dos seus
olhos, porque nem sequer há uma estrela que ilumine um
pouco esse céu)? E por que será que ele não irradia luz
("A chama é vivaz e é bela, / Mas luz não tem..."? Ou
seja, o que é apanágio de um anjo (coroa, véu, luz) está
arredado dos olhos do tu; dele só se revelam
características físicas bem marcadas: "Em teu seio
ardente e nu", "A chama é vivaz e bela". Por isso, não
admira que também as incertezas sobre a proveniência
desse "anjo" se avolumem, de que são exemplos
ilustrativos as interrogações, a sugerirem dúvida e
desassossego ("... - Que anjo és tu? / Em nome de quem
vieste?), e as contradições ou os oxímoros, onde os
elementos antagónicos se ligam pela conjunção
coordenativa disjuntiva ou: "Paz ou guerra me trouxeste
/ De Jeová ou Belzebu?". Agora o "eu" mostra-se indeciso;
já não sabe se se trata de um anjo-bom (ligado ao Céu, a
Deus) ou de um anjo-mau (caído na Terra, mais ligado ao
demónio tentador, ao vício da carne).
Às perguntas formuladas pelo "eu" não responde o "tu", razão
pela qual aquele vai ficando cada vez mais inquieto,
mais angustiado. Só uma certeza lhe invade, no presente,
a alma – esse "anjo maldito" tem-no completamente à sua
mercê, acorrentou-o inexoravelmente: "... e em teus
braços / Com frenéticos abraços / Me tens apertado,
estreito!...". A sua liberdade foi-lhe totalmente
coartada, qual presa que se deixou apanhar desprevenida
pelas garras do seu predador. Daí o seu sofrimento, bem
espelhado na palavra "lágrima" e nas formas verbais que
se seguem "... Escaldou-me... / Queima, abrasa,
ulcera... ". Há, como se vê por esta sequência verbal,
uma degradação crescente de todo o seu ser, que já vem
do passado, mas que no presente ganhou uma forma mais
acentuada. A gradação crescente, conseguida pelo
recurso a estas formas verbais, evidencia os diferentes
graus de uma dor que é cada vez mais forte e destrutiva
e surge como consequência desagradável e pungente do
sentimento amoroso intenso que envolveu o eu lírico, ao
qual nada mais resta fazer que entregar-se
definitivamente ao "tu". É o que a anadiplose e a
apóstrofe, que é ao mesmo tempo um oxímoro, "... Dou-me,
/ Dou-me a ti, anjo maldito" nos sugerem - repare-se que
"... Dou-me, / Dou-me..." (anadiplose) reforça a ideia
de doação total; "... anjo maldito" (apóstrofe e oxímoro)
faz ressaltar a antinomia presente na mulher amada - ela
é, simultaneamente, bênção e maldição, vindo dar sentido
à frase "sem ti não viverei e contigo morrerei". No
entanto, essa entrega não é inconsciente, dado que ele
está bem ciente de que se vai queimar pela chama do
amor-paixão, que o há-de arrastar fatalmente para o
abismo: "Que este ardor que me devora / É já fogo de
precito (= condenado), / Fogo eterno, que em má hora /
Trouxeste de lá...".
A interrogação final "Anjo és tu ou és mulher?", embora
ainda nos coloque o sujeito poético numa esfera de
indecisão, vem pôr em causa a afirmação do verso 12
("Anjo és tu, não és mulher"), pois parece apontar mais
para a identificação desse "anjo" com a "mulher", uma
mulher que tem, então, poderes demoníacos, malévolos, de
tal modo nefastos que são capazes de provocarem a
alienação do "eu". Confrontamo-nos aqui com mais uma das
convenções românticas: mulher-anjo/ mulher-demónio. A
mulher era, efectivamente, para os românticos, ora um
ser belo, divino, salvador (anjo), ora um ser que podia
seduzir despudoradamente, que podia ferir, matar (de
amores), ao fazer submeter-se-lhe a razão e o
sentimento, o corpo e o espírito do "eu". Todavia, os
românticos desejavam ardentemente a sua companhia,
aparecendo, não raro, como a única razão do seu viver /
morrer.
Entretanto, este poema apresenta outras características
românticas, a saber: o tom parateatral do discurso,
visível não só na relação conflituosa "eu / tu" mas também
nas muitas frases interrogativas que se vão espalhando
ao longo do texto; o pendor dramático da composição,
proveniente dessa mesma relação conflituosa; o
vocabulário corrente, musical e oralizante; a
versificação livre e variedade estrófica; o aparecimento
do homem dominado pelas incertezas, cheio de
insatisfação e de angústia; o amor sentimental e
sensorial; o masoquismo em que se compraz o sujeito
poético (apesar de, inicialmente, confessar-se um ser
rebelde, irreverente, superior e até autocontrolado o
suficiente para resistir aos encantos e ao aliciamento
do "tu", o "eu" é obrigado a entregar-se a um amor intenso,
que lhe causa sofrimento, mas onde só encontra a sua
razão de viver); o tom confessional do texto; e a
presença da fatalidade.
Tendo em consideração as ideias atrás expostas, fácil é
concluir que esta composição poética tem como tema o
fatalismo amoroso e como assunto a confissão feita pelo
"eu" ao "tu" sobre o poder que este exerce sobre ele, pondo
em destaque a atitude de vassalagem em que se encontra.
Com vimos, este assunto desenvolve-se em três partes,
correspondendo cada uma delas a uma das estrofes.
O título, que condensa e sintetiza as ideias que serão
desenvolvidas ao longo do poema, é bem ilustrativo da
sublimação e da divinização da mulher amada.