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I

BARCA BELA

 


Pescador da barca bela,
Onde
vas pescar com ela,
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

 

            Deita o lanço com cautela,
            Que a sereia canta bela...
            Mas cautela,
            Oh pescador!

 

            Não se enrede a rede nela,
            Que perdido é remo e vela
            Só de vê-la,
            Oh pescador.


Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Oh pescador!

 

 

COMENTÁRIO AO POEMA

 

 

Esta belíssima composição faz-nos remontar a um tipo de poesia popular de muito longa tradição: as cantigas trovadorescas, mais precisamente as barcarolas medievais. À semelhança do que acontecia com muitas composições da lírica trovadoresca, também o poema Barca Bela é possuidor de um ritmo cadenciado, binário (bipartição das estrofes) melodioso, enleante, embalador, de uma musicalidade inebriante, a fazer lembrar ora o vaivém ondulante e baloiçante do mar ora o canto suave e irresistível das sereias. Esse ritmo e essa musicalidade são conseguidos não só pelas rimas como pelas outras sonoridades que constituem objecto de significação, de entre as quais merecem uma referência especial as aliterações: nas consoantes labiais /-b/ e /-p/, na primeira estrofe, que sugerem a azáfama e uma certa imprudência do pescador que, embrenhado na sua actividade, não se apercebe dos perigos que corre; na consoante labial contínua /-v/, que vem reforçar as ideias atrás expressas; na consoante sibilante /-s /, na terceira quadra, que traduz o ciciar sedutor da sereia; nas consoantes velares /-c, q /, na mesma estrofe, a sugerirem o trabalho contínuo e cadenciado do pescador, que continua indiferente aos perigos que o rodeiam; na consoante vibrante /-r/, na quarta estrofe, a evidenciar, mais uma vez, a azáfama do homem do mar ao recolher a rede, bem como o próprio entrançamento ou emaranhamento dessa mesma rede, com todo o perigo que daí pode advir.

 

 

Ulisses enfrentando as sereias. Óleo sobre tela, de Herbert James Draper.

 

Mas há outros elementos que aproximam esta poesia da lírica trovadoresca: a existência do refrão ("Oh pescador" - na primeira estrofe seguido de um ponto de interrogação, a sugerir a perplexidade do sujeito poético face a uma eventual imprudência do pescador que parte na "barca bela", sabe-se lá para onde; nas outras quadras seguido de ponto de exclamação, a traduzir já uma certa angústia do eu lírico, que antevê o pescador a caminhar gradualmente rumo à perdição, caso não siga os seus conselhos); a simplicidade da linguagem; o discurso repetitivo e apelativo; a estrutura dialógica; a presença da natureza; o recurso à métrica tradicional (versos de redondilha maior, atendendo a que se juntarmos o terceiro verso e o refrão também contamos sete sílabas métricas; e um certo clima de fatalidade e de dramatismo que perpassa por toda a composição e que é sugestionado pelo adensamento dos acontecimentos e toda a sua envolvência, pela presença da estrela e pela veemência do(s) apelo(s) do Poeta, a ressumar toda a urgência na ultrapassagem de uma situação de perigo iminente - "Colhe a vela"; "Mas cautela"; "... foge dela / Foge dela"; as repetições de tipo paralelístico; e a forma verbal arcaizante "vas".

 

A nível morfossintáctico podem relevar-se os substantivos que se ligam ao mar e à actividade piscatória: pescador, barca, estrela, céu, lanço, sereia, rede, remo, vela. Quanto às formais verbais, três delas são merecedoras de uma atenção especial: pescar, porque enuncia a acção que está na base do poema; canta, por se reportar à sereia, cujo canto enleante seduzia inexoravelmente os homens; foge (repetida), dado que reforça o conselho que o poeta dá ao pescador para se livrar do canto mavioso da sereia enquanto é tempo. O adjectivo bela marca e qualifica dois substantivos: barca (duas vezes) e sereia. Este adjectivo indicia bem os dois pólos em confronto no poema: por um lado, a barca é bela porque permite ao pescador o sustento, a vida; por outro, a sereia é bela mas sedutora, arrastando inapelavelmente o pescador para as profundidades oceânicas.

 

As linhas de leitura acima expostas levam-nos para uma tripla leitura do poema: uma, mais denotativa, refere-se à vida de um pescador (dos pescadores, em geral), que, na sua azáfama diária, é (são) muitas vezes perseguido(s) pelas tragédias marítimas, vítima(s) de naufrágios; as outras advêm das metáforas utilizadas - barca bela, mar, sereia e pescador. Assim, pescador  e mar podem ser metáforas do homem universal e da vida que ele terá de enfrentar. Ao longo da sua existência, o homem que navega (barca bela) na vida (mar), poderá encontrar uma infinidade de obstáculos, simbolizados pela beleza da barca e da sereia que canta bela - uma e outra correspondendo ao apelo de uma vida fácil, à oferta de uma estrada larga, cheia de facilidades, para logo se estreitar insidiosamente, repleta de engodos -, pela última estrela que no céu nublado se vela - luz que deveria iluminar o caminho a seguir, mas que se esconde traiçoeiramente, deixando o homem entregue às trevas - e pela rede que se enreda - muitas vezes o homem torna-se prisioneiro das suas próprias paixões. Portanto, ao mar encapelado da vida deverá o homem agir com cautela, com prudência, com inteligência, com equilíbrio e sabedoria. Quando o Poeta avisa o pescador para os perigos do naufrágio, ele está ao mesmo tempo a chamar a atenção para os dramas da existência humana e para a fatalidade que persegue os homens.

 

Finalmente, pescador e sereia podem ser metáforas do homem (Almeida Garrett? -elemento masculino que é alvo de sedução) e da mulher (Viscondessa da Luz? - elemento feminino que é sedutor). Estaríamos, então, aqui, perante uma das convenções românticas – a mulher-demónio. Entre ambos, estabelece-se uma atracção fatalista (estrela, canto da sereia) que leva o homem à perdição, sustentada por um mundo cheio de instabilidade (mar).

 

Quer optemos por uma leitura mais superficial, mais denotativa, quer por uma leitura mais profunda, mais simbólica, uma coisa é certa: o poema continua a ser belo, o seu poder sugestivo e sedutor é deveras notável. Cada palavra ou verso lidos são um manancial de deleite estético. Mas há outro dado que é inquestionável: no desenvolvimento do assunto, o clima de fatalidade e de tragicidade vai-se acentuando aos poucos, como aos poucos o homem pode destruir irremediavelmente a sua vida. Note-se que na primeira quadra há um primeiro aviso ao pescador, porque o perigo da sedução e do eventual desequilíbrio emocional já lá estão – barca bela; depois, segue-se o perigo da escuridão, na segunda quadra; na terceira, é a vez da sereia aparecer com todo o seu poder encantatório; na quarta, já se antevêem as consequências desastrosas de uma navegação sem rumo certo; finalmente, na última, é vincada a urgência da fuga, face ao perigo iminente, até porque os elementos sedutores – a barca bela e a sereia – estão aí conjugados. Daqui se infere que esta composição tem também uma essência trágica, onde podemos vislumbrar a hybris, nos desafios lançados pelo pescador e pela sereia, o pathos, no sofrimento a que poderá levar uma atitude impensada do sujeito poético, a ananké, na presença do destino (estrela), a catástrofe, na perdição do pescador (homem - "Que perdido é remo e vela") e toda a envolvência dramática exterior (trevas - "Não vês que a última estrela / No céu nublado se vela?").

 

Para terminar a análise deste poema, não queremos deixar de referir mais quatro coordenadas românticas presentes no mesmo: a superioridade e a atracção fatal da mulher (simbolizada na sereia), o amor-perdição, a ligação do poema à tradição da poesia popular e a acentuação da "teatralidade" do discurso.

 

Elaborado e publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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