"Destino" é um belo poema constituído por três oitavas
de versos de redondilha maior, possuidor de uma
musicalidade deveras inebriante, que lhe é conferida
pela rima, pela ritmo cadenciado, binário (os versos são
acentuados nas terceira e sétima sílabas métricas), pela
alternância entre sons abertos e fechados e, sobretudo,
pelas bonitas aliterações que se disseminam um pouco por
toda a composição: em /-c, -q/ , em /-s/ ("Quem disse à
estrela o caminho / Que ela há-de seguir no céu? / A
fabricar o seu ninho / Como é que a ave aprendeu?" - a
sugerirem movimento e o som dos passos de quem caminha); em /-s/, em /-b, -v/ , em
/-p/ e em /-z / ("Ensinou alguém
à abelha / Que anda no prado a zumbir /
Se à flor branca ou à vermelha / O seu mel há-de ir
pedir?") - a traduzirem, de novo, a ideia de
movimento, a azáfama da abelha que anda de flor em flor
em busca
do pólen, situação que, aliada à palavra onomatopaica
"zumbir", deixa transparecer ainda a ideia de um vaivém constante da abelha); em /-t/ em /-s/, em /-v/, em /-c/ e em /-p/ ("Por instinto se
revela, / Eu no teu seio divino / Vim cumprir o meu
destino... / Vim, que em ti só sei viver, / Só por ti
posso morrer.") - a evidenciarem um certo desencanto do
sujeito poético pelo facto de se sentir inexoravelmente
preso ao "tu". Podemos dizer, em suma, no que concerne a
este assunto, que a harmonia que se verifica no mundo
exterior, protagonizada pela estrela, pela ave, pela
abelha, pela planta e pelo verme, é corroborada pelas
sonoridades do próprio poema.
A temática do texto é o amor fatal, o que faz com que
se estabeleça desde logo uma ligação evidente com o título
- "Destino". Essa temática é desenvolvida em três partes
lógicas, sendo que a primeira engloba os doze primeiros
versos, a segunda os quatro versos seguintes e a
terceira a última oitava. Na primeira parte, o sujeito
poético questiona-se sobre o porquê de as coisas
acontecerem de forma tão natural, tão espontânea, tão
harmoniosa. E fá-lo recorrendo a uma série de perguntas, para as quais não dá resposta, estando ela,
no entanto, implícita (interrogações retóricas) - é o destino que tudo controla: o
universo ("Quem disse à estrela o caminho / Que ela
há-de seguir no céu?"), o ar / terra ("A fabricar o seu
ninho / Como é que a ave aprendeu? / Quem diz à planta -
«Floresce!» - "; "Como a abelha corre ao prado")
e a
terra ("E ao mudo verme que tece / Sua mortalha de
seda").
O destino é, pois, uma força inexorável que tudo
limita e tudo possibilita. É ele que faz com que
a estrela mantenha o seu rumo certo na
infinidade cósmica, com que a ave saiba como e
quando construir o
seu ninho,
com que a árvore descubra a altura ideal para florir,
com que o verme, instintivamente, teça, com fios de
seda, a sua própria mortalha, onde há-de vir a jazer,
não sem antes dar
origem a um novo ser, e com que a abelha airosa,
saltitando de flor em flor, busque azafamadamente o seu
alimento. Saliente-se a gradação descendente na enumeração
dos vários elementos da Natureza referidos, a reforçar a
ideia da omnipresença e omnipotência do destino, ao qual
tudo se submete, passando pelos espaços cósmicos até
chegarmos ao lugar mais recôndito da terra.
Ora, este poder do destino também se exerce sobre os
humanos. É o que nos confirma a segunda parte do poema,
quando o sujeito poético também se apresenta como vítima
dessa força superior que faz com que o amor que nutre
pela amada seja um amor fatal. A sua "querida" –
apóstrofe – domina-o totalmente, corpo e alma.
Confessa-nos que ela é o seu ser (" Que eras tu meu ser,
querida"), através de uma metáfora, que aponta para uma
fusão completa de dois seres, para um amor intenso,
possessivo. Também metaforicamente, esclarece-nos que os
olhos da amada são a sua vida (veja-se a simbologia dos
olhos, que são a luz que orientam, regulam, a vida do
Poeta - mais uma vez confrontamo-nos com o amor
obsessivo, fatal). Enfim, o sujeito poético só encontra
alegria, verdadeira felicidade ("... todo o meu bem") se
puder usufruir da companhia da sua amada. E tudo isto
acontece sem que ele saiba o porquê: "Ai! não mo disse
ninguém." - a interjeição "ai!" sugere uma certa mágoa
pelo facto de o "eu" sentir que perdeu toda a sua liberdade
interior, tornando-se quase um joguete nas mãos do "tu"
ou, se quisermos, do destino.
Na última parte da composição, os elementos enumerados
nas duas primeiras partes são, agora, comparados. Com
efeito, o sujeito poético, recorrendo à comparação e à
anáfora ("Como... / Como...") diz-nos que tal como a
abelha que, no prado, poisando de flor em flor, anda em
busca do pólen com o qual fabricará o seu alimento (a
sua vida), tal como a estrela respeita as leis cósmicas,
de acordo com a sua rota, e tal como qualquer ser segue o
seu fado - repare-se que se parte do concreto para o
abstrato - também ele se limita a cumprir o seu destino,
entregando-se como que mecanicamente à sua amada,
representada e endeusada pela sinédoque ("Eu no teu
seio...") e pela adjectivação ("... divino").
A
divindade e o consequente poder do "tu" é de tal ordem que
o "eu" sente-se completamente subjugado: só nela encontra
a sua razão de viver ("Vim cumprir o meu destino / Vim,
que em ti só sei viver" - repare-se que a anáfora "vim" traduz
obrigatoriedade, fatalidade), só por ela pode morrer
("Só por ti posso morrer"). O domínio exclusivo que o
"tu"
exerce sobre o "eu" está bem espelhado na repetição do
advérbio de exclusão «só» e na antítese «viver» /
«morrer». A mulher (amada) tem poderes ilimitados e
contraditórios - ora dá a vida ora dá a morte - e ao
homem (sujeito poético) nada mais resta que prestar uma
espécie de vassalagem face ao seu suserano.
Este poema, como quase todos os que compõem a colectânea
Folhas Caídas, está repleto de convenções românticas:
domínio do coração e da sensibilidade, em detrimento da
razão; arrebatamento e exaltação desmedida; relação
conflituosa entre o "eu" (Homem) e o "tu" (Mulher), o que
faz com que o primeiro viva cheio de incertezas, de
insatisfação e de angústia; identificação da mulher a um
anjo que tanto pode ser bom como mau (mulher-anjo /
mulher-demónio); apresentação do destino como uma força
inexorável contra a qual nada há a fazer; e constante
presença de antíteses (Céu / Terra, Mulher / Homem,
Espírito / Matéria, Luz / Trevas, Branco / Negro,
Coração / Alma, Sonho / Real, Vida / Morte, Amor /
Desamor, Céu / Inferno, Bem / Mal, etc...etc...), entre
outras julgadas mais pertinentes.
(prova de exame nacional de Literatura Portuguesa, código 734, 2011,
1.ª
fase)
Apresente, de forma estruturada, as suas respostas aos
itens que se seguem.
1. Desde o início do poema até ao verso 12, repete-se um
mesmo processo estilístico: a pergunta retórica. Refira
o efeito de sentido que esse processo estilístico
produz.
2. Comente a importância das referências a elementos da
natureza feitas ao longo do poema.
3. Indique os traços principais do «tu» a que o sujeito
lírico diretamente se dirige, fundamentando a resposta
em elementos do texto.
4. Explicite as relações que se podem estabelecer entre
o título e o conteúdo do poema.
CENÁRIOS DE RESPOSTA:
1. A pergunta retórica, que, portanto, não é para ser
respondida, produz, pela sua insistência (vv. 1 a 12),
um efeito de convicção: a resposta às sucessivas
interrogações, que seria, por exemplo, «ninguém» (v.
16), sublinha a predestinação que parece conduzir todas
as coisas e todos os seres, e cuja força é revelada pelo
«instinto» (v. 20).
2. As referências a elementos da natureza, isto é, à
«estrela» (v. 1), à «ave» (v. 4), à «planta» (v. 5), ao
«verme» (v. 6), à «abelha» (v. 9), ao «prado» (v. 10), à
«flor» (v. 11) e aos seus movimentos ou modos de vida
funcionam como a demonstração de uma capacidade,
intrínseca a todos os seres, de serem fiéis ao seu
destino. Através destas referências, pretende-se
transmitir a ideia de espontaneidade e de
inevitabilidade do amor que o «eu» sente, como se esse
amor fosse uma força da natureza, independente da sua
vontade.
3. O «tu» é o objeto do amor apaixonado do «eu», num
sentido que parece indicar a total identificação entre
ambos. Do «tu» é destacado um elemento concreto, os
«olhos» (v. 14), que são o que melhor pode caraterizar a
intensidade dessa identificação. Além disso, o adjetivo
que marca a expressão «no teu seio divino» (v. 21) é um
traço da qualidade única e sagrada de que o «tu» se
reveste aos olhos do «eu».
4. O título do poema, «Destino», palavra que depois é
repetida no verso 22, desta vez associada ao amor que o
«eu» sente, é a resposta às perguntas retóricas
colocadas na primeira parte do poema, resposta reforçada
pela palavra «instinto» (v. 20), extensiva a «todo o
ente» (v. 19). Sentido essencial do poema, o «Destino»
marca uma visão romântica da natureza, animada por uma
ordem perfeita e predeterminada, e do amor humano como
parte dessa harmonia.