Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?
Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?
Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...
COMENTÁRIO A "ESTE INFERNO DE AMAR"
Este poema, constituído por três estrofes regulares de
seis versos eneassilábicos, tem como temática central as
contradições do amor. Essas contradições tornam-se logo
evidentes na primeira estrofe, quando o sujeito poético,
através do recurso a metáforas e a dois oxímoros,
reconhece que o amor é uma "chama que alenta e consome",
"Que é vida - e que a vida destrói -".
O desenvolvimento desta temática processa-se em três
partes, correspondendo cada uma delas a uma das
estrofes.
Na primeira parte, o sujeito poético, no presente (bem
marcado pela utilização da maioria dos verbos no
presente do indicativo: amo, alenta, consome, é,
destrói), manifesta uma certa perplexidade e
questiona-se sobre como nasceu em si um amor tão fatal,
um amor que apresenta uma dupla faceta, pois ao mesmo
tempo que dá vida também dá a morte, um amor que, tal
como uma chama que se ateou e ganhou um poder
devastador, também se apoderou de todo o seu ser e não
lhe dá agora tréguas: "Como é que se veio a atear, /
Quando - ai quando se há-de ela apagar?". Esse estado de
perplexidade, de angústia, de desespero, de sofrimento,
mesmo de alienação, está bem evidenciado pelas
interrogações, pela exclamação ("... - como eu amo!"),
pelas frases sincopadas, feitas de pausas e de avanços
(vejam-se os travessões e as reticências), e pela
interjeição "ai". O sujeito poético quer ultrapassar
esta situação o mais rapidamente possível, embora não
saiba se isso será viável. É o que nos demonstra o
último verso, ora através da diácope e da interjeição
("Quando, ai quando...") ora através da conjugação
perifrástica, a traduzir futuridade, e da interrogação
("... se há-de ela apagar?").
Na segunda parte, há uma evocação saudosa do passado e
da vida serena e sonhadora vivida pelo sujeito poético,
quando se entregava, possivelmente, a um amor mais puro,
mais espiritualizado, mais platónico. Mas nem tudo nessa
vida foi felicidade, contrariamente ao que o vocabulário
utilizado podia indiciar: "Era um sonho...", "Em que paz
tão serena a dormi!/ Oh! que doce era aquele sonhar... /
Quem me veio, ai de mim! despertar?". É que deparamo-nos
aqui com expressões e um advérbio que expressam dúvida
("Eu não sei, não me lembra...", "Era um sonho
talvez...") e, mais sugestivo ainda, com a forma verbal
"dormi" - o eu lírico ao dizer "Em que paz tão serena a
dormi" - e não vivi - está a reconhecer que, apesar de
todo esse mundo dourado de sonho e de fantasia, não
viveu verdadeiramente. Tratou-se mais de uma vivência
platónica, idealizada, do que concreta. Será que lhe
faltava, nessa espécie de local paradisíaco, a
satisfação carnal, o prazer proporcionado pelos
sentidos? Certamente que sim, porque não há verdadeiro
amor, no sentido estrito do termo, se este não souber
conciliar as facetas espiritual e física. Quem ama tem
de se doar inteiramente, alma e corpo, e extrair prazer
interior, mas também carnal, dessa doação.
Na terceira parte da composição (terceira estrofe), o
sujeito poético reconhece que um dia, sem saber como
(repare-se no andamento titubeante dos versos "E os meus
olhos, que vagos giravam", "Que fez ela? Eu que fiz? -
não no sei;", a sugerir essa incerteza e uma espécie de
fatalidade inerente à paixão que entre eles surgiria), o
amor fatal irrompeu no seu coração e que,
paradoxalmente, esse amor ajudou-o a renascer para a
vida: "Mas nessa hora a viver comecei...".
O permanente jogo presente / passado volta a
verificar-se nesta terceira parte do poema – o eu
lírico, no presente ("Só me lembra..."), recorda o
momento em que se verificou a irrupção desse fatal amor
("Eu passei... ", "E os meus olhos, que vagos giravam, /
Em seus olhos ardentes os pus", "Que fez ela? eu que
fiz?..."). As formas verbais no passado são
predominantes, mas o passado relembrado nesta estrofe
não é tão remoto como o da segunda. Ainda sobre a
oposição presente / passado, acrescentaremos que ela
está em consonância com a oposição amor fatal / amor
espiritualizado, puro, vivido à maneira petrarquista.
O que é certo é que o sujeito poético encontra-se,
agora, possuído de um amor ardente de tonalidades
trágicas, como o comprovam: o vocabulário utilizado
("Este inferno de amar...", "Esta chama que alenta e
consome", "... e que a vida destrói", "... ai quando se
há-de ela apagar?"); o tom coloquial (parateatral) do
texto, que se manifesta no recurso às interjeições
("ai", "oh!"), numa certa quebra da sequência lógica da
frase ("Este inferno de amar - como eu amo / Quem mo pôs
aqui n'alma ... quem foi?"), num andamento titubeante da
mesma, como já referimos ("Eu não sei, não me lembra; o
passado, / A outra vida... / Era um sonho talvez... -
foi um sonho -") - note-se que este poema mais não é do
que um monólogo interior ou um diálogo do eu para o eu,
embora a presença do tu esteja sempre subjacente, o que
também poderá explicar essa quebra da frase e a própria
divisão do eu relativamente ao amor ambicionado; e a
permanente tensão entre luz ("chama", "atear",
"despertar", "sol", "luz", "ardentes") e trevas
("inferno", "consome", "destrói", "apagar", "dormi").
Diga-se a este propósito, fazendo nossas as palavras de
J. Prado Coelho, que o tema constante de Garrett, uma
espécie de "leitmotiv" das Folhas Caídas, é "uma
oposição dinâmica, uma permanente tensão entre luz e
trevas". Neste contexto, as trevas representam o que é
da terra, logo, o amor carnal, sensual, enquanto a luz
simboliza o que é do céu, o amor espiritualizado, puro,
desprovido dos prazeres carnais. Mas as frequentes
oposições que nos surgem nos poemas que constituem as
Folhas Caídas talvez sejam ainda um reflexo da formação
clássico-romântica de Garrett.
A nível formal, podemos dizer, muito sinteticamente, que
neste poema não há rigidez quer a nível rimático quer a
nível rítmico. Ainda encontramos rimas emparelhadas e
cruzadas, mas também há versos brancos. Quanto ao ritmo,
este é irregular, ora binário (por força das
bimembrações do verso - vejam-se os travessões e as
frases reticentes) ora ternário (imposto pela
trimembração de alguns versos e pela acentuação nas
terceira, sexta e nona sílabas). Esta irregularidade
rítmica, feita de cadências diversas, está de acordo com
o estado de espírito do sujeito poético, também ele a
viver uma situação de indefinição e de indecisão, ora a
manifestar saudades dos tempos em que vivia um amor
puro, mas que não lhe trazia felicidade, ora a viver um
amor fatal, com o tónico do sensualismo, mas que lhe
causava sofrimento, desassossego, inquietação.
Pelo que vimos, o tu, ou seja, a mulher, é a causadora
deste estado de tensão do eu, pois é ela que conduz o
homem ao sofrimento metaforizado aqui pelo inferno
("Este inferno de amar - como eu amo!"). Tal dor é
contínua e o poeta não vislumbra saída para ela: "Quando
- ai quando se há-de ele apagar?" - realce-se a
repetição do advérbio de tempo quando, a traduzir ânsia,
a interjeição ai, a sugerir pesar por não ver chegar ao
fim o seu pesadelo, a conjugação perifrástica, a apontar
para uma futuridade que se antevê longínqua, e a
interrogação angustiante. Estamos, por esta razão,
perante mais uma das convenções românticas – a
mulher-demónio.