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VIII

ESTE INFERNO DE AMAR

 

Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

 


 

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

 

 

 

COMENTÁRIO A "ESTE INFERNO DE AMAR"

 

Este poema, constituído por três estrofes regulares de seis versos eneassilábicos, tem como temática central as contradições do amor. Essas contradições tornam-se logo evidentes na primeira estrofe, quando o sujeito poético, através do recurso a metáforas e a dois oxímoros, reconhece que o amor é uma "chama que alenta e consome", "Que é vida - e que a vida destrói -". O desenvolvimento desta temática processa-se em três partes, correspondendo cada uma delas a uma das estrofes.

 

Na primeira parte, o sujeito poético, no presente (bem marcado pela utilização da maioria dos verbos no presente do indicativo: amo, alenta, consome, é, destrói), manifesta uma certa perplexidade e questiona-se sobre como nasceu em si um amor tão fatal, um amor que apresenta uma dupla faceta, pois ao mesmo tempo que dá vida também dá a morte, um amor que, tal como uma chama que se ateou e ganhou um poder devastador, também se apoderou de todo o seu ser e não lhe dá agora tréguas: "Como é que se veio a atear, / Quando - ai quando se há-de ela apagar?". Esse estado de perplexidade, de angústia, de desespero, de sofrimento, mesmo de alienação, está bem evidenciado pelas interrogações, pela exclamação ("... - como eu amo!"), pelas frases sincopadas, feitas de pausas e de avanços (vejam-se os travessões e as reticências), e pela interjeição "ai". O sujeito poético quer ultrapassar esta situação o mais rapidamente possível, embora não saiba se isso será viável. É o que nos demonstra o último verso, ora através da diácope e da interjeição ("Quando, ai quando...") ora através da conjugação perifrástica, a traduzir futuridade, e da interrogação ("... se há-de ela apagar?").

 

Na segunda parte, há uma evocação saudosa do passado e da vida serena e sonhadora vivida pelo sujeito poético, quando se entregava, possivelmente, a um amor mais puro, mais espiritualizado, mais platónico. Mas nem tudo nessa vida foi felicidade, contrariamente ao que o vocabulário utilizado podia indiciar: "Era um sonho...", "Em que paz tão serena a dormi!/ Oh! que doce era aquele sonhar... / Quem me veio, ai de mim! despertar?". É que deparamo-nos aqui com expressões e um advérbio que expressam dúvida ("Eu não sei, não me lembra...", "Era um sonho talvez...") e, mais sugestivo ainda, com a forma verbal "dormi" - o eu lírico ao dizer "Em que paz tão serena a dormi" - e não vivi - está a reconhecer que, apesar de todo esse mundo dourado de sonho e de fantasia, não viveu verdadeiramente. Tratou-se mais de uma vivência platónica, idealizada, do que concreta. Será que lhe faltava, nessa espécie de local paradisíaco, a satisfação carnal, o prazer proporcionado pelos sentidos? Certamente que sim, porque não há verdadeiro amor, no sentido estrito do termo, se este não souber conciliar as facetas espiritual e física. Quem ama tem de se doar inteiramente, alma e corpo, e extrair prazer interior, mas também carnal, dessa doação.

 

Na terceira parte da composição (terceira estrofe), o sujeito poético reconhece que um dia, sem saber como (repare-se no andamento titubeante dos versos "E os meus olhos, que vagos giravam", "Que fez ela? Eu que fiz? - não no sei;", a sugerir essa incerteza e uma espécie de fatalidade inerente à paixão que entre eles surgiria), o amor fatal irrompeu no seu coração e que, paradoxalmente, esse amor ajudou-o a renascer para a vida: "Mas nessa hora a viver comecei...".

O permanente jogo presente / passado volta a verificar-se nesta terceira parte do poema – o eu lírico, no presente ("Só me lembra..."), recorda o momento em que se verificou a irrupção desse fatal amor ("Eu passei... ", "E os meus olhos, que vagos giravam, / Em seus olhos ardentes os pus", "Que fez ela? eu que fiz?..."). As formas verbais no passado são predominantes, mas o passado relembrado nesta estrofe não é tão remoto como o da segunda. Ainda sobre a oposição presente / passado, acrescentaremos que ela está em consonância com a oposição amor fatal / amor espiritualizado, puro, vivido à maneira petrarquista.

 

O que é certo é que o sujeito poético encontra-se, agora, possuído de um amor ardente de tonalidades trágicas, como o comprovam: o vocabulário utilizado ("Este inferno de amar...", "Esta chama que alenta e consome", "... e que a vida destrói", "... ai quando se há-de ela apagar?"); o tom coloquial (parateatral) do texto, que se manifesta no recurso às interjeições ("ai", "oh!"), numa certa quebra da sequência lógica da frase ("Este inferno de amar - como eu amo / Quem mo pôs aqui n'alma ... quem foi?"), num andamento titubeante da mesma, como já referimos ("Eu não sei, não me lembra; o passado, / A outra vida... / Era um sonho talvez... - foi um sonho -") - note-se que este poema mais não é do que um monólogo interior ou um diálogo do eu para o eu, embora a presença do tu esteja sempre subjacente, o que também poderá explicar essa quebra da frase e a própria divisão do eu relativamente ao amor ambicionado; e a permanente tensão entre luz ("chama", "atear", "despertar", "sol", "luz", "ardentes") e trevas ("inferno", "consome", "destrói", "apagar", "dormi"). Diga-se a este propósito, fazendo nossas as palavras de J. Prado Coelho, que o tema constante de Garrett, uma espécie de "leitmotiv" das Folhas Caídas, é "uma oposição dinâmica, uma permanente tensão entre luz e trevas". Neste contexto, as trevas representam o que é da terra, logo, o amor carnal, sensual, enquanto a luz simboliza o que é do céu, o amor espiritualizado, puro, desprovido dos prazeres carnais. Mas as frequentes oposições que nos surgem nos poemas que constituem as Folhas Caídas talvez sejam ainda um reflexo da formação clássico-romântica de Garrett.

 

A nível formal, podemos dizer, muito sinteticamente, que neste poema não há rigidez quer a nível rimático quer a nível rítmico. Ainda encontramos rimas emparelhadas e cruzadas, mas também há versos brancos. Quanto ao ritmo, este é irregular, ora binário (por força das bimembrações do verso - vejam-se os travessões e as frases reticentes) ora ternário (imposto pela trimembração de alguns versos e pela acentuação nas terceira, sexta e nona sílabas). Esta irregularidade rítmica, feita de cadências diversas, está de acordo com o estado de espírito do sujeito poético, também ele a viver uma situação de indefinição e de indecisão, ora a manifestar saudades dos tempos em que vivia um amor puro, mas que não lhe trazia felicidade, ora a viver um amor fatal, com o tónico do sensualismo, mas que lhe causava sofrimento, desassossego, inquietação.

 

Pelo que vimos, o tu, ou seja, a mulher, é a causadora deste estado de tensão do eu, pois é ela que conduz o homem ao sofrimento metaforizado aqui pelo inferno ("Este inferno de amar - como eu amo!"). Tal dor é contínua e o poeta não vislumbra saída para ela: "Quando - ai quando se há-de ele apagar?" - realce-se a repetição do advérbio de tempo quando, a traduzir ânsia, a interjeição ai, a sugerir pesar por não ver chegar ao fim o seu pesadelo, a conjugação perifrástica, a apontar para uma futuridade que se antevê longínqua, e a interrogação angustiante. Estamos, por esta razão, perante mais uma das convenções românticas – a mulher-demónio.

 

Elaborado e publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

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