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COMENTÁRIO A "NÃO TE AMO"

 

Toda a temática desenvolvida nesta composição poética assenta na antítese nuclear "Não te amo" / "quero-te". Trata-se de duas expressões antagónicas que se distribuem (com ou sem variantes) ao longo das seis quadras que formam o poema. É curioso verificar, desde já, que a primeira expressão aparece sempre na negativa. Repare-se, por exemplo, que o advérbio de negação "não" – por cinco vezes reduplicado na mesma expressão, ora colocado antes do pronome pessoal de segunda pessoa (forma de complemento - "te", identificando claramente o destinatário a quem se dirige o sujeito poético -, e da forma verbal, no presente do indicativo, "amo"), ora colocado depois desta mesma forma verbal -, é a palavra que mais se repete. Por seu lado, a segunda expressão surge-nos na afirmativa - "quero-te".

 

Francisco José de Goya y Lucientes

La Maja desnuda. Museo del Prado.

 

Paradoxalmente, porém, o acto de amar ganha um valor positivo, porque "o amor vem d' alma", "o amor é vida", o amor é beleza e luz ("... És bela;... ó bela", "estrela", "luz") e o acto de querer é caracterizado negativamente, como o expressa elucidativamente o vocabulário utilizado: "... bruto e fero", "...o sangue me devora", "... aziaga...", "... má hora", "... perdição", "De mau, feitiço azado" / Este indigno furor", "E infame sou...", "... de mim tenho espanto, / De ti medo e terror...". Ora, este aparente paradoxo só vem reforçar a ideia de que o sentimento do amor, de natureza espiritual e deflagrador da vida, é subjugado pelo poder dos sentidos, pela força do instinto. Ao amor espiritualizado sobrepõe-se o amor carnal, de carácter animalesco, que a dupla adjectivação vem acentuar: "De um querer bruto e fero".

 

Não admira, pois, que este poema seja mais um dos que constituem a colectânea Folhas Caídas a fazer a apologia do amor carnal, do amor-paixão. Talvez seja até aquele em que o amor sensual, puramente físico, aparece mais explícito e mais exaltado. E onde residirá o motivo para tal exaltação? Sem dúvida no facto do sujeito lírico se sentir, como o evidenciam as imagens metafóricas das duas primeiras quadras, um ser sem alma, um ser onde reina "A calma - do jazigo", portanto um ser desprovido de vida interior : "E a vida - nem sentida / A trago eu já comigo.". Sente-se à deriva, completamente perdido, perseguido mesmo pelo nefasto destino. Que lhe adianta agora aquela "aziaga estrela" (metáfora com que identifica a sua amada, que mais não é do que a mulher-demónio dos românticos, porque não passa de uma "aziaga estrela", expressão onde a anteposição do adjectivo, de conotação negativa e ominosa, vem intensificar os seus poderes malévolos) se ela "lhe luz na má hora / Da sua perdição" - o transporte ou encavalgamento vem realçar o aparato da sua queda. Neste momento o eu lírico já não alimenta nenhuma esperança, já não há caminho para iluminar, dado que ele navega, nesta "má hora", pelas veredas sombrias da vida. A sua eventual salvação residiria no tu, nesse ser celeste ("estrela"), só que esse tu também ele(a) se encontra no terreno propício à tentação (Terra), correndo o risco de a ela não resistir, sendo portanto precária a sua ligação ao céu. A única coisa que resta ao eu é, por isso, a matéria e é essa que, a exemplo do que sucede a um qualquer animal, precisa de ser satisfeita.

 

A incapacidade de amar faz, todavia, com que o sujeito da enunciação se sinta mal consigo mesmo, caracterizando-se como "infame" e um ser de má consciência. A ausência de amor ou a incapacidade de amar torna-o um ser frustrado e infeliz. Contudo, mostra-se convicto e firme ao frisar o desejo carnal que o absorve e, se é verdade que manifesta algum desagrado e até estranheza perante os seus próprios sentimentos, também não deixa de acentuar de forma veemente a diferença entre o sentimento, o espírito, e os prazeres físicos que, para ele, fazem todo o sentido. A mulher tem, então, para ele a importância do contacto carnal, da excitação, do prazer erótico. Assim, no fundo, o poema ganha foros de autocrítica. O drama do herói romântico que revela os seus defeitos, que reconhece a inferioridade do seu comportamento, que não consegue solucionar o conflito entre o amor puro, platónico, e o amor fruto do desejo carnal, sensual, que valoriza as sensações, os sentidos, e que faz prevalecer o domínio da mulher sobre a sua própria pessoa, são factores que nos levam a integrar, sem equívocos, este poema na corrente romântica.
 

Joaquim Matias da Silva

 

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