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COMENTÁRIO A "OS CINCO SENTIDOS"

 

"Os Cinco Sentidos" é uma espécie de poema-apologia do êxtase carnal, do prazer físico vivido com toda a intensidade e em toda a sua plenitude. Para essa histeria sensorial todas as sensações são chamadas a desempenhar a sua função.  Assim,  na

 primeira estrofe, cabe à visão, através do substantivo "olhos", ser a sensação aglutinadora; na segunda, é a audição, através do substantivo "voz"; na terceira, é o olfacto, com o substantivo "aroma"; na quarta,  é o sabor, bem evidente nos substantivos "fome" e  "sede"; finalmente, na

quinta estrofe, temos o tacto, denunciado pela presença do substantivo "carícias".

Em torno destes substantivos, e para melhor definir o sentido de cada um dos dados sensoriais que eles representam, temos outros substantivos (concretos ou abstractos), adjectivos e formas verbais, que com eles se relacionam directa ou indirectamente, de acordo com o indicado a seguir: "estrelas", "cores", "flores", "beleza" / "belas" / "vejo" - 1.ª sextilha; "rouxinol", "melodia", "harmonia" / "trina", "oiço", "sinto" - 2.ª sextilha; "aura", "flores", "incenso", "perfume" / "doce aroma" / "respira", "sinto", "aspira", "toma" - 3.ª sextilha; "pomos", "néctar", "racimo", "beijos" / "saborosos", "sequiosos", "famintos" / "tenho sede e fome" - 4.ª sextilha; "relva", "leito","delícias" / "macia" / "sentir", "tocar" - 5.ª sextilha.

 

Pelo que atrás fica exposto, está explicada a razão do título do poema – "Os Cinco Sentidos". Para se extrair o máximo prazer do amor físico, todos os sentidos devem dar o seu contributo. E é curiosa, no que a este assunto diz respeito, a progressão que se verifica na aproximação entre o eu e o tu. Tudo começa pela visão, um sentido mais amplo, porque a vista tem um maior alcance; depois vem a audição, que implica já uma maior aproximação, pois só conseguimos ouvir algo ou alguém que esteja relativamente perto de nós; segue-se o olfacto, que pressupõe uma maior proximidade em relação ao ser amado, neste caso; em seguida, vem o gosto, a fazer supor mais intimidade; finalmente, chegamos ao tacto, este, sim, a denunciar a relação física, sexual, propriamente dita. Note-se também que a carga erótica se vai tornando também mais intensa à medida que o poema avança. Palavras ou expressões como "pomos" (metáfora de seios), "racimo", "beijos", "relva" (metáfora do corpo ou, se quisermos ser mais ousados, dos pêlos espalhados por todo o corpo, nomeadamente nas zonas mais erógenas, da amada), "leito... em que me deito", "sentir outras carícias" e "tocar noutras delícias", despertam inapelavelmente a libido do eu que se quer doar inteiramente, corpo e alma, ao tu. Aliás, no último verso de cada estrofe, que funciona como uma espécie de estribilho, as preposições que antecedem o pronome de segunda pessoa "ti" – "a", "de", "em" – sugerem também essa aproximação cada vez mais íntima entre os dois seres até à fusão completa de ambos ("...em ti - em ti").

 

 

INGRES, Jean Auguste Dominique. La grande odalisque:1814

Paris-Louvre.

 

Na última estrofe, que serve de conclusão, atinge-se o clímax dessa relação sensual. Todos os sentidos surgem agora "num só confundidos". É o delírio dos sentidos, a inebriante histeria de sensações provocada por essa fusão, a qual só resultará ou terá sentido se for conseguida com o tu (mulher), que o eu (homem) elege como fiel e fatal depositária de toda a sua vida. Por ela, o eu poético viverá e, por ela, morrerá. Ela é ao mesmo tempo a sua vida e a causa da sua morte. Mas só deste modo o eu se sentirá verdadeiramente realizado. Repare-se que nesta oitava o pronome pessoal "ti", que nos remete para a amada, é repetido sete vezes, número que, como sabemos, simboliza a completude – o eu da enunciação só se sentirá um ser completo se poder usufruir do tu em toda a sua plenitude. Por isso é que, ao constatar a sua obsessão pela mulher amada, utiliza verbos de valor subjectivo, na primeira pessoa do singular, os quais pretendem demonstrar a subserviência dos seus sentidos relativamente à presença da mulher amada – ele não vê, não ouve, não sente nada que seja exterior e alheio à sua amada: "Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:", "Não vejo outra beleza", "Não oiço a melodia, / Nem sinto outra harmonia", "Sei... não sinto: minha alma não aspira, / Não percebe, não toma / Senão o doce aroma / Que vem de ti, - de ti!", "E eu tenho fome e sede...".

 

A fusão dos sentidos já vinha, aliás, sendo anunciada pelo recurso do sujeito poético às sinestesias, presentes, por exemplo, nas terceira ("Senão o doce aroma"), quarta ("Formosos - são os pomos saborosos") e quinta sextilhas ("Macia - deve a relva luzidia"), e reforçadas na última estrofe ("A ti! ai a ti só os meus sentidos / Todos num só confundidos, / Sentem, ouvem, respiram; / Em ti, por ti, deliram."). Os constantes transportes ou encavalgamentos, disseminados ao longo de toda a composição, também vêm ajudar à constatação da totalidade amorosa, da relação profunda que se estabelece entre os dois amantes, intensificando, pela ligação de ideias que sugerem, os sentimentos expressos.

 

O poema "Os Cinco Sentidos" insere-se nitidamente na estética romântica. Antes de mais, na forma como são vistas a Natureza e a amada. A primeira é muito bela, divinizada (o adjectivo "divina" e a sua forma flexionada "divinais" aparecem nas segunda e primeira estrofes, respectivamente, sendo que a primeira forma encabeça a segunda sextilha, ganhando, por isso, maior destaque) e diversa, até pela diversidade de sensações que se podem obter em contacto com o mundo natural. Porém, a amada rivaliza em beleza com a própria Natureza, sobrepondo-se-lhe, ofuscando-a, podendo, igualmente, como já foi repetidamente frisado, ser apreciada através de todos os órgãos sensoriais, razão por que o sujeito lírico acaba por não desfrutar de todas as maravilhas naturais. Efectivamente, a sua obsessão pela mulher amada preenche-lhe todos os sentidos. Nada é tão agradável de observar, ouvir, cheirar, saborear ou tocar como essa mulher, simultaneamente redentora (mulher-anjo) e sedutora (mulher-demónio), fonte de desejo, de concupiscência, arrastando o eu para a perdição, ao conduzi-lo pelas veredas alucinantes dos prazeres físicos, da voluptuosidade!... A presença da mulher torna-se sufocante, como o demonstra o último verso de cada estrofe, nos quais se vê claramente que o destinatário do poema é o tu a quem o eu se dirige servilmente – atente-se nas dez ocorrências do pronome pessoal "ti" –, numa manifesta constatação de dependência em relação à amada.

 

Depois, ao nível do conteúdo, deparamo-nos com características puramente românticas: a presença do amor sensual, da excitação carnal, da paixão imbuída de erotismo, agora expressas de forma tão espontânea e livremente versejadas; a supervalorização da mulher e a consequente secundarização da Natureza; o reflexo do(s) estado(s) de espírito do sujeito poético na Natureza; a apologia do sentimento e do conhecimento obtido através dos sentidos em detrimento do conhecimento racional (o saber e a razão são eclipsados pelo sentir e pelo coração); o idealismo amoroso; a morte de amor. Finalmente, a nível morfossintáctico, as convenções clássicas dão origem a uma escrita mais livre, sem rigor no metro e na rima, a uma linguagem coloquial, na qual predominam as repetições, interjeições e as frases interrompidas pela emoção.

 

Para além do mais, esta composição é possuidora de um ritmo tradicional, conseguido pelas rimas, mormente as rimas internas nos dois primeiros versos de cada uma das cinco primeiras estrofes ( "São belas - bem o sei, essas estrelas, / Mil cores - divinais têm essas flores"; "Divina - ai! sim, será a voz que afina / Saudosa - na ramagem densa, umbrosa"; etc.), pelas repetições várias, pelas aliterações ("Saudosa - na ramagem densa, umbrosa. / Será..."; "Sentir outras carícias, / Tocar noutras delícias / Senão em ti - em ti!"), pela existência de uma espécie de verso refrão ou estribilho no fim de cada estância, pelo tom confessional, pela erotização (por vezes ousada) e pela existência de uma linguagem simples e emocional, justificada pela repetição das pausas, das frases reticentes, exclamativas e interjectivas.
 

Joaquim Matias da Silva

 

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© Joaquim Matias 2009

 

 

 

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