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FREI LUÍS DE SOUSA -
ACTO III
CENA VII
TELMO e MADALENA, depois JORGE e MANUEL de SOUSA
Madalena
(ainda de fora)
‑ Jorge, meu irmão, Frei Jorge, vós estais aí,
que eu bem sei; abri‑me por caridade, deixai‑me dizer
uma única palavra a meu... a vosso irmão... e não vos
importuno
mais, e farei tudo o que de mim quereis, e...
(ouve‑se do mesmo lado ruído de passos apressados, e
logo a voz de Frei Jorge)
Jorge
(de fora)
‑ Telmo, Telmo, abri, se podeis... abri já.
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Telmo
(abrindo a porta)
‑ Aqui estou eu só.
Madalena
(entrando desgrenhada e fora de si, procurando com os
olhos, todos os recantos da casa)
‑ Estáveis aqui só, Telmo! E ele para onde foi?
Telmo
‑ Ele quem, senhora?
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Jorge
(vindo à frente)
‑ Telmo estava aqui aguardando por mim, e
com ordem de não abrir a ninguém enquanto eu não viesse.
Madalena
‑ Aqui havia duas vozes que falavam; distintamente as
ouvi.
Telmo
(aterrado)
‑ Ouvistes?
Madalena
‑ Sim, ouvi. Onde está ele, Telmo? Onde está meu
marido... Manuel de Sousa?
Manuel
(que tem estado no fundo, enquanto Madalena, sem o
ver, se adiantara para a cena, vem agora à frente)
‑ Esse homem está aqui, senhora; que lhe quereis?
Madalena
‑ Oh, que ar, que tom, que modo esse com que me
falas!...
Manuel
(enternecendo‑se)
‑ Madalena... (Caindo em si e gravemente).
Senhora como quereis que vos fale, que quereis que vos
diga? Não está tudo dito entre nós?
Madalena
‑ Tudo! quem sabe? Eu parece‑me que não. Olha: eu
sei?... mas não daríamos nós, com demasiada
precipitação, uma fé tão cega, uma crença
tão implícita
a essas misteriosas palavras de um romeiro, um
vagabundo... um homem enfim que ninguém conhece? Pois dize...
Telmo
(à parte, a Jorge)
‑ Tenho que vos dizer, ouvi. (conversam
ambos à parte)
Manuel
– Oh! Madalena, Madalena! não tenho mais nada que te
dizer. Crê‑me, que to juro na presença de Deus: a nossa
união, o nosso amor é impossível.
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Jorge
(continuando a conversação com Telmo, e levantando a
vez com aspereza)
‑ É impossível já agora...
e sempre o
devia ser.
Madalena
(virando‑se para Jorge)
‑ Também tu, Jorge!
Jorge
(virando‑se para ela)
‑ Eu falava com Telmo, minha irmã. (para
Telmo). lde, Telmo, ide onde vos disse que sois mais
preciso lá. (fala‑lhe ao ouvido; depois alto) Não
ma deixes um instante, ao menos até passar a hora fatal.
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(Telmo sai com repugnância, e rodeando para ver se
chega ao pé de Madalena. Jorge, que o percebe, faz‑lhe
um sinal imperioso; ele recua, e finalmente se retira
pelo fundo.)
Joaquim
Matias da Silva
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