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FREI LUÍS DE SOUSA - ACTO II

 

CENA X

Jorge, Madalena

 

Madalena

(falando ao bastidor)

Vai, ouves, Miranda? Vai e deixa‑te lá estar até veres chegar o bergantim; e quando desimbarcarem, vem‑me dizer para eu ficar descansada. (vem para a cena).  Não há vento e o dia está lindo. Ao menos não tenho sustos com a viagem. Mas a volta... quem sabe? o tempo muda tão depressa...

Jorge

‑ Não, hoje não tem perigo.

 

Madalena

‑ Hoje... hoje! Pois hoje é o dia da minha vida que mais tenho receado... que ainda temo que não acabe sem muito grande desgraça... É um dia fatal para mim: faz hoje anos que ... que casei a primeira vez; faz anos que se perdeu el‑rei D. Sebastião; faz anos também que ... vi pela primeira vez a Manuel de Sousa.

Jorge

‑ Pois contais essa entre as infelicidades de vossa vida?

Madalena

‑ Conto. Este amor ‑ que hoje está santificado e bendito no Céu, porque Manuel de Sousa é meu marido ‑ começou com um crime, porque eu amei‑o assim que o vi... e quando o vi ‑ hoje, hoje... foi em tal dia como hoje! ‑ D. João de Portugal ainda era vivo. O pecado estava‑me no coração; a boca não o disse... os olhos não sei o que fizeram; mas dentro da alma eu já não tinha outra imagem senão a do amante... já não guardava a meu marido, a meu bom... a meu generoso marido... senão a grosseira fidelidade que uma mulher bem nascida quase que mais deve a si do que ao seu esposo. Permitiu Deus... quem sabe se para me tentar?... que naquela funesta batalha de Alcácer, entre tantos, ficasse também D. João...

Joaquim Matias da Silva

 

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