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FREI LUÍS DE SOUSA -
ACTO II
CENA XI
Madalena, Jorge,
Miranda

Miranda
(apressado)
‑Senhora...
minha senhora!
Madalena
(sobressaltada)
‑
Quem
vos chamou,
que quereis? Ah! és tu, Miranda. Como assim! Já
chegaram?... Não pode ser.
Miranda
‑ Não, minha senhora;
ainda agora irão passando o pontal. Mas não é isso...
Madalena
‑ Então que é? Não vos
disse eu que não viésseis dali antes de os ver chegar?
Miranda
‑ Para lá torno já,
minha senhora: há tempo
de sobejo. Mas, venho trazer‑vos
recado... um estranho recado,
por minha fé.
Madalena
‑ Dizei já, que me
estais a assustar.
Miranda
‑ Para tanto não é; nem
coisa séria, antes quase para rir. É um pobre velho
peregrino, um destes
romeiros que aqui estão sempre a
passar, que vêm das bandas de Espanha...
Madalena
‑ Um cativo... um
remido?
Miranda
‑ Não, senhora, não
traz a
cruz, nem é; é um romeiro, algum destes que vão a
Sant' Iago, mas diz ele que vem de Roma e dos
Santos
Lugares.
Madalena
‑ Pois coitado! virá.
Agasalhai‑o; e dêem‑lhe o que precisar.
Miranda
‑ É que ele diz que vem
da Terra Santa, e...
Madalena
‑ E porque não virá?
lde, ide, e fazei‑o acomodar já. É velho?
Miranda
‑ Muito velho, e com
umas barbas!... Nunca vi tão formosas barbas de velho, e
tão
alvas. Mas, senhora, diz ele que vem da Palestina e
que vos traz recado...
Madalena
‑ A mim!
Miranda
‑ A vós; e que por
força vos há‑de ver e falar.
Madalena
‑ Ide vê‑lo, Frei
Jorge. Ingano há‑de ser; mas ide ver o pobre do velho.
Miranda
‑ É escusado, minha
senhora: o recado que traz, diz que a outrem o não dará
senão a vós, e que muito vos importa sabê‑lo.
Jorge
‑ Eu sei o que é:
alguma
relíquia dos Santos Lugares ‑ se ele com efeito
de lá vem! que o bom do velho vos quer dar... como tais cousas se dão a pessoas da vossa qualidade... a troco de
uma esmola
avultada. É o que ele há‑de querer; é o
costume.
Madalena
‑ Pois
venha
embora o romeiro! E trazei‑mo aqui, trazei.
Joaquim
Matias da Silva
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