Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Outros Autores
 

FREI LUÍS DE SOUSA - ACTO II

 

CENA VIII

 

Manuel de Sousa, Madalena, Jorge

 

   

 

Madalena

(seguindo com os olhos a filha e respondendo a Manuel de Sousa)

‑ Cuidados! ... eu não tenho já cuidados. Tenho este medo, este horror de ficar só... de vir a achar‑me só no mundo .

Manuel

– Madalena!...

Madalena

‑ Que queres? não está na minha mão. Mas tu tens razão de te infadar com as minhas impertinências. Não falemos mais nisso. Vai. Adeus! Outro abraço. Adeus!

Manuel

‑ Oh! querida mulher minha, parece que vou eu agora imbarcar num galeão para a Índia... Ora vamos: ao anoitecer, antes da noite, aqui estou. E Jesus!... Olha a condessa de Vimioso, esta Joana de Castro que a nossa Maria tanto deseja conhecer... Olha se ela faria esses prantos quando disse o último adeus ao marido...

Madalena

‑ Bendita ela seja! Deu‑lhe Deus muita força, muita virtude. Mas não lhe invejo, não sou capaz de chegar a essas perfeições.

Jorge

‑ E perfeição verdadeira; é a do Evangelho: «deixa tudo e segue‑me».

Madalena

‑ Vivos ambos... sem ofensa um do outro, querendo‑se, estimando‑se... e separar‑se cada um para sua cova! Verem‑se com a mortalha já vestida e... vivos, sãos... depois de tantos anos de amor... e convivência... condenarem‑se a morrer longe um do outro, sós, sós! E quem sabe se nessa tremenda hora... arrependidos!...

Jorge

‑ Não o permitirá Deus assim!... oh, não. Que horrível coisa seria!

Manuel

‑ Não permite, não. ‑ Mas não pensemos mais neles: estão intregues a Deus... (pausa)E que temos nós com isso? A nossa situação é tão diferente... (pausa) Em todas nos pode Ele abençoar. Adeus, Madalena, adeus! Até logo. Maria já lá vai no cais a esta hora... Adeus! Jorge, não a deixes.

(abraçam‑se; Madalena vai até fora da porta com ele)

 

Joaquim Matias da Silva

 

Voltar

Início da página

 

© Joaquim Matias 2009

 

 

 

 Páginas visitadas