Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Outros Autores
 

FREI LUÍS DE SOUSA

 

CENA VIII

 

MANUEL DE SOUSA, MADALENA

 

 

Manuel

 (passeia agitado de um lado para outro da cena, com as mãos cruzadas detrás das costas; e parando de repente)

‑ Há‑de saber‑se no mundo que ainda há um português em Portugal.

Madalena

‑ Que tens tu, dize, que tens tu?

Manuel

‑ Tenho que não hei‑de sofrer esta afronta... e que é preciso sair desta casa, senhora.

 Madalena

‑ Pois sairemos, sim; eu nunca me opus ao teu querer, nunca soube que coisa era ter outra vontade diferente da tua; estou pronta a obedecer‑te sempre, cegamente, em tudo. Mas, oh! esposo da minha alma... para aquela casa não, não me leves para aquela casa. (deitando‑lhe os braços ao pescoço)

 Manuel

‑ Ora tu não eras costumada a ter caprichos! Não temos outra para onde ir; e a estas horas, neste aperto... Mudaremos depois, se quiseres... mas não lhe vejo remédio agora. E a casa que tem? Porque foi de teu primeiro marido? É por mim que tens essa repugnância? Eu estimei e respeitei sempre a D. João de Portugal; honro a sua memória, por ti, por ele e por mim; e não tenho na consciência por que receie abrigar‑me debaixo dos mesmos tectos que o cobriram. Viveste ali com ele? Eu não tenho ciúmes de um passado que me não pertencia. E o presente, esse é meu, meu só, todo meu, querida Madalena... Não falemos mais nisso; é preciso partir, e já.

Madalena

‑ Mas é que tu não sabes... Eu não sou melindrosa nem de invenções; em tudo o mais sou mulher, e muito mulher, querido; nisso não... Mas tu não sabes a violência, o constrangimento de alma, o terror com que eu penso em ter de entrar naquela casa. Parece‑me que é voltar ao poder dele, que é tirar‑me dos teus braços, que o vou encontrar ali... ‑ oh perdoa, perdoa‑me, não me sai esta ideia da cabeça... ‑ que vou achar ali a sombra despeitosa de D. João que me está ameaçando com uma espada de dois gumes... que a atravessa no meio de nós, entre mim o ti e a nossa filha, que nos vai separar para sempre... Que queres? Bem sei que é loucura; mas a ideia de tornar a morar ali, de viver ali contigo e com Maria, não posso com ela. Sei decerto que vou ser infeliz, que vou morrer naquela casa funesta, que não estou ali três dias, três horas sem que todas as calamidades do mundo venham sobre nós. Meu esposo, Manuel, marido da minha alma, pelo nosso amor to peço, pela nossa filha... Vamos seja para onde for, para a cabana de algum pobre pescador desses contornos, mas para ali não, oh! não.

Manuel

‑ Em verdade nunca te vi assim; nunca pensei que tivesses a fraqueza de acreditar em agouros. Não há senão um temor justo, Madalena: é o temor de Deus; não há espectros que nos possam aparecer senão os das más acções que fazemos. Que tens tu na consciência que tos faça temer? O teu coração e as tuas mãos tão puras; para os que andam diante de Deus, a terra não tem sustos, nem o inferno pavores que se lhes atrevam. Rezaremos por alma de D. João de Portugal nessa devota capela que é parte da sua casa; e não hajas medo que nos venha perseguir neste mundo aquela santa alma que está no Céu, e que em tão santa batalha, pelejando por seu Deus e por seu rei, acabou mártir às mãos dos infiéis. ‑ Vamos, dona Madalena de Vilhena, lembrai‑vos de quem sois e de quem vindes, senhora... e não me tires, querida mulher com vãs quimeras de crianças, a tranquilidade do espírito e a força do coração, que as preciso inteiras nesta hora.

Madalena

‑ Pois que vais tu fazer?

Manuel

‑ Vou, já te disse, vou dar uma lição aos nossos tiranos que lhes há‑de lembrar, vou dar um exemplo a este povo que os há‑de alumiar...


Joaquim Matias da Silva

 

Voltar

Início da página

 

© Joaquim Matias 2009

 

 

 

 Páginas visitadas