Surge et ambula! Tu que
dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,
Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...
Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!
Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!
Antero de Quental,
Sonetos
Comentário
ao poema
A estética romântica impôs os seus ditames, em Portugal,
até ao último quartel do século XIX. Mas as temáticas e
as ideias defendidas pelos seus seguidores, já cansativas,
gastas e agonizantes, começaram a
ser combatidas e rejeitadas por uma geração de
intelectuais portugueses, aglutinados em torno da
"geração de 70", onde Antero de Quental era um dos
expoentes máximos. Surge, então uma nova
corrente literária - o Realismo -, uma estética que retratava a realidade através
da observação, análise e crítica da vida quotidiana. Os
autores realistas desfizeram o ideário romântico quando
intentaram “fotografar” a realidade, as pessoas e os
acontecimentos, tal como são.
Neste contexto, podemos dizer
que o próprio título do soneto em questão já é
sugestivo, pois talvez Antero não esteja a referir-se “a um poeta” específico,
mas sim a uma nova estética
poética, um novo estilo de fazer poemas, com uma nova
temática, uma nova ideologia, mais interventiva e
revolucionária. Há um “espírito sereno” que é
evocado no soneto, um “espírito” que dormita, mas que é
convocado a despertar. Ora, na conjuntura
histórica em que este soneto foi produzido, podemos
dizer, sem grandes desvios da verdade, que este
“espírito” é o poeta realista que, durante muito tempo,
comodamente “posto à sombra dos cedros seculares”
(símbolo das velhas ideologias românticas), permaneceu calado,
adormecido, “longe da luta e do fragor terreno” (v.4),
insensíveis às vozes da multidão que, lá fora, clamavam
contra as injustiças e todo o tipo opressão. Estava,
pois, na hora de sair da letargia, de acordar para a
realidade, até porque o sujeito poético acreditava que a
vida não seria aquele mundo utópico, idealizado pelos
românticos, mas um lugar de luta, um cenário salpicado
por diversas
problemáticas sociais e que precisavam de ser questionadas,
criticadas, avaliadas.
Se o “poeta” estava longe, então era preciso abaná-lo: “Acorda! É tempo! O
sol já alto e pleno” (v.1, est.2). Era urgente despertar
, porque se o sol já ia "
alto e pleno” (imagem metafórica do momento histórico que estava
a despontar, para representar o clímax do confronto
inicial entre o Romantismo e o Realismo), o início da
luta já tardava, tanto mais que esse “sol, já alto e pleno”, ou seja, este clima de
tensão, este confronto de ideias, tinha, entretatnto
começado a afugentar "as larvas
tumulares”, símbolos incontestáveis do
Romantismo, visto que este tom sepulcral e a noite
escura e sempre sombria eram características românticas.
O ideário romântico estava aos poucos a ser banido pelo
Realismo. Porém, para que a substituição fosse completa faltava “só
um aceno” (v.4, est.2), infligir o golpe final dum
conflito, duma revolução, que tinham forçosamente de
sair vencedores porque o grito dos combatentes renegados
pelos homens poeirentos do poder já se fazia sentir:
"São teus irmãos, que se erguem!
São canções... / Mas de guerra... e são vozes de rebate!”
O conteúdo deste poema não pode, claro, ser também
disssociado da luta empreendida por Antero, quando
redigiu uma carta
de rebate que enviara em resposta às provocações de
Castilho no decurso da célebre "Questão Coimbrã".
Na última estrofe,
o eu lírico solicita ao poeta, visto como um "Sonhador",
um emissário, um mensageiro e o Profeta de um mundo
novo, que se erga, pois ele é o soldado do Futuro, ou seja,
é ele que irá questionar, explicar,
criticar e combater as patologias
de uma sociedade corrupta e indiferente à sorte dos mais
desprotegidos, abrindo os alicerces de um mundo tão
sonhado de Igualdade, Liberdade e Justiça.
Antero de Quental, autor das Odes Modernas, é quem
desencadeia as irritações e tempestades do meio
literário português do seu tempo, conhecidas por
"Questão Coimbrã". Com efeito, Antero, ainda estudante
de Coimbra, rebela-se contra a poesia oficial de
Castilho e seus protegidos, e proclama a independência e
combatividade dos poetas. Este acto de rebeldia surge
como consequência, não só do seu temperamento e desejo
de justiça, mas duma forte reação ao Romantismo que,
entre nós, degenerara num Ultra-romantismo vazio e
convencional.
Este soneto, publicado na terceira parte dos Sonetos
Completos, traduz o caráter combativo e revolucionário
que o poeta deveria assumir, o que já havia dado origem
às Odes Modernas, onde Antero, numa nota da 1.ª edição,
afirma : "a Poesia moderna é a voz da Revolução".
A estrutura deste soneto é contínua, formada por duas
partes sintática e semanticamente complementares: na 1.ª
estrofe, descreve-se a atitude do poeta perante o mundo;
nas estrofes seguintes, essa descrição desaparece para
dar lugar a uma série de apelos dirigidos ao Tu do
início do poema.
Esta estrutura é progressiva, já que estes apelos, dados
pelos imperativos, estão organizados de forma crescente
de intensidade, redobrando-se na última estrofe.
O poema começa com o pronome "tu" apontando-nos de
imediato para uma situação de comunicação direta,
própria do estilo coloquial.
A oração relativa restritiva e a sinédoque que se lhe
seguem desfazem a indefinição referida no título. Temos,
então, não um poeta qualquer, mas aquele que dorme, isto
é, aquele que é só espírito porque está morto há muito
("à sombra dos cedros seculares"). E está morto porque
alheio, arredado da vida ("longe da luta e do fragor
terreno"). O particípio passado "posto" e o adjectivo
"sereno" sublinham esta passividade e alheamento.
A comparação entre o poeta e um sacerdote desvenda-nos a
metáfora do segundo verso: o sacerdote "à sombra dos altares"
dá lugar a um ritual, sempre o mesmo, de todos já
sabido; o poeta, "à sombra dos cedros seculares", oficia
o ritual de uma mesma poesia: velha, por todos já
conhecida.
As aliterações em /-s/ dos dois primeiros versos e em /-l/
dos dois últimos delimitam os dois termos da comparação.
A rima interpolada entre dois adjetivos que, pelo
contexto semântico se opõem, e o quiasmo existente entre
os dois últimos termos dos primeiro e quarto versos, realçam e
ampliam o divórcio entre o poeta de que se fala e a vida
real.
A rima emparelhada sublinha a igualdade de posições
entre o poeta e o sacerdote, dada pela comparação entre
as duas metáforas em que a repetição do complemento de
lugar "à sombra" expressa uma atitude de refúgio na
passividade do ritual.
A segunda parte é iniciada pelo imperativo "Acorda!" que
é,
por um lado, a articulação sintática com a primeira estrofe
e, por outro, o começo de um estilo mais emotivo e
apelativo que caracteriza o resto do poema. Segue-se-lhe
uma justificação ("é tempo") que, por sua vez, é também
explicada: o sol, pela sua posição no céu, indica o
momento do dia em que as sombras desaparecem e tudo se
torna mais nítido e brilhante.
O advérbio de tempo "já" reforça e atualiza este
momento em que já não há condições para que as larvas
tumulares sobrevivam porque são o produto da
decomposição dos corpos mortos e, portanto, imagem da
poesia velha, caduca, criada por aquele poeta.
No verso 7, o termo "seio" revela-nos, no seu sentido
etimológico, a profundidade dos mares que o deítico
"esses" indica serem a luta e o fragor terrenos.
Para que dessa profundeza nasça um mundo novo, o poeta
terá apenas que dar o seu "aceno", o seu sinal que será
uma poesia nova, diferente.
O primeiro terceto funciona como nexo do último verso da
primeira
parte. É um novo apelo ao poeta que, depois de ter
acordado, deve ouvir com atenção ("Escuta!") o que as
multidões em uníssono clamam ("a grande voz").
No verso 2 desta estrofe, definem-se os nomes presentes
no verso anterior: as multidões são irmãos do poeta; a
voz são canções.
No verso seguinte, a adversativa "mas" explicita qualquer
ideia que possa ter surgido com as reticências: as
canções são de alerta e de guerra, isto é, de revolução.
Na última estrofe, temos a conclusão, desaparecendo, por
isso, todas as reticências.
Depois de ter acordado por ser pleno dia e de ter
escutado o clamor das multidões, o poeta deve erguer-se,
tal como os seus irmãos, transformado já em "soldado do
Futuro". Soldado, porque integrado nas multidões que se
preparam para a revolução; do Futuro, porque se opõe ao
poeta do presente que dorme, longe desta luta que
deflagra com canções de uma nova poesia.
O termo Futuro surge como símbolo do mundo novo. O poeta
("sonhador") terá como missão o combate, feito de sonho
e desinteresse ("sonho puro"), através da sua poesia
("espada") que será a porta-voz, a luz da revolução
anunciada.
Temos, portanto, um poema de empenho social e de cariz
revolucionário.
Antero de Quental assume-se como o profeta, tal como o
da Bíblia que diz "Surge et ambula!", que anuncia um
mundo novo, do qual o poeta deve ser o arauto e aquele
que indica o caminho a seguir pelas multidões.
in http://almanaque.extar.net/autores/mjs.html., com
adaptações