Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Outros Autores
 

 

 

ANTERO DE QUENTAL

 

A UM POETA

                                                                  

                                                                       Surge et ambula!
Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,
 


 

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!
 

                                               

                                                 Antero de Quental, Sonetos

 

 

 

Comentário ao poema

 

A estética romântica impôs os seus ditames, em Portugal, até ao último quartel do século XIX. Mas as temáticas e as ideias defendidas pelos seus seguidores, já cansativas, gastas e agonizantes, começaram a ser combatidas e rejeitadas por uma geração de intelectuais portugueses, aglutinados em torno da "geração de 70", onde Antero de Quental era um dos expoentes máximos. Surge, então uma nova corrente literária - o Realismo -, uma estética que retratava a realidade através da observação, análise e crítica da vida quotidiana. Os autores realistas desfizeram o ideário romântico quando intentaram “fotografar” a realidade, as pessoas e os acontecimentos, tal  como são.

 

 

Neste contexto, podemos dizer que o próprio título do soneto em questão já é sugestivo, pois talvez Antero não esteja a referir-se “a um poeta” específico, mas sim a uma nova estética poética, um novo estilo de fazer poemas, com uma nova temática, uma nova ideologia, mais interventiva e revolucionária. Há um “espírito sereno” que é evocado no soneto, um “espírito” que dormita, mas que é convocado a despertar. Ora, na conjuntura histórica em que este soneto foi produzido, podemos dizer, sem grandes desvios da verdade, que este “espírito” é o poeta realista que, durante muito tempo, comodamente “posto à sombra dos cedros seculares” (símbolo das velhas ideologias românticas), permaneceu calado, adormecido, “longe da luta e do fragor terreno” (v.4), insensíveis às vozes da multidão que, lá fora, clamavam contra as injustiças e todo o tipo opressão. Estava, pois, na hora de sair da letargia, de acordar para a realidade, até porque o sujeito poético acreditava que a vida não seria aquele mundo utópico, idealizado pelos românticos, mas um lugar de luta, um cenário salpicado por diversas problemáticas sociais e que precisavam de ser questionadas, criticadas, avaliadas.

 

 

Se o “poeta” estava longe, então era preciso abaná-lo: “Acorda! É tempo! O sol já alto e pleno” (v.1, est.2). Era urgente despertar , porque se o sol  já ia " alto e pleno” (imagem metafórica do momento histórico que estava a despontar, para representar o clímax do confronto inicial entre o Romantismo e o Realismo), o início da luta já tardava, tanto mais que esse “sol, já alto e pleno”, ou seja, este clima de tensão, este confronto de ideias, tinha, entretatnto começado a afugentar "as larvas tumulares”, símbolos incontestáveis do Romantismo, visto que este tom sepulcral e a noite escura e sempre sombria eram características românticas. O ideário romântico estava aos poucos a ser banido pelo Realismo. Porém, para que a substituição fosse completa faltava “só um aceno” (v.4, est.2), infligir o golpe final dum conflito, duma revolução, que tinham forçosamente de sair vencedores porque o grito dos combatentes renegados pelos homens poeirentos do poder já se fazia sentir: "São teus irmãos, que se erguem! São canções... / Mas de guerra... e são vozes de rebate!”

 

 

O conteúdo deste poema não pode, claro, ser também disssociado da luta empreendida por Antero, quando redigiu uma carta de rebate que enviara em resposta às provocações de Castilho no decurso da célebre "Questão Coimbrã".

 

Na última estrofe, o eu lírico solicita ao poeta, visto como um "Sonhador", um emissário, um mensageiro e o Profeta de um mundo novo, que se erga, pois ele é o soldado do Futuro, ou seja, é ele que irá questionar, explicar, criticar e combater as patologias de uma sociedade corrupta e indiferente à sorte dos mais desprotegidos, abrindo os alicerces de um mundo tão sonhado de Igualdade, Liberdade e Justiça.


 

Escrito e publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

****************************************************************************

 

VEJA OUTROS TÓPICOS DE ANÁLISE DO POEMA

 

Antero de Quental, autor das Odes Modernas, é quem desencadeia as irritações e tempestades do meio literário português do seu tempo, conhecidas por "Questão Coimbrã". Com efeito, Antero, ainda estudante de Coimbra, rebela-se contra a poesia oficial de Castilho e seus protegidos, e proclama a independência e combatividade dos poetas. Este acto de rebeldia surge como consequência, não só do seu temperamento e desejo de justiça, mas duma forte reação ao Romantismo que, entre nós, degenerara num Ultra-romantismo vazio e convencional.

 

Este soneto, publicado na terceira parte dos Sonetos Completos, traduz o caráter combativo e revolucionário que o poeta deveria assumir, o que já havia dado origem às Odes Modernas, onde Antero, numa nota da 1.ª edição, afirma : "a Poesia moderna é a voz da Revolução".

 

A estrutura deste soneto é contínua, formada por duas partes sintática e semanticamente complementares: na 1.ª estrofe, descreve-se a atitude do poeta perante o mundo; nas estrofes seguintes, essa descrição desaparece para dar lugar a uma série de apelos dirigidos ao Tu do início do poema. Esta estrutura é progressiva, já que estes apelos, dados pelos imperativos, estão organizados de forma crescente de intensidade, redobrando-se na última estrofe.

 

O poema começa com o pronome "tu" apontando-nos de imediato para uma situação de comunicação direta, própria do estilo coloquial. A oração relativa restritiva e a sinédoque que se lhe seguem desfazem a indefinição referida no título. Temos, então, não um poeta qualquer, mas aquele que dorme, isto é, aquele que é só espírito porque está morto há muito ("à sombra dos cedros seculares"). E está morto porque alheio, arredado da vida ("longe da luta e do fragor terreno"). O particípio passado "posto" e o adjectivo "sereno" sublinham esta passividade e alheamento.

 

A comparação entre o poeta e um sacerdote desvenda-nos a metáfora do segundo verso: o sacerdote "à sombra dos altares" dá lugar a um ritual, sempre o mesmo, de todos já sabido; o poeta, "à sombra dos cedros seculares", oficia o ritual de uma mesma poesia: velha, por todos já conhecida.

 

As aliterações em /-s/ dos dois primeiros versos e em /-l/ dos dois últimos delimitam os dois termos da comparação.

 

A rima interpolada entre dois adjetivos que, pelo contexto semântico se opõem, e o quiasmo existente entre os dois últimos termos dos primeiro e quarto versos, realçam e ampliam o divórcio entre o poeta de que se fala e a vida real.

 

A rima emparelhada sublinha a igualdade de posições entre o poeta e o sacerdote, dada pela comparação entre as duas metáforas em que a repetição do complemento de lugar "à sombra" expressa uma atitude de refúgio na passividade do ritual.
 

A segunda parte é iniciada pelo imperativo "Acorda!" que é, por um lado, a articulação sintática com a primeira estrofe e, por outro, o começo de um estilo mais emotivo e apelativo que caracteriza o resto do poema. Segue-se-lhe uma justificação ("é tempo") que, por sua vez, é também explicada: o sol, pela sua posição no céu, indica o momento do dia em que as sombras desaparecem e tudo se torna mais nítido e brilhante.

O advérbio de tempo "já" reforça e atualiza este momento em que já não há condições para que as larvas tumulares sobrevivam porque são o produto da decomposição dos corpos mortos e, portanto, imagem da poesia velha, caduca, criada por aquele poeta.

No verso 7, o termo "seio" revela-nos, no seu sentido etimológico, a profundidade dos mares que o deítico "esses" indica serem a luta e o fragor terrenos. Para que dessa profundeza nasça um mundo novo, o poeta terá apenas que dar o seu "aceno", o seu sinal que será uma poesia nova, diferente.

 

 

O primeiro terceto funciona como nexo do último verso da primeira parte. É um novo apelo ao poeta que, depois de ter acordado, deve ouvir com atenção ("Escuta!") o que as multidões em uníssono clamam ("a grande voz").

No verso 2 desta estrofe, definem-se os nomes presentes no verso anterior: as multidões são irmãos do poeta; a voz são canções. No verso seguinte, a adversativa "mas" explicita qualquer ideia que possa ter surgido com as reticências: as canções são de alerta e de guerra, isto é, de revolução.
 

Na última estrofe, temos a conclusão, desaparecendo, por isso, todas as reticências.

Depois de ter acordado por ser pleno dia e de ter escutado o clamor das multidões, o poeta deve erguer-se, tal como os seus irmãos, transformado já em "soldado do Futuro". Soldado, porque integrado nas multidões que se preparam para a revolução; do Futuro, porque se opõe ao poeta do presente que dorme, longe desta luta que deflagra com canções de uma nova poesia.

O termo Futuro surge como símbolo do mundo novo. O poeta ("sonhador") terá como missão o combate, feito de sonho e desinteresse ("sonho puro"), através da sua poesia ("espada") que será a porta-voz, a luz da revolução anunciada.

 

 

Temos, portanto, um poema de empenho social e de cariz revolucionário. Antero de Quental assume-se como o profeta, tal como o da Bíblia que diz "Surge et ambula!", que anuncia um mundo novo, do qual o poeta deve ser o arauto e aquele que indica o caminho a seguir pelas multidões.

in http://almanaque.extar.net/autores/mjs.html., com adaptações
 

Texto adaptado e publicado por

Joaquim Matias da Silva

Voltar

Início da página

 

© Joaquim Matias 2012

 

 

 

 Páginas visitadas