O presente poema apresenta uma estrutura interna
tripartida.
Em primeiro lugar, há uma tomada de consciência, por
parte do eu lírico, de determinados fenómenos,
sentimentos e/ou acontecimentos relativos ao passado e
que podemos verificar ao longo das duas quadras:
desmaio, aos poucos, da nuvem d' ouro ideal; descida de
cada estrela, baixando no céu da vida; sensação de ficar
laborando nas trevas; constatação de que só encontra o
vácuo ao apertar os braços sobre o peito; impressão de
ver a luz sumida sem saber já para onde olhar; e perda
da flor do seu jardim, a flor que andou regando.
Em segundo lugar, verifica-se uma tomada de
atitude a partir de determinado momento (é
eloquente a construção anafórica com a locução
temporal "depois que" (vv. 1, 2, 5), decorrente
da anterior tomada de consciência e que se
verifica no primeiro terceto. Esta atitude do
sujeito poético torna-se evidente através do uso
do pretérito perfeito do indicativo ("retirei" -
v. 9; "virei-me" - v. 10), que marca o momento
da viragem ("depois que"), e do presente do
indicativo, denunciador do que ainda acontece no
presente ("ergo" - v. 10; "contém" - v. 11).
Por fim, respiga-se uma súplica dirigida a um "tu", no
segundo terceto, comportamento julgado adequado depois
do que fora evidenciado anteriormente. Note-se, a
propósito, uma certa teatralização, bem ao jeito do que
acontece com Garrett em
Folhas Caídas,
traduzida no uso da segunda pessoa da apóstrofe ("...
mulher, mulher..." v. 14), da interjeição e do
imperativo ("Oh! vem" - v.11; "Oh! vem" - v.14), do
convite feito em termos de apaziguamento ("Não temas,
pois..." - v.11), e da interrogação retórica ("A
alma! não a vês tu?" - v. 14).
As expressões "dia a dia" e "aos poucos" (v. 1) são
reveladoras de um processo contínuo, provavelmente
arrastado, e, por isso, inibidor de qualquer esperança
do sujeito poético. Esste processo é reforçado pelo uso
de construções verbais com o valor modal deôntico (de
obrigação) e com o valor aspetual durativo, como "foi
desmaiando" (vv. 1/2) e "fiquei" laborando (v. 4). O uso
do gerúndio é também determinante, tal como acontece no
v. 5 ("Depois que sobre o peito os braços apertando")
e no
v. 8 - "A flor do meu jardim, que eu mais andei regando"
(Aqui o gerúndio está inserto numa construção verbal com
o valor aspetual durativo, remetendo-nos
para um tempo anterior).
Parece evidente que, nas duas quadras, o que é motivo de
descrença, ou desesperança, está conotado com alguém que
pertence ao "céu da vida" e é traduzido por elementos
metafóricos: "nuvem d' ouro ideal" (v. 2), "cada
estrela" (v. 4), "a flor do meu jardim" (v. 8).
Entretanto, a julgar-se pelo v. 10, a este "céu da
vida", opôr-se-á um outro céu, no qual não existem
"abrolhos" - v. 9 (metáfora do sofrimento ou desilusão
anterior) e onde habitará uma estrela ideal que contém a
luz d' amor. Este céu é puro e digno da presença do
"tu", a mulher ideal, ao qual o sujeito poético se
dirige, no final, em apóstrofe, como já atrás foi
referido.
Se tudo se passasse exclusivamente no "céu da
vida", dar-se-ia razão ao provérbio que diz que
a «mordedura de cão cura-se com o pêlo do mesmo
cão»; não é todavia o caso, já que, no primeiro
terceto, se assiste a uma evolução de tipo
qualitativo. Estamos, pois, uma vez mais, tal
como acontece no soneto IDEAL, diante de um
modelo de mulher que corresponde ao estereótipo
platónico.
Algumas figuras de estilo: metáfora (vv. 1/4, 6, 8/13),
adjetivação ("ideal", "erguida", "sumida", "perdida",
"puro", "calma", "silenciosa", "doce"), antítese (vv.
2/3), apóstrofe (v. 14), dupla adjetivação (vv. 12/13),
enumeração (vv. 12/13) e interrogação retórica (v. 12)
conferem mais expressividade ao soneto.
in http://faroldasletras.no.sapo.pt/sonetos_antero.html,
com adaptações