O poema apresenta uma estrutura interna bipartida.
Assim, a primeira parte, constituída pelas duas quadras,
remete-nos para uma temporalidade do passado, e nela o
sujeito poético informa-nos acerca da evolução por que
passou o homem. Essa evolução processa-se de forma
gradativa: foi "rocha" (ser não vivo); foi "tronco" ou
"ramo" (ser vivo, não animado); foi "onda" (apesar de
ser não vivo - água - é particularmente importante, em
termos metafóricos, pela força dinâmica que resulta do
efeito das marés, ainda que se quebre no antiquíssimo
inimigo, que é o granito que já fora "rocha", v. 1);
foi "fera" ou "monstro primitivo" (ser vivo, animado,
mas irracional).
A segunda parte engloba o primeiro terceto e o primeiro
verso do último terceto, correspondendo ao momento em
que o eu lírico nos dá conta da sua condição no
presente, a sua condição humana: «Hoje sou homem», ou
seja, ser vivo, animado e racional).
Segundo Hegel, filósofo alemão, de quem Antero recebe
particular influência, todo o conhecimento é
conhecimento humano, o que contraria o conceito da
verdade inatingível de Kant. Por isso, ao tomar
consciência da sua condição humana e do
(des)conhecimento que daí resulta, o sujeito poético
parece sentir-se perdido na sombra enorme. E, nesta
sombra, o que vê a seus pés? Não uma luz que lhe indique
o caminho, mas apenas uma escada, de múltiplas formas (o
que potencializa ainda mais
a
sua perdição), escada essa que desce, em espirais (de
novo a ideia de obstáculo, dando a sugestão do estado
tresloucado que atinge o eu lírico), na imensidade
de um ser em desagregação. Veja-se que o sentido da
escada não é ascendente (conotação positiva), mas, pelo
contrário, descendente (conotação negativa). A forma
múltipla da escada poderá sugerir, na sua diversidade,
uma encruzilhada, na qual se encontra alguém que não
sabe que caminho há-de tomar. Entretanto, apesar do
movimento ser circular, não existe retorno possível, já
que o mesmo se desenvolve em espiral, impedindo, por
isso, que se volte ao ponto de partida. E tudo isto se
agrava pelo facto do movimento descendente se
desenvolver na imensidade, o que parece sugerir um
infinito. Face a todas estas contrariedades, o sujeito
da enunciação interroga o próprio infinito. Ora, só o
ser racional pode usufruir da faculdade de interrogar,
razão por que às vezes chora (v. 12). E chorará porquê?
Provavelmente, porque não obtém a resposta de que
necessita.
A terceira parte compreende os dois últimos versos do
soneto (a sua chave de ouro). Agora, num estado de
grande angústia, e apesar de se sentir no vazio, num
espaço e num tempo sem resposta, o sujeito poético
parece querer soltar um grito de liberdade, liberdade
que só poderá ser facultada pelo uso da razão:
"Hoje sou homem".
Como se constata, o título do poema adequa-se
perfeitamente ao seu conteúdo, porque é da evolução
humana que se fala, ainda que essa evolução nem sempre
traga a felicidade desejada pelo Homem. De referir,
aliás, que a ideia de evolução domina a renovação
ideológica da segunda metade do século XIX,
constituindo-se como um dos aspetos da crença no
progresso (Darwin).
Neste soneto, podemos identificar algumas figuras de
estilo, como: a enumeração (vv. 1-3, 5-7), a sugerir as
várias etapas da evolução do ser humano; a adjetivação
("antigo", "incógnita", "antiquíssimo", "primitivo",
"limoso", "glauco", "enorme", "multiforme"), para
caraterizar as dificuldades sentidas ao longo da evolução
da espécie; a metáfora (vv. 1, 2, 3, 7, 9), ao serviço
também da explicitação das várias etapas evolutivas; a
imagem metafórica (vv. 3-4, 10-11), que intensifica a
ideia de um percurso evolutivo deveras difícil e até
dramático; e a gradação crescente, ao longo de toda a
composição, para enfatizar a ideia de um percurso da
irracionalidade para a racionalidade.
in
http://faroldasletras.no.sapo.pt/sonetos_antero.html,
com adaptações.