Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Outros Autores
 

 "EVOLUÇÃO" - Comentário

 

O poema apresenta uma estrutura interna bipartida. Assim, a primeira parte, constituída pelas duas quadras, remete-nos para uma temporalidade do passado, e nela o sujeito poético informa-nos acerca da evolução por que passou o homem. Essa evolução processa-se de forma gradativa: foi "rocha" (ser não vivo); foi "tronco" ou "ramo" (ser vivo, não animado); foi "onda" (apesar de ser não vivo - água - é particularmente importante, em termos metafóricos, pela força dinâmica que resulta do efeito das marés, ainda que se quebre no antiquíssimo inimigo, que é o granito que já fora "rocha", v. 1); foi "fera" ou "monstro primitivo" (ser vivo, animado, mas irracional).

 

A segunda parte engloba o primeiro terceto e o primeiro verso do último terceto, correspondendo ao momento em que o eu lírico nos dá conta da sua condição no presente, a sua condição humana: «Hoje sou homem», ou seja, ser vivo, animado e racional).

 

Segundo Hegel, filósofo alemão, de quem Antero recebe particular influência, todo o conhecimento é conhecimento humano, o que contraria o conceito da verdade inatingível de Kant. Por isso, ao tomar consciência da sua condição humana e do (des)conhecimento que daí resulta, o sujeito poético parece sentir-se perdido na sombra enorme. E, nesta sombra, o que vê a seus pés? Não uma luz que lhe indique o caminho, mas apenas uma escada, de múltiplas formas (o que potencializa ainda mais

a sua perdição), escada essa que desce, em espirais (de novo a ideia de obstáculo, dando a sugestão do estado tresloucado que atinge o  eu lírico), na imensidade de um ser em desagregação. Veja-se que o sentido da escada não é ascendente (conotação positiva), mas, pelo contrário, descendente (conotação negativa). A forma múltipla da escada poderá sugerir, na sua diversidade, uma encruzilhada, na qual se encontra alguém que não sabe que caminho há-de tomar. Entretanto, apesar do movimento ser circular, não existe retorno possível, já que o mesmo se desenvolve em espiral, impedindo, por isso, que se volte ao ponto de partida. E tudo isto se agrava pelo facto do movimento descendente se desenvolver na imensidade, o que parece sugerir um infinito. Face a todas estas contrariedades, o sujeito da enunciação interroga o próprio infinito. Ora, só o ser racional pode usufruir da faculdade de interrogar, razão por que às vezes chora (v. 12). E chorará porquê? Provavelmente, porque não obtém a resposta de que necessita.

 

A terceira parte compreende os dois últimos versos do soneto (a sua chave de ouro). Agora, num estado de grande angústia, e apesar de se sentir no vazio, num espaço e num tempo sem resposta, o sujeito poético parece querer soltar um grito de liberdade, liberdade que  só poderá ser facultada pelo uso da razão: "Hoje sou homem".

 

Como se constata,  o título do poema adequa-se perfeitamente ao seu conteúdo, porque é da evolução humana que se fala, ainda que essa evolução nem sempre traga a felicidade desejada pelo Homem. De referir, aliás, que a ideia de evolução domina a renovação ideológica da segunda metade do século XIX, constituindo-se como um dos aspetos da crença no progresso (Darwin).


 

Neste soneto, podemos identificar algumas figuras de estilo, como: a enumeração (vv. 1-3, 5-7), a sugerir as várias etapas da evolução do ser humano; a adjetivação ("antigo", "incógnita", "antiquíssimo", "primitivo", "limoso", "glauco", "enorme", "multiforme"), para caraterizar as dificuldades sentidas ao longo da evolução da espécie; a metáfora (vv. 1, 2, 3, 7, 9), ao serviço também da explicitação das várias etapas evolutivas; a imagem metafórica (vv. 3-4, 10-11), que intensifica a ideia de um percurso evolutivo deveras difícil e até dramático; e a gradação crescente, ao longo de toda a composição, para enfatizar a ideia de um percurso da irracionalidade para a racionalidade.

in http://faroldasletras.no.sapo.pt/sonetos_antero.html, com adaptações.
 

Joaquim Matias da Silva

 

Voltar

Início da página

 

© Joaquim Matias 2012

 

 

 

 Páginas visitadas