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 "IDEAL" - Linhas de leitura

 

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O amor anteriano assume a forma de aspiração indefinida, muito próxima do místico amor neoplatónico.

Ao longo das duas quadras, que marcam a primeira parte do poema, o sujeito poético explicita aquela mulher que ele não adora, utilizando para isso uma construção negativa («não é feita de... nem de...; não tem...; Não é... Nem a...»), retirando-lhe, por isso, a materialidade (componente física) dos elementos afetados pela negação: lírios (os lírios vermelhos são símbolo dos amores proibidos, da tentação, do erotismo estimulado pelo perfume afrodisíaco; por contraste, os lírios brancos são sinónimos de pureza e inocência, sendo que, no cristianismo, são símbolos do amor puro e virginal), rosas purpurinas (a cor púrpura é uma cor erótica), antiga Vénus de cintura estreita (com as suas formas lânguidas, divinas), Circe (a feiticeira que encantou Ulisses e transformou os seus homens em porcos e que funciona, frequentemente, como metonímia da sedução feminina), Amazona. Daqui se infere que a mulher adorada pelo eu lírico não é a mulher fatal, encantadora, sensual e atraente como os lírios e as flores vermelhas, sedutora como Vénus, enganadora como Circe e desenvolta como uma Amazona. No fundo, a mulher adorada não é a mulher romântica, a mulher fatal, a mulher que se deseja de um "querer bruto e fero" (como diria Garrett, em Folhas Caídas), irresistível e como que imposta pelo destino.

 

Ora, porque a mulher adorada não é nada disto, o sujeito poético, na segunda parte da composição, que compreende os tercetos, interroga-se e não atina (v. 9) com o nome a atribuir-lhe, reconhecendo, no entanto, que se trata de uma visão (v. 10). Só que se trata de uma visão que ora lhe amostra, ora lhe esconde o seu destino (v. 11), isto é, uma visão que não lhe confere qualquer segurança, já que se comporta de forma tão contraditória. Corresponde, sem dúvida, a uma espécie de mulher petrarquista, uma mulher que não pode ser objeto de desejo sensual, antes de adoração distante; logo, é uma mulher que coincidirá com o ideal do eterno feminino, com a mulher clássica cantada por Camões e a quem  Antero também tece loas. Talvez por isso, e como consequência do afirmado nos vv. 9 e 10, não pode defini-la através de uma metáfora (por ex.: é uma miragem), mas tão só através de uma comparação: «É como uma miragem que entrevejo». E como todos sabemos as miragens são imagens meramente virtuais, elaboradas pelo nosso próprio cérebro por força de qualquer obsessão, ansiedade solidão ou até mesmo desespero, exatamente os sentimentos/estados que enrugam e enregelam a alma do sujeito poético.

 

Nos dois últimos versos, o eu da enunciação acaba por reconhecer, na verdade, que a mulher por si adorada é  apenas um Ideal, que nasceu na solidão. Assim, na mesma linha de pensamento e de construção, acabará por especificar metaforicamente que ela é apenas Nuvem (nuvem, porque é um fluido que se nos escapa com extrema facilidade; e o facto é que as nuvens ora aparecem, ora desaparecem) ou um «sonho impalpável do Desejo». Portanto, jamais esse Ideal deixará de ser do domínio do onírico e, por isso, intangível.

 

Algumas figuras de estilo que merecem destaque: adjetivação (purpurinas, lânguidas, divinas, antiga, estreita, suspeita, mortais, satisfeita, impalpável); enumeração (primeira quadra); metonímia (v. 5); expressões/imagens metafóricas (vv. 6, 10, 14); antítese (v. 11); comparação (v. 12);

Joaquim Matias da Silva

 

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