Num momento de desalento (vv. 2-4), o sujeito poético,
apostrofando a noite, dirige-lhe os seus pensamentos.
Na segunda quadra, justifica a apóstrofe utilizada:
"Tu, ao menos,
abafas os lamentos,
/ Que se exalam da trágica enxovia";
"O
eterno Mal, que ruge e desvaria, / Em ti descansa e
esquece alguns momentos...".
Nos dois tercetos, o eu lírico manifesta um desejo, um
anseio: que a própria noite adormecesse de vez, de forma
eterna e inalterável ("Noite sem termo, noite do
Não-ser" - v. 14), de tal modo que o mundo, sem mais
lutar nem ver, dormisse, serena e tranquilamente, no seu
seio.
Nos tercetos, a repetição de
Mundo
(vv.11/12), de
tu
(vv. 5 e 9 ) e de
Noite
(epanadiplose - v. 14), de um modo recorrente, parece
querer apontar claramente para elementos profundamente
antagónicos: de um lado, o causador de todos os
tormentos; do outro, o único capaz de conferir algum
descanso, alguma tranquilidade.
Parece ser uma manifesta influência do Nirvana, o céu
budista, como refere Oliveira Martins no seu Prefácio
aos Sonetos, uma vez que esta é uma Noite sem
termo, a noite do Não-ser.
Sendo assim, a sua angústia existencial condu-lo ao
desejo da morte como libertação (lembre-se que já Bocage
chamava à noite a "antecâmara da morte").
Algumas figuras de estilo: apóstrofe (vv. 1, 14);
adjetivação (cruel,
estéril,
inúteis,
ásperos,
trágica,
eterno,
eterna,
inalterável,
inviolável);
metáfora (vv. 5, 12-13); encavalgamento ou transporte
(vv. 9-10); imagem metafórica (vv. 9/10); personificação
(vv. 1, 5, 9, 11, 13); reiteração ou repetição do
quantificador existencial "tanto", "tanta", "tantos"
(vv.3-4), de "Mundo" (vv. 11 e 12) e de "Noite" (v. 14);
aliteração (sobretudo do fonema /-t
/, marcando palavras tão afetas ao tema, como noite,
ti, pensamentos, tanto, estéril,
lutar, tanta, inúteis, tantos,
tormentos, tu, lamentos, trágica,
eterno, ti, momentos, antes,
tu, também, eterna, inalterável,
te, lutar, teu, noite,
termo, noite (note-se que, em alguns casos,
esta oclusiva ocorre em palavras com ressonância nasal,
podendo funcionar como uma espécie de eco do sofrimento
em que vive o sujeito poético).
in http://faroldasletras.no.sapo.pt/sonetos_antero.html,
com adaptações