O jantar no Hotel Central, em termos funcionais, serve
para possibilitar a Carlos um primeiro e alargado
contacto com o meio social lisboeta mas nele estão
também representados os temas mais proeminentes da vida
político-cultural lisboeta. Entre esses temas, destaque
para a literatura, e, dependendo dela, a crítica
literária.
Lisboa: Hotel Central
Câmara Municipal de Lisboa, cliché n.º 69655.
Autor: A. C. Lima
(in Imagens do Portugal Queirosiano, A.
Campos Matos, I.N.C.M.)
Em relação à literatura, há a confrontação de dois pólos
antagónicos personificados nas figuras de Alencar (a
caracterização física e psicológica desta personagem
reflecte bem a escola por si representada – p.159) e de
Ega: por um lado, um ultra-romantismo hipersentimental,
soturno, teatral, pomposo, antiquado, artificial,
incoerente na sua "pseudo-moralização" (p. 163) e
desfasado da realidade circundante; por outro, o
Realismo e o Naturalismo (p. 164).
(Nota: a posição de Carlos e de Craft parece tender para
uma estética de conotações parnasianas - "a obra de
arte... vive apenas pela forma" - p. 164)
Quanto à crítica literária, três aspectos são
particularmente visados: a mera preocupação dessa
crítica com questões de natureza formal, em detrimento
da dimensão temática e verdadeiramente poética da
literatura; a obsessão com o plágio (atitude de tipo
policial, que nada tem a ver com a valorização estética)
– p. 172; o facto de ela enveredar pelo ataque pessoal,
esgotados os argumentos anteriores, de pouco significado
– pp. 174 e 175 –, a fazer lembrar a "Questão Coimbrã",
quer pelo tom das palavras (grosseiro, a passar as raias
da dignidade) quer pelas posições tomadas e defendidas.
Outras ocorrências do mesmo episódio: o cínico
calculismo com que a degradação financeira do país é
comentada por Cohen, afinal um dos beneficiários com a
situação (pp. 164- 166); a miopia histórica de Alencar,
num comentário travado com Ega sobre a ameaça da perda
da independência.