No sarau literário do Teatro da Trindade (pp. 586-6l3),
mais uma vez, vêm à baila:
A superficialidade das conversas,
O alheamento e a ignorância e a incompreensão no
que respeita à música tocada por Cruges:
Lisboa: O
Teatro da Trindade, em meados do século XIX.
(…) Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na
mesma fila com todo um rancho íntimo, a marquesa de
Soutal, as duas Pedrosos, a Teresa Darque. E a boa D.
Maria tocou-lhe logo no braço, para saber quem era
aquele músico de cabeleira.
– Um amigo meu – murmurou Ega. – Um grande maestro, o
Cruges.
O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o não
conheciam. E era composição dele, aquela coisa triste?
– É de Beethoven, sr.ª D. Maria da Cunha, a «Sonata
Patética».
Uma das Pedrosos não percebera bem o nome da sonata. E a
marquesa de Soutal, muito séria, muito bela, cheirando
devagar um frasquinho de sais, disse que era a «Sonata
Pateta». Por toda a bancada foi um rastilho de risos
sufocados. A «Sonata Pateta»! Aquilo parecia divino! (…)
As atitudes empoladas, pomposas, do conde
Gouvarinho:
(…) Mas emudeceu. O conde de Gouvarinho voltara-se,
pousando a mão carinhosa no ombro de Carlos, desejando a
sua impressão sobre o “nosso Rufino”. Ele, conde, estava
encantado! Encantado sobretudo com a “variedade de
escalas”, aquela arte tão difícil de passar do solene
para o ameno, de descer das grandes rajadas para os
brincados da linguagem. Extraordinário! (…)
A fraqueza física e moral de Eusebiozinho
– Ouve cá, estupor! – rugiu Carlos, baixo. – Então
também andaste metido nessa maroteira da “Corneta”? Eu
devia rachar-te os ossos um a um!
A oratória, corporizada em Rufino (p.589), que
recorre à bajulação, às banalidades, aos temas gastos,
já ditos e reditos, a estereótipos, à linguagem
rebuscada, majestática, emproada, feita de imagens de
originalidade duvidosa, de lugares-comuns de retórica
fácil, apelando à sensibilização de um auditório
deformado pelos excessos líricos e seduzido por
artifícios estereotipados do Ultra-romantismo.