Alberto Caeiro é o único dos grandes heterónimos a quem, no universo textual
"Fernando Pessoa", foi atribuída data de nascimento (Lisboa, 16 de Abril, 1889)
e data de morte (1915).
Foi aquele que viveu menos tempo e durante menos tempo escreveu. E entre aquelas
duas datas, o mínimo de indicações biográficas, ou melhor, pouco mais do que a
real poesia de que é o personagem-autor.
Viveu quase toda a vida no campo,
numa quinta do Ribatejo, exercendo a actividade de pastor. Órfão de pai e mãe
desde muito cedo, viveu de pequenos rendimentos com uma tia-avó. Não teve
educação literária para além da 4.ª classe.
De estatura média, era louro e tinha olhos azuis.
Fernando Pessoa estabelece nos seus projectos editoriais as datas fictícias da
obra de Alberto Caeiro: 1911 – 1915; 1911/12 para “O Guardador de Rebanhos";
1913/15 para “Poemas Inconjuntos”. Só que o primeiro livro contém poemas datados
de Março e de Maio de 1914 e o segundo reúne poemas de 1915/17/18/19/20 e de
1930. Estamos, pois, perante um "autor" que escreveu depois da sua construída
morte biográfica.
Jorge de Sena notou que "Caeiro, na sua vida fictícia, viveu exactamente o
mesmo tempo que a Mário de Sá-Carneiro foi dado viver até ao seu suicídio" – e a
Mário, morrendo nessa idade ou nela se matando, aplicou Pessoa o dito célebre de
''Morrem jovens os que os deuses amam" (no caso presente os 26 anos) e com
Pessoa representando em parte o papel dos deuses.
O mesmo crítico acrescentou ainda que, na ficção biográfica, Caeiro morre
tuberculoso: ''Tuberculoso como quem? Como o próprio pai de F. Pessoa, que
morreu em 1893, tinha o futuro poeta 5 anos de idade, em verdade os cinco anos
fictícios de actividade poética (1911 - 1915) que Pessoa atribuiu ao seu “Mestre
Caeiro”.
Alberto Caeiro (pormenor): Almada Negreiros (1893-1970). Mural
da Faculdade de Letras de Lisboa, 1958
A biografia de Caeiro contém diversos elementos da vida real de Pessoa-ipse: o
viver em comum com uma velha tia-avó, a morte do pai, o afastamento da mãe, o
local de nascimento e, no fundo, uma vida banal, pobre em acontecimentos. No
entanto, há nesta vida imaginada muita outra coisa, demasiada, que não pode ser
explicada autobiograficamente. A paisagem de Caeiro é a fértil planície
alentejana, o seu modo de viver, o seu aspecto – pálido, branco, passando
desapercebido – indicam um homem desapaixonado, calmo, talvez mesmo feliz,
equilibrado, que, no seu retiro campestre, aproveita o melhor possível a sua vida
simples. Esta imagem não se adapta de modo algum ao verdadeiro Pessoa. Falta-lhe
o semblante atormentado desse homem da cidade marcado pelo tédio, pela náusea,
pelo enfado.
F. Pessoa, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo
Soares, António Mora de uma ou de outra forma consideram Alberto Caeiro como o
seu “Mestre” e “Libertador”. Para todos eles, o encontro com Caeiro é decisivo,
surge como uma descoberta ou uma revelação que, de algum modo, parece necessária
a que sejam aquilo em que se transformam, aquilo que são.
Ricardo Reis, que interminavelmente o “prefacia”,
refere-se a ele como “o revelador da Realidade, o grande Libertador, que nos
restituiu, cantando, ao nada luminoso que somos; que nos arrancou à morte e à
vida, deixando-nos entre as simples coisas, que nada conhecem, em seu decurso,
de viver nem de morrer; que nos livrou da esperança e da desesperança, para que
não nos consolemos sem razão, nem nos entristeçamos sem causa...”. Álvaro de
Campos tem Caeiro para si como aquele que lhe ensinou a clareza da vista, aquele
que o acordou “para a sensação e a nova alma”, saberes e revelações que não lhe
sendo visíveis são, entretanto, a herança do Mestre. Pessoa ao falar de “O
Guardador de Rebanhos” apresenta-o como “o melhor que eu tenho feito – obra que,
ainda que eu escrevesse outra Ilíada, não poderia, num certo íntimo sentido,
jamais igualar...”.