A
LENDA DO SANTO GRAAL ou SANTO GRAL E O REI ARTUR
GRAAL é uma palavra originária do grego Kratera,
que significa taça. Na sua conotação
mística, teria sido uma ametista caída do céu. Esta estaria talhada com 144
faces, ou seja, doze vezes o número 12, que encerraria um significado mágico. A
interpretação varia conforme as lendas.
Assim, segundo a lenda mais antiga, o
Graal teria sido talhado numa esmeralda que se separara da coroa de Lúcifer
antes de este haver sido castigado. O Graal estaria presente no milagre de Canaã,
na última Ceia, nas mãos de Cristo (teria servido, deste modo, para a instituição do
sacramento eucarístico), e finalmente teria sido nele que José de Arimateia
viria a recolher o sangue de Cristo. Constituindo um símbolo palpável da Graça
Divina, o Graal está presente não só em lendas, como em obras poéticas e
literárias desde a Idade Média.
Uma lenda muito divulgada na Idade Média pretendia que o Graal fora levado para
Inglaterra por José de Arimateia, no ano de 63.
Os Cruzados, todavia,
consideraram ter encontrado o verdadeiro Graal ao apoderarem-se de Cesareia
(1101). Era um recipiente feito de uma única esmeralda, actualmente conservado na
Catedral de S. Lourenço de Génova. De acordo com uma outra lenda, teria uma
origem celestial, tendo sido confiado pelos anjos a um grupo de cavaleiros. Como
quer que seja, a busca do Graal constituiu um dos temas principais do ciclo
arturiano.
Perceval em busca do Graal.
Figura ainda no
Percevalde Chrétien de Troyes, no
Parzifalde
Wolfram Von Eschenbach e em muitas narrativas inglesas. Uma antiga tradição
espanhola afirma que a relíquia foi levada para Espanha por Triturei, rei da
Capadócia. A Catedral de Valência guarda como Graal um cálice de ágata, enviado
de Roma para Espanha durante a
perseguição de Valeriano.
Robert de Boron conta que os judeus, ao descobrirem José de Arimateia,
prenderam-no numa cela sem janelas, onde todos os dias uma pomba se
materializava deixando-lhe uma hóstia, seu único alimento durante o
tempo em que esteve no cárcere e graças ao qual sobrevive.
José esconde a taça que Jesus usou
na Última Ceia, a mesma que ele próprio utilizou também para recolher o sangue de Cristo
antes de colocá-lo na tumba. Ao ser libertado, viaja para a Inglaterra com um
grupo de seguidores e funda a Segunda Mesa da Última Ceia, ao redor da qual se
sentam doze pessoas (conforme a Távola Redonda). No lugar de Cristo é colocado
um peixe. O assento de Judas Iscariote, “o Traidor”, fica vazio e quando alguém
tenta ocupá-lo é "devorado pelo lugar" de forma misteriosa. O assento passa,
então a ser conhecido como a Cadeira Perigosa - o mesmo nome do assento da Távola
Redonda, que também ficava vazio e só poderia ser ocupado pelo "cavaleiro mais
virtuoso do mundo".
Nalgumas versões, é o assento de Lancelote que fica sempre
vazio. Lancelote era o mais dedicado cavaleiro e, assim como Judas em relação a
Jesus, era o que mais amava Arthur, vindo, porém, a traí-lo. José de Arimateia
fundou a sua congregação em Glastonbury. No lugar onde teria edificado uma
igreja com barro e palha, há os restos de uma abadia muito posterior, a mesma
onde se diz estarem enterrados Arthur e Guinevere e onde estaria o Santo Graal.
O mito
A primeira referência literária ao Graal é feita n’
O Conto do Graal,
do francês Chrétien de Troyes, em 1190. Todo o mito – e uma série interminável
de canções, livros e filmes – sobre o rei Arthur e os Cavaleiros da Távola
Redonda tiveram como ponto de partida esse conto. Tratava-se de um poema
inacabado de 9 mil versos, que relatava a busca do Graal, na qual Arthur nunca
participou directamente, e que acabara suspensa. Um mito por si só,
O Conto do
Graal é uma obra de ficção baseada em personagens e histórias reais que serve
para fortalecer o espírito nacionalista do Reino Unido, unindo a figura de um
governante invencível a um símbolo cristão.
Mas por que é que o
cálice teria sido levado para a Inglaterra?
Do ponto de vista literário, já
foi explicado. Porém, há outras histórias muito mais
interessantes para esclarecer isto. Diz-se que durante a
sua permanência na Cornualha, Jesus havia recebido como dádiva de um druida convertido ao
cristianismo um cálice, objecto pelo qual Jesus tinha um carinho especial. Após
a crucificação, José de Arimateia quis levá-lo, santificado pelo sangue de
Cristo, ao seu antigo dono, o druida, que era Merlin, traço de união entre a
religião celta e a cristã.
Boron conta que, certa noite, José é ferido na coxa por uma lança (repare-se nas
referências às lanças e espadas, símbolos do fogo, tanto nas histórias de Jesus
como de Arthur). Numa outra versão, a ferida é nos genitais e a razão seria a
quebra do voto de castidade. Este facto está inteiramente relacionado com a
traição de Lancelote que seduz Guinevere, esposa de Arthur, facto que originará
uma luta entre este último e o seu indefectível
e "fiel" amigo e companheiro de armas.
Após essa luta, a espada de Arthur, Caliburnius, é quebrada – pois é usada para fins
mesquinhos – e atirada para um lago onde é recolhida pela Dama do Lago antes que
se afunde. Depois é oferecida outra espada a Arthur, esta sim, celebrizada pelo
nome de Excalibur.
José de Arimateia foi, portanto, o primeiro guardião do Graal. O segundo teria
sido o seu genro, Bron. Algumas seitas sustentam que o ciclo do Graal não estará
fechado enquanto não aparecer o terceiro guardião. Esta resposta parece vir com
A Demanda do Graal, de autor desconhecido, que coloca
Galahad (ou Galaaz)como único entre
os cavaleiros merecedor de se tornar guardião do Graal.
O Graal-pedra
Toda a história é mudada quando contada pelo alemão Wolfram von
Eschenbach, quase na mesma época de Boron. Em
Parzifal, Eschenbach coloca na mão
dos Templários a guarda do Graal, que não é uma taça, mas sim uma pedra. Para
Eschenbach, o Graal era realmente uma pedra preciosa, pedra de luz trazida do
céu pelos anjos. Ele imprime ao nome do Graal uma estreita dependência com as
forças cósmicas. A pedra é chamada Exillis ou Lapis exillis, Lapis ex coelis,
que significa "pedra caída do céu". É a referência à esmeralda na testa de
Lúcifer, que representava o seu Terceiro Olho. Quando Lúcifer, o anjo de Luz, se
rebelou e desceu aos mundos inferiores, a esmeralda partiu-se, pois a sua visão
ficou deturpada. Um dos três pedaços ficou na testa, dando-lhe essa visão
deformada que foi a única coisa que lhe restou. Outro pedaço caiu ou foi trazido
à Terra pelos anjos que permaneceram neutros durante a rebelião. Mais tarde, o
Santo Graal teria sido escavado neste pedaço.
Compare-se o Graal-pedra de Eschenbach com a não menos mítica Pedra Filosofal
que transformava metais comuns em ouro, homens em reis, iniciados em adeptos…
O
alemão apresenta como fiéis depositários do cálice sagrado os Cavaleiros
Templários. Seria Wolfran von Eschenbach um Templário? Era a época em que Felipe
de Plessiez estava à frente da ordem quase centenária. O próprio facto de ser a
pedra uma esmeralda relaciona-se com a cavalaria, pois os cavaleiros em demanda
pintavam a armadura com cor verde, sinónimo de vitalidade e esperança. Malcom
Godwin, escritor rosacruz, refere-se a
Parzifal da seguinte maneira: "Muitos
comentadores argumentaram que a história de
Parzifal contém, de modo oculto, uma
descrição astrológica e alquímica sobre como um indivíduo é transformado de
corpo grosseiro em formas mais e mais elevadas".
Nesta obra, que é um retrato da
Idade Média – feito por quem sabia muito bem do que estava a falar –
reconhece-se uma verdadeira ordem de cavalaria feminina, na qual se vê Esclarmunda, a virgem guerreira cátara, trazendo o Santo Graal, precedida de 25
outras mulheres a segurarem tochas, facas de prata e uma mesa talhada numa
esmeralda. Na descrição do autor da cena de
Parzifal, no castelo do rei-pescador
(que, assim como Jesus, saciara a fome de muitas pessoas multiplicando um só
peixe), lemos: "Em seguida apareceram duas brancas virgens, a condessa de
Tenabroc e uma companheira, trazendo dois candelabros de ouro; depois uma
duquesa e uma companheira, trazendo dois pedestais de marfim; essas quatro
primeiras usavam vestidos de escarlate castanho; vieram então quatro damas
vestidas de veludo verde, trazendo grandes tochas, em seguida outras quatro
vestidas de verde (...). Em seguida vieram as duas princesas precedidas por
quatro inocentes donzelas; traziam duas facas de prata sobre uma toalha. Enfim
apareceram seis senhoritas, trazendo seis copos diáfanos cheios de bálsamo que
produzia uma bela chama, precedendo a Rainha Despontar de Alegria; esta usava um
diadema, e trazia sobre uma almofada de achmardi verde (uma esmeralda) o Graal,
‘superior a qualquer ideal terrestre’".
As histórias que fazem parte do chamado "ciclo do Graal" foram redigidas de 1180
até 1230 o que nos inclina a relacioná-las com a repressão sangrenta da heresia
cátara. Conta-se que durante o assalto das tropas do rei Felipe II à fortaleza
de Montsegur, apareceu no alto da muralha uma figura coberta por uma armadura
branca que fez os soldados recuarem, temendo ser um guardião do Graal. Alguns
historiadores admitem que, prevendo a derrota, os cátaros emparedaram o Graal
nalgum dos muros dos numerosos subterrâneos de Montsegur e aí ficaria até hoje. A
"Mesa de Esmeralda" evocada pelas histórias de fundo cátaro relaciona-se, de
maneira óbvia, com outra "mesa": a Tábua de Esmeralda atribuída a Hermes Trimegistos. A partir daí o Graal-pedra cede lugar ao Graal-livro.
O Graal-livro
O Graal-taça é tido como um episódio místico e o Graal-pedra
como a matéria do conhecimento cristalizado numa substância. Já o Graal-livro é
a própria tradição primordial, a mensagem escrita. Em José de Arimateia, Robert
de Boron diz que "Jesus Cristo ensinou a José de Arimateia as palavras secretas
que ninguém pode contar nem escrever sem ter lido o Grande Livro no qual elas
estão consignadas, as palavras que são pronunciadas no momento da consagração do
Graal". De facto, em Le Grand Graal, continuação da obra de Boron por um autor
anónimo, o Graal surge associado a um livro escrito por Jesus, cuja leitura só
pode ser entendida por quem está nas graças de Deus. "As verdades de fé que este
contém não podem ser pronunciadas por língua mortal sem que os quatro elementos
[do universo]
sejam agitados. Se isso acontecesse realmente, os céus diluviariam, o ar
tremeria, a terra afundaria e a água mudaria de cor". O Graal-livro teria, assim, um terrível poder.
Ver ainda
aqui
outras informações sobre este mito.