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ANÁLISE DO SONETO
- Olha, Marília, as flautas dos pastores -
Olha, Marília, as flautas dos pastores,
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes,
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores!
Naquele arbusto o rouxinol suspira;
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares, murmurando, gira.
Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.
Poesias de Bocage, edição de Margarida Barahona, Lisboa,
Seara Nova, 1978
GLOSSÁRIO:
V. 2 - cadentes: harmoniosas: V. 4 -
zéfiros: brisa. vento brando; V. 6 -
ósculos: beijos; V. 8 - vagas:
vagueantes, volúveis; V. 13 - vira: visse;
V. 14 - causara: causaria.
QUESTIONÁRIO
1. Se entendermos a harmonia como conjugação de
elementos diversos, mostre, com base no poema, que há
harmonia na natureza descrita pelo poeta.
2. O sujeito de enunciação (poeta) convida a
destinatária, Marília, a admirar a beleza e a deliciosa
suavidade da natureza. Este convite será apenas para que
ela possa fruir dessa beleza e suavidade? Transcreva
dois versos que lhe deem a chave da resposta.
3. Qual é a importância do verso doze na construção da
mensagem poética.
4. Estude, no texto, a relação natureza-estado de alma.
5. Há no texto um certo tom coloquial. Que aspetos de
linguagem e que processos estilísticos são responsáveis
por esse tom? Realce ainda outros aspectos estilísticos.
6. Este soneto é marcadamente neoclássico (arcádico).
Procure demonstrá-lo, considerando sobretudo a natureza
descrita, o vocabulário utilizado e a forma.
7. Os sentimentos revelados pelo poeta perspetivam-se,
em princípio, no tempo presente. Mas não poderá ver-se
no poema uma perspetivação no futuro? E que
circunstância faria com que o estado de alma do poeta,
no futuro, fosse igual ao do presente?
8. Apesar das caracerísticas neoclássicas (arcádicas),
já observadas, há, no poema, certos indícios de
sentimentalidade romântica. Onde?
9. Compare este soneto de Bocage com o de Camões "A
formosura desta fresca serra", no aspeto
da atitude lírica de cada um dos poetas e no aspeto da
pontuação.
CENÁRIOS DE RESPOSTA:
1. Há, de facto, harmonia entre todos os elementos da
natureza, pois todos eles contribuem para criar um
ambiente de alegria, de suavidade, de bem-estar. Assim,
o som das flautas é harmonioso (estão
cadentes).
O sorrir do Tejo está de harmonia com o brincar dos
Zéfiros. As borboletas de mil cores põem também no ar um
ambiente festivo. Até os suspiros do rouxinol e os
murmúrios da abelhinha não inspiram propriamente
tristeza, mas apenas um certo ar saudosamente romântico.
Foi certamente este o sentido que o sujeito poético
pretendeu exprimir, se atendermos à forma como ele
conclui a descrição:
Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Depois, todo este ambiente idílico está em harmonia com
o idílio dos dois namorados:
Vê como ali, beijando-se, os Amores / Incitam
nossos ósculos ardentes.
Finalmente, toda esta natureza deliciosamente suave está
de harmonia com o estado de alma do eu lírico, pelo
menos enquanto ele vir Marília, a sua amada.

2. O eu convida Marília a admirar a beleza e suavidade
da natureza, mas neste convite vai a ideia de que só o
amor entre os dois se pode harmonizar com este ambiente
idílico:
Vê como os Amores... incitam nossos ósculos
ardentes!
Além disso, é intenção do sujeito poético mostrar à sua
amada o contraste que existiria entre esta natureza
aprazível e o seu próprio estado de alma, se viesse a
perder o seu amor (se
não te vir).
Quer dizer, esta natureza suavemente alegre estará em
harmonia com o estado de alma do eu lírico, enquanto ele
possuir a sua amada; se a perder, a mesma natureza
estará em flagrante contraste com o seu estado de alma.
É o que querem dizer os dois versos-chave do poema:
Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira,/ Mais
tristeza que a morte me causara
(Note como estão sintetizados no "Tudo" todos os
elementos da natureza atrás descritos).
3. O verso doze, "Que
alegre campo! Que manhã tão clara!",
constitui uma apreciação subjetiva a toda a natureza
atrás descrita. É uma síntese emocional de tudo o que
ficou descrito atrás. Mas este verso estabelece também a
ligação entre a primeira parte do texto (descrição da
natureza) e a última parte, constituída apenas pelos
dois últimos versos, em que se refere o estado de alma
do eu da enunciação. Em síntese, o que o poeta diz à sua
amada é isto:
Vês esta natureza tão alegre? Pois bem, se eu deixar
de te ver, tudo isto será, para mim, mais triste que a
morte.
4. Como já vimos na questão anterior, o sujeito poético
identifica uma natureza matinal, suavemente alegre, com
o seu próprio sentimento de felicidade, na posse do seu
amor, Marília.No entanto, essa mesma natureza alegre
poderá ser, na hipótese de perder a sua amada, a
antítese da sua tristeza mortal. A fruição presente de
uma felicidade à vista da sua amada é, no fim do poema,
toldada pela hipótese futura de a perder. Paira aqui,
embora obscuramente, o espetro sombrio do ciúme.
5. O tom coloquial do texto é dado sobretudo pela função
fática e imperativa da linguagem veiculadas pelo
vocativo,
Marília,
pela frase interrogativa,
não sentes?,
pelos imperativos
olha
(repetido três vezes) e
vê
e pelo designativo
ei-las.
Esse tom coloquial é ainda acentuado pela função emotiva
da linguagem:
Que bem que soam, como estão cadentes! / Olha o Tejo a
sorrir-se!... / ... nossos ósculos ardentes! / Que
alegre campo! Que manhã tão clara! / Mas ah! Tudo o que
vês...
Na realidade, o texto é um monólogo que mais parece um
diálogo, tal a evidência com que se adivinha a presença
da destinatária, Marília, embora a não vejamos falar.

6. A descrição de uma natureza alegre, ao amanhecer, de
cores e contornos idealizados, mas colhidos no real,
onde tudo respira harmonia, paz e tranquilidade é bem
aquele ambiente adequado à
áurea mediania
(áurea
mediocritas)
tão do agrado dos clássicos. Há, depois, exemplos de
vocabulário latinizante como
cadentes,
ósculos,
vagas
e de seres personificados, como o
Tejo
a sorrir-se, os
Zéfiros
a brincar, os
Amores.
Atente-se na atitude engenhosamente descritiva do eu
lírico,
tendo em vista a valorização do quadro delicioso
bucólico. Os verbos, no geral intransitivos, revestem-se
do aspecto durativo, a exprimir a durabilidade das
ações (soam,
estão,
a sorrir-se, brincar, beijando-se,
suspira, pára, sussurrando, gira) e contrastam com
alguns transitivos, nos dois últimos versos (vês, vira,
causara) a marcar a mudança súbita de sensações. Note-se
a concisão de certas frases nominais, como a frase
narrativa dos versos sétimo e oitavo e as frases
exclamativas - descritivas do verso doze. Observe-se a
colocação intencional de certas palavras-chave em
lugares de destaque:
flautas, soam, cadentes, sorrir-se,
Amores
(encontram-se sempre em lugares onde incide o
acento rítmico). Repare-se, ainda, na mestria como, a partir da
dupla frase exclamativa "Que alegre campo! Que manhã tão
clara!"
(com os dois adjetivos dispostos em quiasmo),
em que se exprime a exaltação de uma alegria festiva e se
estabelece a contraposição com a hipótese da situação
dolorosa sugerida nos dois últimos versos:
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira, /
Mais tristeza que a morte me causara.
Finalmente,
a forma do poema é nitidamente clássica: um soneto, com
versos
decassílábicos heroicos, de ritmo repousadamente binário,
bem combinados com alguns sáficos, em que o ritmo surge
mais entrecortado, como convém ao sentido (vv. 2, 9, 10,
11 e 12); rima interpolada, emparelhada e cruzada,
segundo o esquema ABBA - ABBA - CDC - DCD. A mesma estrutura
formal encontramos nos sonetos de Camões, em pleno
período clássico. Já foi dito que o soneto é a forma
poética mais apta a exprimir a clareza e a síntese tão
próprias do espírito clássico.
A perfeição formal deste soneto, dos mais perfeitos de
Bocage, revela bem a sua aprendizagem clássica, no
ambiente clássico do arcadismo neoclássico em que
viveu.
7. Já vimos que o sujeito lírico identifica a agradável suavidade
e alegria da natureza com o seu estado de alma. No tempo
presente, temos, pois, a natureza alegre a espelhar a
felicidade do eu. Mas quando ele admite, no fim do poema, a possibilidade
de deixar de ver Marília, então já diz que a própria alegria da
natureza lhe causará uma tristeza mortal. Para que o
estado de alma do sujeito poético, no futuro, seja igual ao do
presente, para que esteja em sintonia com a natureza
alegre, será preciso que Marília nunca fuja da sua
vista, que o mesmo é dizer que nunca deverá deixar de corresponder
ao seu amor.
8. Apesar de este soneto ser mais clássico do que
romântico, notam-se, no entanto,
certas manifestacões de sentimentalidade romântica. Por
exemplo, a expressão "incitam nossos
ósculos ardentes",
mais do que manifestação de erotismo pagão, é já um
sinal de amor fatalismo, de perdição. A ideia deste
mesmo amor de perdição é sugerida no fim do poema,
quando o sujeito poético prefere a morte à perda da sua
amada. Há ainda o rouxinol a suspirar, que é também um
convencionalismo
romântico.

9. Os dois poetas apresentam-nos uma natureza suavemente
alegre. Mas logo na
descrição desta natureza é mais intenso o subjetivismo
do eu lírico. A descricão de
Camões surge mais objetiva do que a do Bocage. Daí a
frequência das exclamações e afirmações como esta: "Os
Amores incitam nossos ósculos ardentes!". A presença do
eu poético é ainda acentuada, no soneto de Bocage, pelos
imperativos (função imperativa) e pelas interrogações
retóricas (função fática).
Mas onde a atitude dos dois poetas é mais diferente é no
fecho do poema, na reação de cada um à separação da sua
amada. Enquanto Camões se manifesta possuído de uma
profunda, mas contida tristeza (sem ti, estou passando,
nas mores alegrias mor tristeza), Bocage irrompe nume
tristeza maior do que a provocada pela morte (... se eu te
não vira, / Mais tristeza que a morte me causara). A
atitude de Camões confina-se nos limites de uma
moderação estoica (clássica); Bocage exibe, em atitude
romântica, uma tristeza desmedida, incontrolável.

BORREGANA, António Afonso, O texto em
análise I, c/ adaptações.
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Em síntese,
note que:
a) O texto pode ser dividido em duas partes lógicas: na
primeira, descritiva e pastoril, o sujeito poético
apresenta-nos uma Natureza alegre e variada; na segunda,
iniciada com a adversativa (v. 13), o eu lírico diz
que essa mesma Natureza não poderá causar-lhe alegria
sem a presença da amada.
b) Há, portanto, um fundo petrarquista e clássico, desde
logo ilustrado pelo emprego de certas palavras -
cadentes, Zéfiros, Amores, ósculos, inocentes,
alegre, clara
- pelo próprio nome arcádico Marília e pelo emprego dos
mais-que-perfeitos, nos dois últimos versos.
c) Mas também as marcas românticas são uma realidade,
notórias no intimismo afetivo e no tom coloquial da
composição (verbos na segunda pessoa, frases
interrogativas, tom supostamente dialogal); no fatalismo
amoroso, que leva à perdição, dado que o eu lírico
assevera preferir a morte à perda da sua amada; na
presença do rouxinol a suspirar (ave tradicionalmente
ligada à saudade, ao sofrimento dos amorosos, à
melancolia, ao romantismo); na presença contínua da
Natureza, a refletir o mundo interior do eu; no recurso
intensivo e alternado aos dados sensoriais (sensações
auditivas e visuais), assim como na nota erótica no
início da segunda quadra.
Publicado por Joaquim
Matias da Silva
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