Os termos Realismo e Naturalismo surgem, frequentemente,
associados. Há quem entenda o Naturalismo como um
prolongamento do Realismo, mas de forma mais consistente
e científica e daí que se fale de Naturalismo como um
Realismo exacerbado. O próprio Eça de Queirós, no
episódio do jantar do Hotel Central, n’ Os Maias,
não é claro na explicitação destes dois conceitos.
Fado
(1910:) Pintura naturalista de José Malhoa (Museu da
Cidade de Lisboa)
Há, de facto, semelhanças e diferenças entre Realismo e
Naturalismo. Ambos partem da realidade que observam e
procuram uma mesma conclusão. Mas enquanto o Realismo se
ocupa da realidade imediata, próxima e objectiva,
tentando retratar o indivíduo interagindo no seu meio
social, o Naturalismo interessa-se pelas causas últimas,
muitas vezes genéticas ou hereditárias que podem gerar
comportamentos e situações específicas. O Naturalismo,
com efeito, retrata o lado patológico do indivíduo, o
seu comportamento em obediência aos instintos e
condicionado pelo meio e pela hereditariedade, a
incapacidade de modificar o destino que o persegue. O
escritor naturalista rege-se pelo determinismo e pelo
cientificismo. Quanto ao determinismo, acreditava-se que
o homem era condicionado por três fatores: o meio, a
raça e o momento. Relativamente ao cientificismo, esse
condicionamento derivava de fatores patológicos e
hereditários – se o pai do protagonista tinha sido um
boémio com tendências suicidas, era natural que ele
também o fosse. Assim, à obra naturalista interessa o
aspeto materialista da existência humana, o homem como
simples produto biológico, que é necessário descrever de
forma precisa, minuciosa, fria e exata, escalpelizando
as suas reações, sem nenhuma interferência de ordem
pessoal, psicológica ou moral.
Colheita - Ceifeiras (1893), Pintura naturalista
de Silva Porto, Museu Nacional de Soares dos Reis: Porto
Em muitas obras de escritores realistas, podemos
encontrar marcas do Naturalismo. O romance Os Maias,
por exemplo, apresenta-nos o comportamento e o suicídio
de Pedro da Maia determinados pela educação, pelo meio
social e pela hereditariedade psicofisiológica. Afonso
da Maia e Maria Eduarda, avô e neta, por seu lado, são
personagens com caraterísticas muito idênticas: Quanto
ao perfil psicossomático, ambos são possuidores de
distinção, nobreza interior, simplicidade, uma certa
passividade face aos acontecimentos; relativamente ao
perfil humano, destaque para o bom gosto, a bondade, a
caridade, a amizade para com os animais e para com as
crianças, o prazer pela vida caseira e pelo lar, de
ambos; no que concerne ao perfil cultural, são de
relevar o seu gosto pela leitura e pela cultura em
geral, uma certa irreligiosidade, as mesmas ideias
políticas (defesa da república e de uma sociedade mais
justa), a discordância em relação à retórica, ao culto
da forma (o empolamento frásico, o "chilrear sem ideias
"). Também Carlos da Maia herdou a fraqueza e a cobardia
do pai; o egoísmo, a futilidade e o espírito boémio da
mãe.
Guardando o rebanho (1893), Pintura naturalista
de Silva Porto, Museu Nacional de Soares dos Reis: Porto
Tanto o Realismo como o Naturalismo surgem contra o
tradicionalismo romântico, num verdadeiro compromisso
com a realidade do mundo objectivo e o momento presente
das suas observações. Os escritores e artistas de
qualquer destas tendências procuram, sem preconceitos,
representar os problemas concretos e quotidianos do seu
tempo. Frequentemente, são anticlericais, porquanto se
opõem à defesa de ideologias ultrapassadas; são
antimonárquicos, considerando a monarquia falida; e
antiburgueses, pois a burguesia surge como a verdadeira
imagem e status dos românticos.
Esperando os barcos (1892), Pintura naturalista
inspirada nas praias poveiras, designadamente de
A-Ver-O-Mar, de Marques de Oliveira, Museu do Chiado:
Lisboa
Privilegiando a narração, as obras realistas e
naturalistas recorrem a uma linguagem próxima do texto
informativo, clara e simples, usando a ordem direta nas
construções sintáticas e sem grandes artifícios
metafóricos ou outros para traduzir a realidade.
Em suma, diremos que o Naturalismo apresenta, entre
outras, as seguintes caraterísticas que se diferenciam
do Realismo:
Realismo
Naturalismo
Romance documental, preocupado com a
realidade objetiva, autêntica, não
idealizada.
Romance experimental – pauta-se pela
observação direta dos factos e sua análise,
apoiada na experimentação científica.
Análise exterior e interior, esta última
através da análise psicológica.
Análise exterior – o romance naturalista
preocupa-se com os aspetos exteriores: os
ambientes, os gestos e os atos das
personagens.
Ênfase psicológica – retrata-se a psicologia
das personagens.
Ênfase biológica – buscam-se os aspetos
biológicos e patológicos.
Classes sociais dominantes: o clero, a
burguesia e a aristocracia, em geral.
Classes sociais dominantes: o proletariado e
os mais desfavorecidos.
Interpretação indireta – o leitor tira as
suas próprias conclusões, tendo por base o
que foi exposto pelo narrador.
Interpretação direta – é o autor que
apresenta as conclusões. Cabe ao leitor
aceitá-las ou não.