Na última metade do século XIX, a Europa sofre
profundas alterações a todos os níveis. As grandes
revoluções científicas, técnicas e industriais são
acompanhadas por uma enorme agitação social, em grande
parte resultante da segunda fase da Revolução
Industrial. E isto porque o idealismo e o subjetivismo
emocional dos românticos, em vez de solucionarem os
problemas, tinham-nos agravado. Impunha-se, então, uma
nova visão das coisas, com uma maior preocupação com a
verdade dos factos, a realidade concreta, a explicação
lógica dos comportamentos.
Edouard Manet: Almoço sobre a relva (1863)
Ora, tendo por base a ciência e a técnica, gerou-se a
convicção de que os homens podiam superar muitas das
limitações que paralisaram os antigos. Com efeito,
o respeito pela tradição, segundo pensavam, não tinha
contribuído para o progresso do Homem. Por isso,
filósofos como Augusto Comte (positivismo), Hippolyte
Taine (determinismo), Charles Darwin (darwinismo),
Herbert Spencer (evolucionismo social), Saint-Simon
(socialismo utópico) e Karl Marx (socialismo
científico), bem como escritores franceses, como Gustave
Flaubert (Madame Bovary – 1857, considerado o
primeiro romance realista da literatura universal) e
Emile Zola (Thérèse Raquin, obra que inaugura o
romance naturalista), Charles Dickens (na Inglaterra),
Dostoievsky e Tolstoi (na Rússia) e, entre nós, Eça de
Queirós, Oliveira Martins e Antero de Quental tentam
desvincular a nossa sociedade do imobilismo tradicional
em que caíra e alicerçá-la em novos princípios
dinamizadores de progresso e de justiça.
Em consequência, a nova mundividência dá origem, nas
últimas décadas do século XIX, ao Realismo na Europa,
mais especificamente na França, movimento que se
dissemina, posteriormente, a outros países, em reação ao
Romantismo. Como movimento filosófico, artístico e
literário, o Realismo procura representar o mundo
exterior de uma forma fidedigna, sem interferência de
reflexões intelectuais nem preconceitos, sendo que as
suas caraterísticas estão intimamente ligadas ao momento
histórico, refletindo as novas descobertas científicas,
as evoluções tecnológicas e as ideias sociais, políticas
e económicas da época.
Gustave Courbet: Mulheres peneirando trigo (1855)
Para os artistas e escritores realistas, o que interessa
é observar e analisar o presente, tendo em vista um
futuro mais promissor. Por isso, contrariamente à
literatura romântica, a literatura realista não teme a
sociedade; inversamente, procura analisá-la criticamente
e põe a sua força ao serviço das transformações sociais.
Não perde tempo em busca do paraíso perdido mas gasta
tempo na construção de um paraíso futuro. O Realismo
centra-se na sociedade. Analisa e critica o que há de
mau numa perspetiva pedagógica: o que é mau pode
corrigir-se, caso haja um verdadeiro empenhamento, razão
pela qual a literatura também quer comprometer-se nessa
tarefa: torna-se, por isso, uma literatura empenhada,
comprometida. A crítica e a ironia vão incidir, deste
modo, sobre as personagens, denunciando as suas
corrupções, as intrigas em que se enredam, a
mediocridade que manifestam, as soirées ociosas
em que gastam o tempo. A sinceridade do coração,
enaltecida pelo Romantismo, perde importância em favor
da verdade dos factos, passíveis de comprovação. O
subjetivo cede, pois, lugar ao objetivo. É preciso ver
para crer. Daí que a linguagem se torne mais direta e
desafetada, procurando transmitir, até ao pormenor, o
máximo de dados que possibilitem a captação das
qualidades das coisas através de todos os sentidos.
Gustave Courbet: Os cortadores de pedra (II)
O grande desenvolvimento filosófico e científico, como
vimos, ajudou os artistas a pugnarem por uma sociedade
melhor, mais humana e mais justa. As caraterísticas
essenciais que se refletem no movimento doutrinário que
teve a sua génese nestes propósitos são:
O objetivismo – o autor realista,
preocupado principalmente com a verdade, devia manter-se
distante dos factos narrados, buscando o máximo de
imparcialidade e de impessoalismo. O julgamento dos
factos ficaria a cargo do leitor.
O universalismo ou cosmopolitismo
– ao contrário do individualismo do romantismo, os
autores realistas buscavam o que era universal. O “eu”
cede lugar ao coletivo, ao “não-eu”.
As personagens modeladas ou
carateres – também diferentemente do romantismo, o
autor realista recorre a personagens mais complexas e
dinâmicas que evoluem psicologicamente ao longo da
narrativa. No romantismo, quase todas as personagens
eram lineares ou seja, eram previsíveis, construídas a
partir de um único aspeto: ou eram heróis ou eram
vilões.
A contemporaneidade ou a
valorização do presente – cai por terra o
enaltecimento do passado histórico; o que interessa é o
presente, o hoje. Daí a frequente crítica social,
procurando desmascarar a imoralidade da igreja e da
burguesia da época.
O detalhe – as personagens e os
locais são descritos pormenorizadamente pelos autores,
que buscavam a parte mais fiel da realidade.
O amor real e racionalista – este
sentimento deixou de ser piegas, irracional, imbuído de
uma certa índole idealista, platónica e contraditória
(mulher anjo/mulher demónio), para passar a ser mais
racional, em que à mulher é reconhecido um papel mais
livre, mais ativo na sociedade, mais igualitário, ainda
que, por vezes, não deixe de ser apresentada como objeto
de prazer e, daí, uma certa legitimação do adultério (em
Os Maias, por exemplo, é o “adulteriozinho” que
apimenta a relação física entre um homem e uma mulher).
Edouard
Manet: Olympia (1863)
A paisagem é colorida e variada,
em contraste com a exaltação da paisagem outoniça,
noturna, luarenta, escura, agreste dos românticos, onde
se viam refletidom os seus estados de espírito. A
descrição dessa paisagem colorida e variada é captada
por todos os sentidos, pelo que o uso do adjetivo, do
advérbio e da sinestesia ganha nova importância.
As atitudes antirreligiosas e as
reações anticlericais tornam-se mais notórias, como
resultado das conquistas científicas, que deslumbram os
espíritos, como se estas pudessem, só por si, dar
resposta a todos os problemas do homem, pondo de lado
Deus e a Metafísica.