Carlos é objecto de uma caracterização essencialmente
indirecta, dinâmica, em que os atributos da personagem
são apreendidos gradualmente, à medida que a sua
actuação no decurso da acção o vai permitindo (o que
contradiz a estética naturalista, segundo a qual os
tipos deviam ser exaustivamente dissecados).
O único aspecto que é objecto de atenção mais
sistematizada do narrador é o físico: Carlos era um "formoso
e magnífico moço, alto, bem feito, de ombros largos, com
uma testa de mármore...
" (p. 96).
Recebeu uma educação inovadora, tipicamente inglesa, em
que é privilegiada a vida ao ar livre, o contacto com a
natureza, o exercício físico, a aprendizagem de línguas
vivas, o desprezo pela cartilha e por todo o
conhecimento exclusivamente teórico. Gozando de uma
situação de desafogo económico evidente, Carlos torna-se
um diletante e um dândi, sendo notórios o seu bom gosto,
a sua atracção por ambientes sobriamente luxuosos e os
seus hábitos culturais sofisticados.
Toda a acção gira em torno de Carlos. A Afonso da Maia e
a Pedro da Maia são atribuídos apenas os dois capítulos
iniciais, ou seja, aqueles em que são relatados os
antecedentes familiares de Carlos.
Sendo, uma personagem que ocupa um lugar de destaque,
como vimos, acaba, no entanto, por não se adaptar ao
meio, revelando-se como um falhado, um fraco, um
romântico (só o não foi na solução realista final
encontrada para os seus problemas), situação
tremendamente frustrante e até chocante, tendo em conta
a educação recebida.
Em termos sintéticos, dir-se-á que a narrativa, no que
se refere a esta personagem, compreende as seguintes
etapas:
a época da formação de Carlos
(cap. III),
os seus estudos em Coimbra
(cap. IV),
a vida social em Lisboa e a sua intriga
(caps. IV a XVII),
o seu regresso a Lisboa,
não para se reinstalar, mas para a apresentação de
significados simbólicos e ideológicos (cap. XVIII). Mais
se dirá que se destacam, na sua personalidade,
características como o cosmopolitismo, a sensualidade, o
luxo, o diletantismo e o dandismo.
Carlos e
Maria Eduarda no Ramalhete.
Educado de forma esmerada, fracassou. Porquê? Não foi
por causa da sua educação, mas apesar da sua educação,
se bem que o problema de uma educação baseada apenas em
valores físicos e intelectuais, desprezados alguns
aspectos espirituais, mereça uma reflexão atenta. Falhou
em parte por causa do meio onde se instalou - uma
sociedade parasita, ociosa, fútil, sem estímulos -, e em
parte devido a aspectos hereditários - a fraqueza e a
cobardia do pai, o egoísmo, a futilidade e o espírito
boémio da mãe.
Ver
educação
de Carlos da Maia versus Eusebiozinho.
Obs: as
páginas indicadas referem-se à obra de Eça de Queirós,
Os Maias (Episódios da Vida Romântica), Edição
Livros do Brasil, de acordo com a primeira edição
(1888). Lisboa