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"REGRESSO" -
COMENTÁRIO
A leitura deste poema de Miguel Torga evoca, de
imediato, um outro texto famoso que integra a
não menos famosa obra Bíblia Sagrada – a
parábola do Filho Pródigo. Mudam as
circunstâncias, é certo, mudam os lugares, mudam
os protagonistas, muda até o tipo de texto, mas
os ingredientes principais, a nível semântico,
estão lá todos: o abandono da casa paterna por
parte do filho perdido, no caso da parábola, e o
de Trás-Os-Montes (= Paraíso), no caso do
sujeito poético, um e outro por opção pessoal,
resultado da ilusão dos prazeres fugazes e de
comprovadas necessidades de índole monetária –
Torga foi arrancado a contragosto do seu torrão
natal, como nos evidencia o verso expressivo
"Regresso às fragas de onde me roubaram"; a
dissipação dos bens (filho pródigo) ou de alguns
anos da vida - aqueles que, porventura, podiam
ou deveriam ser os mais belos (Torga) -, o que
leva a um tremendo “cansaço”; o arrependimento e
o consequente “regresso”; a recepção calorosa
dispensada por um pai extremoso (filho pródigo)
ou pela Mãe-Natureza (Miguel Torga).

Por inferência, podemos, pois, afirmar que este
texto apresenta um carácter marcadamente
narrativista e reveste-se de tonalidades
nitidamente autobiográficas. De qualquer dos
modos, e talvez também por isso, assume-se como
um verdadeiro hino à Terra-mãe / Universo, razão
por que não teremos qualquer dúvida em inseri-lo
na temática da atracção telúrica torguiana.
Aliás, esta composição só vem tornar mais
credíveis as doutas palavras de Fernão de
Magalhães Gonçalves, quando afirma, in Ser e
Ler Torga:
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A terra, a vida e o homem – são os três
agentes distintos, originais e originários
da cosmogénese torguiana. É da sua cúmplice
reciprocidade que se gera o ciclo da
fecundidade, da fertilidade e da reprodução,
os ritmos cósmicos da vida e da morte.
(…) Sem dúvida que o elemento primordial é a
terra, o ventre telúrico de cujo útero, na
origem dos tempos, emanaram os primeiros
homens, os primeiros arbustos e os primeiros
caniços. As crianças vieram do fundo da
terra, das cavernas, das grutas, mas também
dos mares, das fontes
e das ribeiras. |
O carácter narrativista do poema “Regresso” pode
ser documentado por um simples resumo do mesmo:
o sujeito poético empreende uma viagem de
regresso à sua terra natal (“Regresso às fragas
de onde me roubaram” – o lexema “fragas”
remete-nos para o solo transmontano, para as
origens), depois de uma vida dura, cheia de
escolhos, de cuidados e – por que não dizê-lo? –
vivida com uma certa sensação de inutilidade
(“Atrás ia ficando a terra morta / Dos versos
que o desterro esfarelou”). A recepção a que tem
direito é de sobremaneira calorosa, afectuosa
mesmo, por parte da Natureza, de tal forma que
ele se sente como um filho bem-amado, ao
refugiar-se no “colo dos penedos”, recuperando a
felicidade, bem como uma certa cumplicidade que
mantivera com esse paraíso perdido ( “E eu
deitei-me no colo dos penedos / A contar
aventuras e segredos / Aos deuses do meu velho
paraíso”).
Quanto às tonalidades autobiográficas, elas são
por demais evidentes; daí que nos coibamos de
as enumerar exaustivamente. Relembraremos apenas
alguns dados da
biografia de Miguel
Torga,
apresentada no início deste trabalho: a sua ida,
acabada a instrução primária, para o Porto, onde
chegou a ser moço de recados; a emigração, aos
treze anos, para o Brasil, onde trabalhou
arduamente, durante cinco anos, como capinador,
apanhador de café, vaqueiro e caçador de cobras,
na Fazenda de Santa Cruz (Banco Verde), Estado
de Minas Gerais, numa adolescência que se pode
considerar precocemente dura, brutal,
humilhante, permanentemente instável; o regresso
a Portugal, para se entregar com afinco e
proveito aos estudos, longe da terra que o viu
nascer; o exercício da actividade de médico
otorrinolaringologista, em Coimbra. Em suma, um
conjunto de circunstâncias adversas da vida
afastara Torga, tempo demais, do seu torrão
natal, do seu paraíso. E se é verdade que um
poema vale por si, também não deveremos
descuidar alguns aspectos biográficos do seu
autor.
Como compreendemos certamente melhor agora a
força expressiva da forma verbal "me roubaram" a
terminar, num lugar de destaque, o primeiro
verso do poema!...
É que o sujeito poético (Torga?) viu-se, criança
ainda, despojado da Natureza contemplada em sua
crua virgindade, agreste, mas acolhedora. Com
que sensibilidade, possivelmente com uns
pozinhos de lamechice, apreciamos, agora, a sua
entrega incondicional, quase sensual, à
Terra-mãe, o seu reencontro com a unidade
cósmica, em que o Céu, a Terra e o Poeta-Homem
se tornam comunicantes: “Depois o céu abriu-se
num sorriso, / E eu deitei-me no colo dos
penedos”.

O nível fónico-formal também vem ajudar a
compreendermos os laços de uma afectividade
partilhada que se estabeleceu desde sempre entre
a Natureza e o sujeito poético. Com efeito,
estamos perante um poema constituído por três
estrofes (o número três é o número da perfeição,
da pureza, um número divino, sendo curioso
verificar que o sujeito poético estabelece uma
ligação com a Terra e expressa através dela o
próprio sentido do sagrado), de quatro versos (o
número quatro simboliza o terrestre, a
totalidade do criado e do revelado, logo a
universalidade), com dez sílabas métricas
(decassílabos heróicos), com excepção do segundo
verso da segunda estrofe, que é hexassilábico.
Quanto à rima, deparamo-nos com a rima cruzada,
nas duas primeiras quadras, a sugerir o
entrelaçamento do eu lírico com a Natureza
animizada; na última quadra, a rima é
interpolada e emparelhada. A rima interpolada
aproxima as palavras “sorriso” e “paraíso”, como
que a transmitir a ideia de que só no “velho
paraíso” o Homem recuperará a alegria de viver;
a rima emparelhada, por seu lado, enfatiza a
cumplicidade que se estabelece entre os
“penedos” e o eu da enunciação que conta
“aventuras e segredos”.
No que respeita ao ritmo, este é cadenciado,
cantante, a espelhar o contentamento da Natureza
e do sujeito poético que regressa ao seu seio.
Essa cadência rítmica é conseguida pelo recurso
ao decassílabo heróico (verso acentuado nas
sexta e décima sílabas) e pelas aliterações em
/-c / , em /-p / , em /-s /, em /-t / e em /-r /
(“Cantava cada fonte à sua porta: / O poeta
voltou! / Atrás ia ficando a terra morta / Dos
versos que o desterro esfarelou.”), a
sugestionarem ora o movimento e a alegria da
natureza e do sujeito poético, que se
reencontram, ora a angústia e uma certa revolta
e desilusão deste último pelo tempo passado
longe da Terra-mãe.
A saudade e o carinho que o sujeito poético
nutre por ela são notórios logo no início do
poema, quando ele recorre à frase exclamativa, à
interjeição “Ah!”, ao determinante possessivo
minha (“…minha serra…”), o qual, para além da
ideia de posse, expressa ainda ternura – seja
pela “serra” que o viu nascer, seja pela
infância que, mesmo “dura” (frise-se a
expressividade deste adjectivo e veja-se como
ele também introduz uma nota autobiográfica,
assunto já atrás abordado), nem por isso deixou
de ser um período maravilhoso da sua vida,
porque essa infância foi vivida no seio da
Natureza e porque nela não havia “cansaço”. É a
busca da felicidade perdida, é a fuga do
“cansaço” de hoje que trazem o eu lírico de
regresso à casa-natureza. E, para sua ventura,
vai ser recebido de braços abertos. A Natureza
animizada comunga da saudade e da alegria do
“eu”. Daí que os “rijos carvalhos” acenem, mal
avistam ao longe o filho que andava perdido mas
que pretende agora reencontrar-se consigo mesmo
e com a Terra-mãe.

Realce-se que quem se desviou do caminho foi o
Homem; a Natureza esteve lá sempre, paciente, à
sua espera. É o que nos traduz a referência aos
“rijos carvalhos” – “rijos” no sentido de
fortes, persistentes, que perduram no tempo. Com
efeito, o carvalho é considerado uma árvore
sagrada em numerosas tradições, sendo investido
dos privilégios da divindade suprema do céu, sem
dúvida porque atrai o raio e simboliza a
majestade. Indica sobretudo solidez, força,
longevidade e altura, tanto no sentido
espiritual como material. O carvalho é a
representação por excelência da árvore ou do
eixo do mundo, tanto entre os Celtas como em
certas regiões da Grécia; é o instrumento de
comunicação entre a Terra e o Céu (CHEVALIER e
GHEEERBRANT, 1969).
Também as fontes, personificadas, receberam o
poeta com alegria, com cantos. E é curioso
verificar que o simbolismo da fonte de água viva
é expresso principalmente pela nascente que
jorra no meio de um jardim, ao pé da Árvore da
Vida, no centro do Paraíso Terrestre. Esta é a
fonte da vida ou da imortalidade, ou ainda, a
fonte do ensinamento. É uma tradição constante
dizer que a fonte da juventude nasce ao pé de
uma árvore. Pelas suas águas sempre novas a
fonte simboliza o perpétuo rejuvenescimento.
Símbolo de maternidade, nas culturas
tradicionais é a origem da vida, do génio, do
poder e da felicidade. Para os Gauleses, as
fontes eram divindades que tinham a propriedade
de curar as feridas e reanimar os guerreiros
mortos (CHEVALIER, Jean; CHEERBRANT [1969].
Dictionnaires des Symboles, com adaptações,
Paris : Edições Robert Laffont S.A. e Edições
Jupiter), correspondendo exactamente às
pretensões de “O poeta [que] voltou!”. Com o
regresso do Poeta, o seu passado de sofrimento,
de “desterro” e inutilidade vai sendo esquecido
paulatinamente. Até os seus versos (= obra)
construídos (criada) na “terra morta” (= inferno
da vida) se esfarelaram, porque não tinham
valor, faltava-lhes a inspiração genesíaca.
Note-se a expressividade da oposição entre a
“fonte” (=vida) e “terra morta” (=morte).

Finalmente, o céu, também ele personificado,
desvenda toda a sua alegria pelo retorno às
origens da ovelha tresmalhada que, acolhida e
acarinhada desta maneira deita-se “no colo dos
penedos” (imagem metafórica deveras
expressiva!), a contar as suas “aventuras” – e
desventuras, dizemos nós – e "segredos” aos
deuses do paraíso reconquistado.
Em conclusão: parece que, em uníssono, todo o
universo – estão lá quase todos os seus
elementos: terra (serra, penedos, carvalhos),
água (fonte) e ar (céu) – acolheu no seu ventre
o Poeta-Homem. Merece aqui uma atenção especial
a gradação ascendente: terra – água – céu, a dar
a noção de um movimento ascensional, do terreno
para o divino, do material para o espiritual, do
mundo das trevas para o paraíso.
E assim, o homem trágico torguiano deixa de ser
um ser vencido, abatido, manietado. Passa a ser
um ser absoluto, cercado de esplendor da ordem
natural. Em Diário, ao longo de muitas
páginas, o homem é a grande aposta de Torga:
"Sem acreditar nele, como poderia acreditar em
mim?". Mas também aí se avolumam as
interrogações, as dúvidas, o desejo agudo de
decifrar o enigma, de captar o sentido do homem.
E apesar de um certo "desespero humanista", ou
até por isso, a demanda do paraíso (o da
infância recuperada? – "Não desisto de ser
criança.") é um dos objectivos a alcançar.
Escola
Secundária Camilo Castelo Branco - V. N. Famalicão,
Março de 2004
Comentário feito pelo professor
Joaquim Matias da Silva
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