Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Fernando Pessoa

 

Análise do poema

 

BICARBONATO DE SODA (1)


 

Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio
(2) e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
                                                                                             circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa
(3)
no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,
 

“O Grito”, pintura de Edvard Munch

 

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!


(Fernando Pessoa, Poemas de Álvaro de Campos,Lisboa, IN-CM, 1992)

 

Notas:
(1) Bicarbonato de soda: medicamento que serve para aplacar o enjoo causado pela ingestão de alimentos pesados.
(2) Gládio: antiga espada curta, robusta, de lâmina larga com dois gumes, usada especialmente pelos legionários romanos; fig. poder, força.
(3)
esfalfa: causa cansaço; extenua.
 

(Fernando Pessoa, Poemas de Álvaro de Campos,Lisboa, IN-CM, 1992)

 

 

Ver aqui comentário orientado ao poema

 

 

 

 

====================================================

 

Talvez também tenha interesse em ver comentáros de poemas e estudos integrais de todas as obras e autores que fazem parte dos programas de Português e de Literatura Portuguesa dos 9.º ao 12.º anos de escolaridade.

Consulte então os seguintes menus: Fernando Pessoa (poesia ortónima e heterónima), O Memorial do Convento (José Saramago), Felizmente Há Luar, Frei Luís de Sousa, Um Auto de Gil Vicente e Folhas Caídas (Almeida Garrett), Amor de Perdição (Camilo Castelo Branco), Antero de Quental, António Nobe, Sermão de Santo António aos Peixes (Pe. António Vieira), Bocage, Camilo Pessanha, Cesário Verde, Os Maias e A Aia (Eça de Queirós), Eugénio de Andrade, Fernão Lopes, A Farsa de Inês Pereira (Gil Vicente), O Render dos Heróis (José Cardoso Pires), Camões lírico e Camões épico, Miguel Torga, Sophia Andresen, Aparição (Vergílio Ferreira), as Cantigas de amigo, de amor, de escárnio e de maldizer.

Consulte ainda as rubricas de Funcionamento da Língua.

Boas leituras e bom estudo.

 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

Voltar

  Início da página

 

   

© Joaquim Matias  2015

 

 

 

 Páginas visitadas