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FERNANDO PESSOA ORTÓNIMO – poesia lírica
O seu lirismo puro (em contraste com a impureza da humanidade em que se enraíza)
é voz de “anima” que se confessa baixinho, num tom menor, melancólico, de uma
resignação dorida, de quem sofre a vida sendo incapaz de a viver. Uma imagem da
sua poesia, a "viúva pobre que nunca chora", define-a simbolicamente. Hesita
entre uma fé ocultista e a suspeita de que tudo é sonho ou aparência sem fundo,
esta vida e a outra que pressentiu (neoplatonismo?).
Herdeiro, como Nobre, do gosto garrettiano pelo popular, é seduzido também pelo
mundo fantástico da infância, recorrendo às reminiscências de contos de fadas,
de cantigas de embalar e toadas de romanceiro.
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O motivo, o pretexto das suas composições é muitas vezes um quase, um não sei
quê, uma vivência incoercível, que se tornam límpidos, definidos, pela sua
extrema lucidez.
Toda a obra pessoana assenta numa questão fundamental: a da crise da identidade.
"Quem me dirá quem sou?" é a
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pergunta que se
dissemina ao longo de toda a sua escrita múltipla e ficcional.
Para esta
interrogação angustiante, vislumbram-se na sua poesia três possíveis soluções:
1. Uma solução religiosa, com reminiscências neoplatónicas, em que o sujeito
seria o sonho de um outro;
2. Uma solução por desistência, em que o eu deseja o sono, o esquecimento, a
fuga na noite, no vento, na música, o sossego, a morte, a abulia, a
passividade, a indiferença...;
3. Uma solução por troca, em que o eu gostaria de ser um outro, necessariamente
mais autêntico e feliz, fosse ele uma ceifeira ou um gato que brinca na rua.
Nenhuma destas soluções, porém, é viável. A ânsia de ser apenas ficção e
linguagem prevalece.
Para Jacinto do Prado Coelho, há duas "maneiras" na poesia de Pessoa-ipse: a
modernista e a tipicamente pessoana. A primeira abarca o simbolismo nefelibata
de "Hora Absurda ", o paulismo de "Impressões do Crepúsculo " e o
interseccionismo de "Chuva Oblíqua ". Começa em 1913 e termina em 1817,
correspondendo às actividades literárias que serão, mais tarde, objecto de
crítica pelo próprio Pessoa, quando diz, numa carta a Armando Cortes-Rodrigues,
serem elas fruto de uma "ambição grosseira de brilhar por brilhar" e possuidoras
de um "plebeísmo artístico insuportável", com a intenção de "épater". A
“maneira” típica de Pessoa também é visível já em 1913 ("Ó sino da minha aldeia
") e é constituída por poemas denunciadores da influência de Garrett e de
António Nobre. São geralmente poemas curtos, com regularidade métrica (verso de
entre duas a sete sílabas), estrófica, rimática e melódica e com uma linguagem
simples, musical, subtil, intimista e sóbria, embora de grande densidade
ideológica e afectiva. No Pessoa ortónimo, os poemas vivem fundamentalmente do
ritmo, das vivências de essência musical e da combinação de sons, de onde
consegue tirar efeitos surpreendentes:
“Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.”
Mas Pessoa separa-se de Nobre, assim como de toda a tradição lírica portuguesa
do “coração ao pé da boca” (no dizer de um conceituado crítico), pelo seu
anti-sentimentalismo, pela ausência do biográfico na sua poesia, pela tendência
para reduzir a verdades gerais circunstâncias humanas concretas.
A ausência do sentimentalismo confessional é explicada pelo facto de Pessoa
viver essencialmente pela inteligência intuitiva ou discursiva, pela
sensibilidade que lhe é própria e pela imaginação. Entretanto, aproxima-se de
António Nobre e de Sá-Carneiro pelo egotismo exacerbado, pelo cepticismo, pela
afirmação da inutilidade e aridez da vida, pela sensação do tédio e do vazio de
alma de um homem que, segundo palavras de Maria da Glória Padrão, se sente
triplamente solitário: porque perdido diante da infinidade cósmica; porque
divorciado dos outros por se ter adiantado demais aos companheiros de viagem; e
porque afastado de si próprio por não encontrar a unidade que nem os deuses têm.
Daí o estranhamento, a passividade, o alheamento...
Publicado por
Joaquim Matias da Silva
Trabalho-síntese elaborado com base na seguinte bibliografia:
* BARREIROS, A. José (1982). História da
Literatura Portuguesa, vol.2, 9.ª ed., Braga: Editora Pax
* COELHO, J. do Prado (1987). Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa,
9.ª ed., Lisboa: Editorial Verbo.
* GÜNTERT, Georges (1982). Fernando Pessoa – O Eu Estranho, Lisboa:
Publicações Dom Quixote.
* SEABRA, José Augusto, Fernando Pessoa – ou o Poetodrama.
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