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POESIA ORTÓNIMA PESSOANA - A
ESPECULAÇÃO FILOSÓFICA
A par de uma estética ou filosofia da arte, encontramos em Pessoa uma tendência
para a especulação filosófica, como ele próprio admite: “Eu era um poeta
impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas”.
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Perante a religião e a lógica, Pessoa ora se mostra
céptico ora se deixa levar pelo princípio da transcendência. A
inteligência para ele é eminentemente negadora e negativa, seguindo,
pois, um radicalismo intelectual: “À certeza com que cada um pensa
convém opor a certeza com o que se pode pensar o contrário, com que se
pode tornar lógico o absurdo…”. A arte da negação leva ao paradoxo.
Pessoa desmantelou a objectividade do conhecimento e os critérios da
verdade. Todas as ideias estão condenadas a serem pura ficção. Nada
permite distinguir a realidade das aparências – “toda a criação é ficção
e ilusão”.
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Retrato de Pessoa: Almada Negreiros. |
Assim, a matéria é uma ilusão para o Pensamento, o
Pensamento uma ilusão para a Intuição, a Intuição uma ilusão para a
Ideia Pura e a Ideia Pura uma ilusão para o Ser. Este último é
essencialmente Ilusão e Falsidade. “Deus é Mentira Suprema”.
Esta posição perante a Verdade e o Absoluto tem a ver com o ocultismo. Na verdade, é
impossível desligar a criação poética pessoana do esoterismo, patente em vários
poemas.
Há também uma interpenetração do
esoterismo com o platonismo: o mundo surge como reminiscência de “outro ser”. O
ocultismo seria assim a indagação do sentido oculto das coisas e da existência.
Pessoa situa-se numa perspectiva niilista ao menosprezar todos os valores e ao
ver na invenção e na arte a única possibilidade de vida. A arte afirma a vontade
de aparência, de ilusão e de ficção. Criar é mentir. A mentira leva ao
fingimento, que é um modo de conhecimento, pois permite contornar as
falsificações de um mundo interior, os disfarces da consciência reflexiva.
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A poesia de Pessoa é a de um poeta metafísico já comprometido com a crise da
metafísica, crise que marca o pensamento actual. A linguagem encerra um
movimento de perda do ser, da sua disseminação. Os heterónimos surgem como os
Outros, num espaço imaginário de um teatro sem drama. Pessoa é persona,
máscara, ninguém. É a desistência como revelação, a aceitação da alteridade. É a
máscara sem rosto, a máscara multifacetada em outras máscaras.
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Pessoa viveu a cisão em todos os domínios: na especulação
filosófica, na neurose, na questão da linguagem, na criação literária.
Apresenta na sua poesia
uma nostalgia do eu quase incurável: “Na história da poesia moderna, Pessoa foi,
talvez, o “ponto” em que mais intensamente o sujeito poético viveu o drama da
sua crítica dispersão”. Compara-se a Shakespeare, o “supremo despersonalizado”:
“Deus não tem unidade / Como a terei eu?”. O texto pessoano é uma teia em que o
sujeito se enreda.
Publicado por
Joaquim Matias da Silva
Trabalho-síntese elaborado com base na seguinte bibliografia:
* BARREIROS, A. José (1982). História da Literatura Portuguesa, vol.2,
9.ª ed., Braga: Editora Pax
* COELHO, J. do Prado (1987). Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa,
9.ª ed., Lisboa: Editorial Verbo.
* GÜNTERT, Georges (1982). Fernando Pessoa – O Eu Estranho, Lisboa:
Publicações Dom Quixote.
* SEABRA, José Augusto, Fernando Pessoa – ou o Poetodrama.
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