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Fernando Pessoa

 

POESIA ORTÓNIMA PESSOANA - A ESPECULAÇÃO FILOSÓFICA

 

A par de uma estética ou filosofia da arte, encontramos em Pessoa uma tendência para a especulação filosófica, como ele próprio admite: “Eu era um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas”.

 

Perante a religião e a lógica, Pessoa ora se mostra céptico ora se deixa levar pelo princípio da transcendência. A inteligência para ele é eminentemente negadora e negativa, seguindo, pois, um radicalismo intelectual: “À certeza com que cada um pensa convém opor a certeza com o que se pode pensar o contrário, com que se pode tornar lógico o absurdo…”. A arte da negação leva ao paradoxo. Pessoa desmantelou a objectividade do conhecimento e os critérios da verdade. Todas as ideias estão condenadas a serem pura ficção. Nada permite distinguir a realidade das aparências – “toda a criação é ficção e ilusão”.

 

Retrato de Pessoa: Almada Negreiros.

 

Assim, a matéria é uma ilusão para o Pensamento, o Pensamento uma ilusão para a Intuição, a Intuição uma ilusão para a Ideia Pura e a Ideia Pura uma ilusão para o Ser. Este último é essencialmente Ilusão e Falsidade.  “Deus  é Mentira Suprema”.

Esta posição perante a Verdade e o Absoluto tem a ver com o ocultismo. Na verdade, é impossível desligar a criação poética pessoana do esoterismo, patente em vários poemas.


        Há também uma interpenetração do esoterismo com o platonismo: o mundo surge como reminiscência de “outro ser”. O ocultismo seria assim a indagação do sentido oculto das coisas e da existência.

 

Pessoa situa-se numa perspectiva niilista ao menosprezar todos os valores e ao ver na invenção e na arte a única possibilidade de vida. A arte afirma a vontade de aparência, de ilusão e de ficção. Criar é mentir. A mentira leva ao fingimento, que é um modo de conhecimento, pois permite contornar as falsificações de um mundo interior, os disfarces da consciência reflexiva.

 

A poesia de Pessoa é a de um poeta metafísico já comprometido com a crise da metafísica, crise que marca o pensamento actual. A linguagem encerra um movimento de perda do ser, da sua disseminação. Os heterónimos surgem como os Outros, num espaço imaginário de um teatro sem drama. Pessoa é persona, máscara, ninguém. É a desistência como revelação, a aceitação da alteridade. É a máscara sem rosto, a máscara multifacetada em outras máscaras.

 

Pessoa viveu a cisão em todos os domínios: na especulação filosófica, na neurose, na questão da linguagem, na criação literária.

 Apresenta na sua poesia uma nostalgia do eu quase incurável: “Na história da poesia moderna, Pessoa foi, talvez, o “ponto” em que mais intensamente o sujeito poético viveu o drama da sua crítica dispersão”. Compara-se a Shakespeare, o “supremo despersonalizado”: “Deus não tem unidade / Como a terei eu?”. O texto pessoano é uma teia em que o sujeito se enreda.

 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

 

Trabalho-síntese elaborado com base na seguinte bibliografia:

* BARREIROS, A. José (1982). História da Literatura Portuguesa, vol.2, 9.ª ed., Braga: Editora Pax
* COELHO, J. do Prado (1987). Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, 9.ª ed., Lisboa: Editorial
Verbo.
* GÜNTERT, Georges (1982). Fernando Pessoa – O Eu Estranho, Lisboa: Publicações Dom Quixote.
* SEABRA, José Augusto, Fernando Pessoa – ou o Poetodrama.
 

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