Representa o poder real
que, de forma absoluta, condena uma nação a
servir a sua religiosidade fanática e doentia,
bem como a sua vaidade. Com efeito, este Rei de
Portugal, de 1706 a 1750, desempenha o papel de
monarca de setecentos que quer deixar como marca
do seu reinado uma obra grandiosa e magnificente
– o Convento de Mafra. Este é construído sob o
pretexto de que cumpre uma promessa feita ao
clero, classe que "santifica" e justifica o seu
poder.
É
símbolo do monarca absoluto, vaidoso (chega a
equiparar-se a Deus nas suas relações com as
religiosas!...- pág. 163), megalómano (desvia as
riquezas do país para manter uma corte dominada pelo
luxo, pela corrupção e pelo excesso), egocêntrico,
mantendo com a rainha apenas uma relação de "cumprimento
do dever", não evidenciando qualquer sentimento amoroso
por ela, antes fazendo vir ao de cima a sua faceta animalesca (“emprenhou”, “cobridor”). Em alguns
momentos, pretende ser um déspota esclarecido, à
semelhança dos monarcas europeus da sua época – veja-se
como favorece, durante algum tempo, o projecto do padre
Bartolomeu de Gusmão e contrata Domenico Scarlatti para
ensinar música a sua filha, a infanta Maria Bárbara.
Dado aos prazeres da carne e a destemperos vários (teve
muitos bastardos e a sua amante favorita era a Madre
Paula do Convento de Odivelas), assume unicamente o
papel gerativo de um filho e de um convento, numa
dimensão procriadora, da qual a intimidade e o amor se
encontram ausentes, sacrificando muitos homens válidos
e a riqueza do país na consecução do seu desiderato.
Ver págs. 11-12, 51, 116-117, 163, 166,
299-300 e 365, de Memorial do Convento, 36.ª ed., 2005.