"Teatro épico – a expressão em si
parecerá contraditória, se pensarmos nos três grandes
géneros literários (Dramático, Épico e Lírico) que,
desde Aristóteles, continuam distintos por definição. Na
prática, porém, sabe-se como, especialmente a partir da
época romântica, elementos próprios dum género surgem
noutro, mas isso não invalida que, por exemplo, no
romance ainda predomine a feição narrativa
característica.
O teatro épico, não deixando de ser
teatro, vem conferir um valor incomum ao elemento
narrativo, dado que estabelece como objetivos narrar, desmontar, mostrar
perante os olhos do espectador os acontecimentos, os
pequenos e grandes dramas de que é protagonista gente
semelhante e diferente dele. E porquê? Porque, ao
contrário de fazer o público, mergulhado na escuridão,
projectar os seus problemas e tensões nos heróis-em-cena,
sofrendo com as amarguras e alegrando-se com os triunfos
deles para, finalmente, abandonar o teatro (o local da
acção) com a alma “purificada” pela velha catarse
aristotélica, o teatro épico pretende manter a
consciência, a capacidade de observação e análise, o
raciocínio dos espectadores, para eles irem
tirando dos problemas expostos as conclusões
correctas.
Eugen Berthold Friedrich Brecht -
renovador do
teatro moderno.
Daí que, a propósito de teatro épico, se fale também de
teatro didáctico ou até de, passe o
aparente trocadilho, teatro ético (= teatro moral).
Com o fim de impedir a empatia, a
identificação emocional do público com as personagens
(os “heróis”), este novo tipo de teatro serve-se
do efeito da distanciação. Para o conseguir,
torna-se necessário utilizar um conjunto de técnicas –
algumas delas, como o uso de máscaras, cores e gestos
simbólicos, já vêm do antiquíssimo teatro asiático;
outras, como a projecção dos títulos das cenas, de
“slides” elucidativos ou a introdução de canções-baladas
(quebrando o fio da acção para comentar cenas passadas
e/ou preparar as seguintes), relevam de outros campos
que não o especificamente teatral; outros elementos já
presentes no teatro tradicional, como, por exemplo, a
música, são agora explorados com um novo sentido...
Lançando mão de todas essas técnicas, o encenador, os
cenógrafos, os actores e demais pessoal constituinte da
equipa que faz acontecer teatro, não escondem ao público
que estão a representar e a mostrar (e não a viver e
encarnar) uma história que, por muito "trágica", nunca o
será na acepção clássica. Isto é, ficará claro que a
possível “tragédia” não é desencadeada pelo Destino, mas
sim por causas humanas e sociais, condicionalismos e
estruturas de um mundo passível de transformação.
Transformação necessária, indispensável mesmo para
solucionar este ou aquele tipo de problemas. Daí que
também se fale, a propósito de teatro épico, de
teatro-social, em que se dá relevo à dinâmica da
História e à sua alavanca fulcral: a luta de classes.
“ (…) Mas, atenção (!), convém
aqui lembrar que
Brecht não vai, em regra, buscar para
personagens das suas peças os grandes nomes da História,
a não ser para os desmistificar (...); normalmente, traz
para cena, sim, gente comum que, embora nem sempre o
aparente, é, no fim de contas, a autêntica obreira da
História. Daí falar-se de teatro dos anti-heróis
e, de facto, não se pode deixar de sentir paralelismos
entre, por um lado, a Ti Coragem e o soldado Félix
Felizardo (o protagonista de "Homem Morto, Homem Posto")
[...] e, por outro, o nosso Fernão Mendes Pinto, que, em
vez da versão grandíloca e edificada de outros autores,
nos dá das Descobertas uma visão de homem do povo batido
pela vida, uma visão perspectivada mais de baixo, mas
também mais realista e humana... Daí falar-se de
teatro realista e popular, embora Bertold Brecht
nos recorde que "o conceito de carácter popular da arte
não é tão popular como parece; pensar o contrário não é
realista".
Ao explicar o sentido de "teatro
épico", Brecht concretizou toda essa teoria que tem
feito correr rios de tinta com o caso de um vulgar
acidente de viação e as versões parciais e
contraditórias provocadas pelo acontecimento (mais uma
vez, a verdade depende da perspectiva...). Mas o exemplo
escolhido serve, entre outras coisas, para lembrar que o
novo tipo de teatro deve estar próximo do
quotidiano, criando no espectador um olhar novo
com que observe os objectos e factos estranhos como
familiares e examine os habituais como se fossem
insólitos – daí chamarem-lhe também teatro da
crítica do quotidiano”.
"O teatro de Brecht é popular e
realista: popular, não porque lisonjeie os gostos fáceis
do povo, mas, porque, ao invés, tende a fazê-lo aceder,
mediante artefactos esteticamente perfeitos, a uma
compreensão racional dos fenómenos que directamente o
envolvem, a uma desmistificação das falácias sociais com
que se procura ludibriá-lo; e realista, não porque se
confine numa transcrição estática e passiva da
realidade, mas porque propõe ao espectador,
criticamente, a imagem das suas contradições e
transformações sucessivas. (...)"
O teatro de Brecht tem por tema
central e dominante uma aspiração de bondade que o mundo
alienatório em que vivemos parece irremediavelmente
condenar ao malogro. Todo o seu esforço se desenvolverá
no sentido de mostrar que a bondade é, apesar de tudo,
possível, e que ao contrário o mal representa a
excepção, uma anomalia que endurece as relações entre os
homens – mas que está nas mãos destes eliminar.
(in PEREIRA, C. Jorge –
“80 anos do pobre B.B. – Bertold Brecht no Centro da
Cena Actual”,
Diário Popular de
15/3/79;
REBELLO, Luiz Francisco – “Teatro Moderno”, Ed. Prelo,
2. ª ed., 1964, c/ adaptações)