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FREI LUÍS DE SOUSA -
ACTO II
CENA II
MARIA,
TELMO E MANUEL DE SOUSA
Manuel
‑ Aquele era D. João de
Portugal, um honrado fidalgo e um valente cavaleiro.
Maria
(respondendo sem
observar quem lhe fala)
‑ Bem mo dizia o
coração!
Manuel
(desembuçando‑se e
tirando o chapéu, com muito afecto)
-
Que
te dizia o coração,
minha filha?
Maria
(reconhecendo‑o)
‑
Oh
meu pai, meu
querido pai! Já me não diz mais nada o coração senão
isto. (Lança‑se‑lhe nos braços e beija‑o na face
muitas vezes). Ainda bem que viestes. Mas de dia!...
não tendes receio, não há perigo já?
Manuel
‑ Perigo, pouco. Ontem
à noite não pude vir; e hoje não tive paciência para
aguardar todo o dia. Vim coberto com esta capa...
Telmo
‑ Não há perigo nenhum,
meu senhor; podeis estar à vontade e sem receio. Esta
madrugada muito cedo estive no convento, e sei pelo
senhor Frei Jorge que está, se se pode dizer, tudo
concluído.
Manuel
‑ Pois ainda bem,
Maria. E tua mãe, tua mãe, filha?
Maria
‑ Desde ontem está
outra...
Manuel
(em acção de partir)
‑ Vamos
a vê‑Ia.
Maria
(retendo‑o)
‑ Não, que dorme ainda.
Manuel
‑ Dorme? Oh, então
melhor. Sentemo‑nos aqui, filha, e conversemos.
(toma‑lhe as mãos; sentam‑se). Tens as mãos tão
quentes! (beija‑a na testa) E esta testa, esta
testa!... escalda. Se isto está sempre a ferver!
Valha‑me Deus, Maria! Eu não quero que tu penses.
Maria
‑ Então que hei‑de eu
fazer?
Manuel
‑ Folgar, rir, brincar,
tanger na harpa, correr nos campos, apanhar das
flores... E Telmo que te não conte mais histórias, que
te não ensine mais
trovas e
solaus. Poetas e trovadores
padecem todos da cabeça... e é um mal que se pega.
Maria
‑ E então para que
fazeis vós como eles?...
Eu bem sei que fazeis.
Manuel
(sorrindo)
‑
Se
tu sabes
tudo! Maria, minha Maria! (amimando‑a). Mas não
sabias ainda agora de quem era aquele retrato..
Maria
‑ Sabia.
Manuel
‑ Ah! você sabia e
estava fingindo!
Maria
(gravemente)
‑ Fingir não, meu pai.
A verdade... é que eu sabia de um saber cá de dentro;
ninguém mo tinha dito; e eu queria ficar certa.
Manuel
‑ Então adivinhas,
feiticeira. (beija‑a na testa) Telmo, ide ver se
chamais meu irmão; dizei‑lhe que estou aqui.
Joaquim
Matias da Silva
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