Se Helena apartar
Do campo seus olhos,
Nascerão abrolhos.
Voltas
A verdura amena,
Gados, que pasceis
Sabei que a deveis
Aos olhos de Helena.
Os ventos serena,
Faz flores de abrolhos
O ar de seus olhos.
Faz serras floridas,
Faz claras as fontes:
Se isto faz nos montes,
Que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas,
Como ervas em molhos,
Na luz de seus olhos.
Os corações prende
Com graça inumana,
De cada pestana
Ua alma lhe pende.
Amor se lhe rende
E, posto em geolhos,
Pasma nos seus olhos.
Abrolhos
Luís de Camões
Notas:
v. 3 — abrolhos: plantas espinhosas; v. 5 —pasceis:
pastais; v. 19 — inumana: divina; v. 23 — geolhos:
joelhos.
QUESTIONÁRIO
1. Sintetize o conteúdo das voltas deste vilancete de
Camões, isto é, indique o seu assunto.
2. Se atender aos efeitos dos olhos de Helena, poderá
dividir as três voltas do poema em duas partes lógicas.
Delimite-as, fazendo a síntese de cada uma delas.
3. Confirmando com exemplos do texto, refira-se aos
principais artifícios de que o poeta se serve para
exaltar a beleza de Helena.
4. Há no poema uma visão petrarquista da mulher e do
amor. Baseando-se no texto,
confirme ou negue esta afirmação.
5. Faça a descrição formal do poema.
RESPOSTAS
1. O sujeito lírico descreve a magia dos olhos de Helena,
os quais não só irradiam a sua beleza e suavidade sobre
a Natureza, mas também seduzem e prendem os corações dos
homens.
2. De facto, as três voltas do vilancete podem
dividir-se em duas partes lógicas. A primeira parte é
constituída pela primeira estrofe e pelos dois primeiros
versos da segunda, em que o poeta refere a projeção dos
olhos de Helena sobre a Natureza, operando nela uma
verdadeira transformação; a segunda parte está contida
nos cinco últimos versos da segunda estrofe e na última
estrofe, em que o poeta realça a ação cativante de
Helena sobre os corações humanos.
3. Diremos primeiramente que há aqui uma sinédoque
(implícita). Com efeito, o eu lírico começa por referir
os efeitos dos olhos de Helena sobre a Natureza
campestre; mas logo a seguir, continuando a enumerar
tais efeitos sobre a Natureza e sobre os homens, afirma
que «os
ventos serena, / Faz serras floridas"
e que "os
corações prende».
Como o sujeito destas frases não pode ser os olhos, pois
o verbo está no singular, é evidente que o sujeito é
Helena. Note-se ainda que, na última estrofe, o eu da
enunciação, voltando aos olhos, insiste na ideia de que
em «cada
pestana / Ua alma lhe pende».
Conclui-se, portanto, que os efeitos sobre a Natureza e
sobre os homens são atribuídos seja a Helena, seja aos
seus olhos. Logo, os olhos de Helena são a própria
Helena (sinédoque).
Ora, esta identificação deliberada entre os olhos de
Helena e a mesma Helena está ligada a uma conceção
platónica e petrarquista da mulher e do amor. A mulher é
vista como um ser mais espiritual do que corporal. Os
olhos, embora órgãos do corpo, são as janelas da alma,
podendo, pois, considerar-se um traço de união entre o
físico e o espiritual. A beleza de Helena é sobretudo
realçada pela expressividade do adjectivo ("a
verdura amena")
e do verbo, quer no tempo presente, insinuando a
presença atuante dos olhos de Helena ("os
ventos serena, / Faz serras floridas"),
quer no tempo futuro, sugerindo um estado de vida ("Que
fará nas vidas?").
O emprego da hipérbole («de
cada pestana ua alma lhe pende»)
é também uma bela forma de realçar a sedução exercida
sobre os homens. É de salientar ainda a comparação «como
ervas em molhos», realçando a abundância de vidas
conquistadas, e a personificação, no fim do poema, em
que o próprio amor é considerado um vassalo que se põe
de joelhos perante a suserana Helena: «Amor
se lhe rende, / E, posto em geolhos / Pasma nos seus
olhos».
Notar a expressividade contida em
pasma (aspeto
durativo).
4. Vimos como a beleza e a sedução de Helena são vistas
sobretudo através do seu olhar. É portanto a sua beleza
espiritual que é posta em evidência. Trata-se, então,
daquele tipo de mulher idealizadamente espiritual
(objeto do amor platónico) que vem já da poesia
provençal (cantares de amor) e da poesia palaciana. O
próprio sujeito poético manifesta um envolvimento mais artístico
do que emocional.
Não é, então, o amor pessoal do eu lírico que está em
jogo, mas um sentimento universal, caraterístico da
poesia medieval, e vazado em forma igualmente
tradicional, como que se o eu lírico estivesse a treinar o
seu estro (= inspiração) poético.
5. Este mote de três versos, glosados em voltas de sete
versos, constitui um vilancete. É verdade que não se dá,
no final das estrofes, a repetição do último verso do
mote, mas há uma repetição a nível rimático e verifica-se o essencial do vilancete:
desenvolvimento do mote (de dois ou três versos) em
estrofes de sete versos, seguido de glosa, formada por
coplas ou voltas de sete versos (septinas ou setilhas),
sendo que os primeiros quatro versos de cada copla
constituem a cabeça e os últimos três a cauda. A cabeça
e a cauda mantêm uma relação formal entre si porque o
último verso da cabeça rima com o primeiro da cauda. Os versos são de cinco sílabas
(redondilha menor) e, quanto ao tipo, a rima é interpolada e emparelhada,
de acordo com o esquema rimático: ABB / CDDCCBB /
EFFEEBB / GHHGGBB.
BORREGANA, António Afonso, Textos em análise
I, c/
adaptações.
Tipo de composição: vilancete. Tipo de rima: emparelhada ("... olhos"
/ "... abrolhos") e
interpolada ("... amena" / "...Helena").
Esquema rimático: ABB /
CDDCCBB / EFFEEBB / GHHGGBB. Métrica: redondilha menor (5 sílabas métricas: "de /
ca/da pes/ta/na"). Tema: a mulher e o Amor.
1. Nos primeros nove versos, o sujeito poético releva as
transformações sofridas pela natureza devido «aos
olhos de Helena».
Sobre que elementos da natureza incidem, para os
modificar, os olhos de Helena?
Resposta:
Os olhos de Helena incidem sobre a flora (como nos
versos "A
verdura amena",
"faz
flores de abrolhos"
e "Faz
serras floridas"),
fazendo-a crescer, sobre o vento, que acalma -
facto ilustrado no verso "Os
ventos serena"
- e sobre a água, que torna límpida ("faz
claras as fontes").
2. O que se pretende evidenciar através da repetição
anafórica de «faz»?
Resposta: Através da repetição
anafórica (aliás, até temos paralelismo anafórico)da palavra "faz", o
eu lírico pretende enfatizar a ideia de que a ocorrência
daquelas transformações são obra do
olhar de Helena e tenta individualizar ou especificar
cada uma dessas ações.
3.
«Se isto faz nos montes / Que fará nas vidas?». O que
faz nas vidas e porquê?
Resposta:
O sujeito poético interroga-se sobre o que fará o olhar
de Helena nas vidas, pois acredita que, tendo ele um
efeito tão poderoso sobre a Natureza, também deverá
afetar enormemente as pessoas. Não admira, pois, que
emita a opinião de que todos se rendam aos seus encantos
e se apaixonem por ela ("Os
corações prende").
Recorre a figuras de estilo para sugerir isso mesmo:
comparações, como em "trá-las
suspendidas / como ervas em molhos";
adjectivações ("com
graça inumana");
sinédoque (o olhar de Helena é tomado como a própria
Helena); personificação do Amor ("Amor
se lhe rende / e, posto em giolhos ...");
imagens metafóricas e hipérboles - "de
cada pestana / uma alma lhe pende".
4. Procura explicar o significado da palvra «luz»
(v.14), relacionando-o com o adjetivo «inumana»
(v.16).
Resposta: A luz
dos olhos de Helena é a claridade do seu olhar, isto é,
a sua pureza, a sua intensidade dá-lhe um caráter de
singularidade e de excepcionalidade quase divinas e, portanto, não humanas (=
inumana).
5.
Traça o retrato de Helena.
Resposta:
Helena é uma mulher graciosa e bela, cujo olhar intenso
("Se
Helena apartar / do campo seus olhos, / nascerão
abrolhos")
torna a Natureza diferente, para melhor, e conquista os
corações dos humanos ("Amor
se lhe rende / E, posto em giolhos, / Pasma nos seus
olhos"),
conferindo-lhe, por isso, uma índole quase divina ("com
graça inumana").
in http://auxiliaresgerais.blogspot.pt/p/portugues.html,
c/ adaptações