Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Outros Autores
 

ANÁLISE DO VILANCETE

 

- Se Helena apartar -

Mote

Se Helena apartar
Do campo seus olhos,
Nascerão abrolhos.

 

 

Voltas

A verdura amena,
Gados, que pasceis
Sabei que a deveis
Aos olhos de Helena.
Os ventos serena,
Faz flores de abrolhos
O ar de seus olhos.

Faz serras floridas,
Faz claras as fontes:
Se isto faz nos montes,
Que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas,
Como ervas em molhos,
Na luz de seus olhos.

Os corações prende
Com graça inumana,
De cada pestana
Ua alma lhe pende.
Amor se lhe rende
E, posto em geolhos,
Pasma nos seus olhos.

                                                    Abrolhos

Luís de Camões

 

Notas: v. 3 — abrolhos: plantas espinhosas; v. 5 —pasceis: pastais; v. 19 — inumana: divina; v. 23 — geolhos: joelhos.

 

 

 

QUESTIONÁRIO
1. Sintetize o conteúdo das voltas deste vilancete de Camões, isto é, indique o seu assunto.
2. Se atender aos efeitos dos olhos de Helena, poderá dividir as três voltas do poema em duas partes lógicas. Delimite-as, fazendo a síntese de cada uma delas.
3. Confirmando com exemplos do texto, refira-se aos principais artifícios de que o poeta se serve para exaltar a beleza de Helena.
4. Há no poema uma visão petrarquista da mulher e do amor. Baseando-se no texto, confirme ou negue esta afirmação.
5. Faça a descrição formal do poema.
 

RESPOSTAS

 

1. O sujeito lírico descreve a magia dos olhos de Helena, os quais não só irradiam a sua beleza e suavidade sobre a Natureza, mas também seduzem e prendem os corações dos homens.


2. De facto, as três voltas do vilancete podem dividir-se em duas partes lógicas. A primeira parte é constituída pela primeira estrofe e pelos dois primeiros versos da segunda, em que o poeta refere a projeção dos olhos de Helena sobre a Natureza, operando nela uma verdadeira transformação; a segunda parte está contida nos cinco últimos versos da segunda estrofe e na última estrofe, em que o poeta realça a ação cativante de Helena sobre os corações humanos.


3. Diremos primeiramente que há aqui uma sinédoque (implícita). Com efeito, o eu lírico começa por referir os efeitos dos olhos de Helena sobre a Natureza campestre; mas logo a seguir, continuando a enumerar tais efeitos sobre a Natureza e sobre os homens, afirma que «
os ventos serena, / Faz serras floridas" e que "os corações prende». Como o sujeito destas frases não pode ser os olhos, pois o verbo está no singular, é evidente que o sujeito é Helena. Note-se ainda que, na última estrofe, o eu da enunciação, voltando aos olhos, insiste na ideia de que em «cada pestana / Ua alma lhe pende».

Conclui-se, portanto, que os efeitos sobre a Natureza e sobre os homens são atribuídos seja a Helena, seja aos seus olhos. Logo, os olhos de Helena são a própria Helena (sinédoque).

Ora, esta identificação deliberada entre os olhos de Helena e a mesma Helena está ligada a uma conceção platónica e petrarquista da mulher e do amor. A mulher é vista como um ser mais espiritual do que corporal. Os olhos, embora órgãos do corpo, são as janelas da alma, podendo, pois, considerar-se um traço de união entre o físico e o espiritual. A beleza de Helena é sobretudo realçada pela expressividade do adjectivo ("a verdura amena") e do verbo, quer no tempo presente, insinuando a presença atuante dos olhos de Helena ("os ventos serena, / Faz serras floridas"), quer no tempo futuro, sugerindo um estado de vida ("Que fará nas vidas?"). O emprego da hipérbole («de cada pestana ua alma lhe pende») é também uma bela forma de realçar a sedução exercida sobre os homens. É de salientar ainda a comparação «como ervas em molhos», realçando a abundância de vidas conquistadas, e a personificação, no fim do poema, em que o próprio amor é considerado um vassalo que se põe de joelhos perante a suserana Helena: «Amor se lhe rende, / E, posto em geolhos / Pasma nos seus olhos». Notar a expressividade contida em pasma (aspeto durativo).


4. Vimos como a beleza e a sedução de Helena são vistas sobretudo através do seu olhar. É portanto a sua beleza espiritual que é posta em evidência. Trata-se, então, daquele tipo de mulher idealizadamente espiritual (objeto do amor platónico) que vem já da poesia provençal (cantares de amor) e da poesia palaciana. O próprio sujeito poético manifesta um envolvimento mais artístico do que emocional.

Não é, então, o amor pessoal do eu lírico que está em jogo, mas um sentimento universal, caraterístico da poesia medieval, e vazado em forma igualmente tradicional, como que se o eu lírico estivesse a treinar o seu estro (= inspiração) poético.


5. Este mote de três versos, glosados em voltas de sete versos, constitui um vilancete. É verdade que não se dá, no final das estrofes, a repetição do último verso do mote, mas há uma repetição a nível rimático e verifica-se o essencial do vilancete: desenvolvimento do mote (de dois ou três versos) em estrofes de sete versos, seguido de glosa, formada por coplas ou voltas de sete versos (septinas ou setilhas), sendo que os primeiros quatro versos de cada copla constituem a cabeça e os últimos três a cauda. A cabeça e a cauda mantêm uma relação formal entre si porque o último verso da cabeça rima com o primeiro da cauda. Os versos são de cinco sílabas (redondilha menor) e, quanto ao tipo, a rima é interpolada e emparelhada, de acordo com o esquema rimático: ABB / CDDCCBB / EFFEEBB / GHHGGBB.

 

BORREGANA, António Afonso, Textos em análise I, c/ adaptações.
 

********************************************************************

 

OUTRA ANÁLISE / QUESTIONÁRIO:

 

Tipo de composição: vilancete.
Tipo de rima: emparelhada ("... olhos" / "... abrolhos") e interpolada ("... amena" / "...Helena").

Esquema rimático: ABB / CDDCCBB / EFFEEBB / GHHGGBB.
Métrica: redondilha menor (5 sílabas métricas: "de / ca/da pes/ta/na").
Tema: a mulher e o Amor.
 

1. Nos primeros nove versos, o sujeito poético releva as transformações sofridas pela natureza devido «aos olhos de Helena». Sobre que elementos da natureza incidem, para os modificar, os olhos de Helena?

 

Resposta: Os olhos de Helena incidem sobre a flora (como nos versos "A verdura amena", "faz flores de abrolhos" e "Faz serras floridas"), fazendo-a crescer, sobre o vento, que acalma  - facto ilustrado no verso "Os ventos serena" - e sobre a água, que torna límpida ("faz claras as fontes").

 

2. O que se pretende evidenciar através da repetição anafórica de «faz»?

 

Resposta: Através da repetição anafórica (aliás, até temos paralelismo anafórico)da palavra "faz", o eu lírico pretende enfatizar a ideia de que a ocorrência daquelas transformações são obra do olhar de Helena e tenta individualizar ou especificar cada uma dessas ações.

 

3. «Se isto faz nos montes / Que fará nas vidas?». O que faz nas vidas e porquê?

 

Resposta: O sujeito poético interroga-se sobre o que fará o olhar de Helena nas vidas, pois acredita que, tendo ele um efeito tão poderoso sobre a Natureza, também deverá afetar enormemente as pessoas. Não admira, pois, que emita a opinião de que todos se rendam aos seus encantos e se apaixonem por ela ("Os corações prende"). Recorre a figuras de estilo para sugerir isso mesmo: comparações, como em "trá-las suspendidas / como ervas em molhos"; adjectivações ("com graça inumana"); sinédoque (o olhar de Helena é tomado como a própria Helena); personificação do Amor ("Amor se lhe rende / e, posto em giolhos ..."); imagens metafóricas e hipérboles - "de cada pestana / uma alma lhe pende".

 

4. Procura explicar o significado da palvra «luz» (v.14), relacionando-o com o adjetivo «inumana» (v.16).

 

Resposta: A luz dos olhos de Helena é a claridade do seu olhar, isto é, a sua pureza, a sua intensidade dá-lhe  um caráter de singularidade e de excepcionalidade quase divinas e, portanto, não humanas (= inumana).

 

5. Traça o retrato de Helena.

 

Resposta: Helena é uma mulher graciosa e bela, cujo olhar intenso ("Se Helena apartar / do campo seus olhos, / nascerão abrolhos") torna a Natureza diferente, para melhor, e conquista os corações dos humanos ("Amor se lhe rende / E, posto em giolhos, / Pasma nos seus olhos"), conferindo-lhe, por isso, uma índole quase divina ("com graça inumana").
 

in http://auxiliaresgerais.blogspot.pt/p/portugues.html, c/ adaptações

 

Publicado por

Joaquim Matias da Silva

 

Voltar

                       Início da página

 

© Joaquim Matias 2013

 

 

 

 Páginas visitadas