Camilo Castelo Branco
Fernando Pessoa
José Saramago
Sttau Monteiro
Outros
Sttau Monteiro
 

FELIZMENTE HÁ LUAR! - O paralelismo epocal

 

PARALELISMO PASSADO / CONDIÇÕES HISTÓRICAS DOS ANOS 60: DENÚNCIA DA VIOLÊNCIA

 

O ambiente político dos inícios do século XIX serve de cenário à obra dramática Felizmente Há Luar!. Assim, em 1817, uma conspiração, que teria supostamente como cabecilha Gomes Freire de Andrade, pretendeu o regresso do Brasil do rei D. João VI e  manifestou-se contrária à presença inglesa, vindo, porém, a ser descoberta e reprimida. Como não é de estanhar numa sociedade repressora, os conspiradores, acusados de traição à pátria, foram queimados publicamente e Lisboa inteira ficou a ver... para aprender.

 

Ora, recorrendo à artimanha do distanciamento histórico, Sttau Monteiro denuncia a opressão e o sufoco em que vivia, física e psicologicamente, o povo, nos inícios do século XIX, altura em que decorre a acção, para, numa tentativa de driblar a censura inquisitória do seu tempo, denunciar mais facilmente as injustiças do regime salazarista e proclamar a necessidade de uma luta sem tréguas em prol da liberdade. Os seus intuitos não foram plenamente atingidos, porque a obra foi censurada pela ditadura. Porém, a mensagem estava lá...

Só em 1978, já depois da Revolução de Abril, a obra Felizmente Há Luar! foi representada, nos palcos portugueses, no Teatro Nacional, encenada pelo próprio autor. Já antes, em 1969, tinha sido representada, pela primeira vez, em Paris.

 

É facilmente detectável o paralelismo entre as duas épocas referidas, como se pode comprovar pela análise do quadro sinóptico, a seguir apresentado:

 

TEMPO DA HISTÓRIA - SÉC. XIX

 

 

TEMPO DA ESCRITA - SÉC. XX (1961)

 

 

* Período conturbado subsequente às invasões francesas e fuga da corte real para o Brasil, deixando o país à mercê dos oportunistas e dos ambiciosos sem escrúpulos.

 

 

 

 

 

* Período em que , sob a máxima "Deus, Pátria e Família", António de Oliveira Salazar instalou em Portugal um forte poder autoritário e repressivo, assente na intransigência e força do poder executivo, que só começou a desmoronar-se por dentro a partir dos anos 50 do séc. XX.

 

 

* Agitação social que levou à revolta liberal  de 1820 – conspirações internas; mal-estar no país, devido à presença de D. João VI  e da sua corte no Brasil; influência  e autoritarismo cada vez mais acentuados do exército britânico;

 

* Agitação social dos anos 60 – conspirações internas; começo da guerra colonial e confronto cada vez mais violento com os movimentos de libertação dos países colonizados, sobretudo na Guiné, em Angola e em Moçambique;

 

 

* Regime absolutista e tirânico;

 

 

* Regime ditatorial de Salazar;

 

 

* Classes sociais fortemente hierarquizadas (clero, nobreza/burguesia e povo;

 

 

* Maior desigualdade entre abastados e pobres;


 

* Classes dominantes com medo de perder privilégios;

 

 

 

 

* Classes exploradoras, com reforço do seu poder, apoiadas por uma política e uma religião que se colocam, descaradamente, ao lado dos mais fortes;

 

 

* Povo oprimido, analfabeto, impotente e resignado;

 

 

 

* Povo reprimido, com pouca cultura democrática, facilmente manipulável e explorado;

 

 

* A “miséria, o medo e a ignorância” imperam;

 

 

* Miséria, medo e analfabetismo mantêm o povo subjugado;

 

* Obscurantismo, mas “felizmente há luar”;

 

 

 

 

* Obscurantismo, mas crença na irrupção dos ideais de Justiça, Liberdade e Igualdade a manter-se viva, sobretudo no espírito dos opositores ao regime;

 

 

* Luta contra a opressão do regime absolutista;

 

 

* Luta contra o regime totalitário e ditatorial;

 

 

* Manuel, "o mais consciente dos populares", denuncia a opressão e a miséria, apesar de reconhecer-se impotente para mudar o status quo;

 

 

 

* Militantes antifascistas protestam, apesar da perseguição feroz que lhes é movida - as torturas e as prisões por motivos políticos eram frequentes, como frequentes eram os exílios forçados;

 

 

* Perseguições dos agentes a mando dos governadores do reino, mormente William Beresford;

 

 

 

* Perseguições dos elementos da PIDE (Polícia de Investigação e Defesa do Estado), a soldo dos governantes antidemocráticos;

 

 

* Vicente, Andrade Corvo e Morais Sarmento, delatores interesseiros e sem um pingo de escrúpulos, davam forma aos "bufos" da altura;

 

 

 

 

 

 

* Os elementos da PIDE ou os seus informantes ("bufos" que, a fazer fé nalguns estudiosos,  eram cerca de um terço da população!...), surgem da sombra e disfarçam-se para colher informações e denunciar - muitos deles traíam os amigos e até membros da própria família!...;

 

 

* Censura à imprensa;

 

 

* Censura em todos os domínios;

 

 

* Punição "exemplar" dos conspiradores;

 

 

* Prisão e tortura atroz de todos os lutadores  anti-regime;

 

* Processos sumários e pena de morte;

 

 

* Condenação em processos sem provas;

 

* Execução do General Gomes Freire de Andrade, em 1817.

 

 

 

* A execução de tantas vítimas, por divergências políticas (General Humberto Delgado, combatentes antifascistas…)

 

 

Assim, em Felizmente Há Luar!, a rememoração ou recuperação de uma época da História de Portugal serve de pretexto para uma crítica aos anos 60, do século XX.  Sttau Monteiro, também ele perseguido pela PIDE, põe a nu o regime fascista de Salazar. E como a conspiração de 1817 e todas as suas motivações despoletaram o triunfo definitivo do liberalismo, em 1834 (depois, é certo, de uma guerra civil catastrófica e fratricida, que opôs dois filhos de D. João VI - D. Pedro e D. Miguel), também a luta contra o regime ditatorial salazarista levou à Revolução dos Cravos e consequente instauração de um regime democrático em Portugal.

 

Joaquim Matias da Silva

 

Veja, também, a este respeito, o artigo "Do Contexto de Produção à Recepção do Texto".

 

Voltar

Início da página

 

© Joaquim Matias 2008

 

 

 

 Páginas visitadas