PARALELISMO PASSADO / CONDIÇÕES
HISTÓRICAS DOS ANOS 60: DENÚNCIA DA VIOLÊNCIA
O ambiente político dos inícios do século XIX
serve de cenário à obra dramática Felizmente Há Luar!.
Assim,em 1817, uma conspiração, que teria
supostamente como cabecilha Gomes
Freire de Andrade, pretendeu o regresso do Brasil do
rei D. João VI e manifestou-se contrária à presença
inglesa, vindo, porém, a ser descoberta e reprimida.
Como não é de estanhar numa sociedade repressora, os conspiradores, acusados de traição à pátria, foram
queimados publicamente e Lisboa inteira ficou a ver...
para aprender.
Ora, recorrendo à artimanha do
distanciamento histórico, Sttau Monteiro denuncia a
opressão e o sufoco em que vivia, física e
psicologicamente, o povo, nos inícios do século XIX,
altura em que decorre a acção, para, numa tentativa de
driblar a censura inquisitória do seu tempo, denunciar
mais facilmente as injustiças do regime salazarista e
proclamar a necessidade de uma luta sem tréguas em prol
da liberdade. Os seus intuitos não foram plenamente
atingidos, porque a obra foi censurada pela ditadura.
Porém, a mensagem estava lá...
Só em 1978, já depois da Revolução
de Abril, a obra Felizmente Há Luar! foi
representada, nos palcos portugueses, no Teatro
Nacional, encenada pelo próprio autor. Já antes, em
1969, tinha sido representada, pela primeira vez, em
Paris.
É facilmente detectável o
paralelismo entre as duas épocas referidas, como se pode
comprovar pela análise do quadro sinóptico, a seguir
apresentado:
TEMPO DA HISTÓRIA - SÉC.
XIX
TEMPO DA ESCRITA - SÉC. XX
(1961)
* Período conturbado subsequente às invasões
francesas e fuga da corte real para o Brasil,
deixando o país à mercê dos oportunistas e dos
ambiciosos sem escrúpulos.
* Período em que , sob a máxima "Deus, Pátria e
Família", António de Oliveira Salazar instalou em
Portugal um forte poder autoritário e
repressivo, assente na intransigência e força do
poder executivo, que só começou a desmoronar-se
por dentro a partir dos anos 50 do séc. XX.
* Agitação social que levou à revolta liberal
de 1820 – conspirações internas; mal-estar no
país, devido à presença de D. João VI e da
sua corte no Brasil; influência e
autoritarismo cada vez mais acentuados do
exército britânico;
* Agitação social dos anos 60 – conspirações
internas; começo da guerra colonial e confronto
cada vez mais violento com os movimentos de
libertação dos países colonizados, sobretudo na
Guiné, em Angola e em Moçambique;
* Regime absolutista e tirânico;
* Regime ditatorial de Salazar;
* Classes sociais fortemente hierarquizadas
(clero, nobreza/burguesia e povo;
* Maior desigualdade entre abastados e pobres;
* Classes dominantes com medo de perder
privilégios;
* Classes exploradoras, com reforço do seu
poder, apoiadas por uma política e uma religião
que se colocam, descaradamente, ao lado dos mais
fortes;
* Povo oprimido, analfabeto, impotente e resignado;
* Povo reprimido, com pouca cultura democrática,
facilmente manipulável e explorado;
* A “miséria, o medo e a ignorância” imperam;
* Miséria, medo e analfabetismo mantêm o povo
subjugado;
* Obscurantismo, mas “felizmente há luar”;
* Obscurantismo, mas crença na irrupção dos
ideais de Justiça, Liberdade e Igualdade a
manter-se viva, sobretudo no espírito dos
opositores ao regime;
* Luta contra a opressão do regime absolutista;
* Luta contra o regime totalitário e ditatorial;
* Manuel, "o mais consciente dos populares",
denuncia a opressão e a miséria, apesar de
reconhecer-se impotente para mudar o status
quo;
* Militantes antifascistas protestam, apesar da
perseguição feroz que lhes é movida - as torturas
e as prisões por motivos políticos eram
frequentes, como frequentes eram os exílios
forçados;
* Perseguições dos agentes a mando dos
governadores do reino, mormente William Beresford;
* Perseguições dos elementos da PIDE (Polícia
de Investigação e Defesa do Estado), a soldo
dos governantes antidemocráticos;
* Vicente, Andrade Corvo e
Morais Sarmento, delatores interesseiros e sem
um pingo de escrúpulos, davam forma aos "bufos"
da altura;
* Os elementos da PIDE ou os seus informantes ("bufos"
que, a fazer fé nalguns estudiosos, eram
cerca de um terço da população!...), surgem da
sombra e disfarçam-se para colher informações e
denunciar - muitos deles traíam os amigos e até
membros da própria família!...;
* Censura à imprensa;
* Censura em todos os domínios;
* Punição "exemplar" dos conspiradores;
* Prisão e tortura atroz de todos os lutadores
anti-regime;
* Processos sumários e pena de morte;
* Condenação em processos sem provas;
* Execução do General Gomes Freire de Andrade, em 1817.
* A execução de tantas vítimas, por divergências
políticas (General Humberto Delgado, combatentes
antifascistas…)
Assim, em Felizmente Há Luar!,
a rememoração ou recuperação de uma época da História de
Portugal serve de pretexto
para uma crítica aos anos 60, do século XX. Sttau
Monteiro, também ele perseguido pela PIDE, põe a nu o
regime fascista de Salazar. E como a conspiração de 1817
e todas as suas motivações despoletaram o triunfo
definitivo do liberalismo, em 1834 (depois, é certo, de uma guerra civil
catastrófica e fratricida, que opôs dois filhos de D.
João VI -
D. Pedro e
D. Miguel),
também a luta contra o regime ditatorial salazarista
levou à Revolução dos Cravos e consequente instauração
de um regime democrático em Portugal.