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FREI LUÍS DE SOUSA - ACTO III

 

CENA V

 

TELMO e o ROMEIRO

 

Romeiro

- Que não oiça Deus o teu rogo!

 

Telmo
(sobressaltado)

 

- Que voz! Ah! é o romeiro. Que me não oiça Deus! Porquê?

 

Romeiro

- Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo filho que criaste?

 

Telmo
(aparte)

- Já não sei pedir senão pela outra. (alto) E que pedisse por ele, ou por outrem, porque me não há-de ouvir Deus, se lhe peço a vida de um inocente?

 

Romeiro

- E quem te disse que ele o era?

Telmo

- Esta voz... esta voz! Romeiro, quem és tu?

 

Romeiro

(tirando o chapéu e alevantando o cabelo dos olhos)

- Ninguém, Telmo, ninguém, se nem já tu me conheces.

 

Telmo
(deitando se lhe às mãos para lhas beijar)

- Meu amo, meu senhor... sois vós? Sois, sois. D. João de Portugal, oh, sois vós, senhor?

Romeiro

- Teu filho já não?

Telmo

- Meu filho!... oh! é o meu filho, todo; a voz, o rosto... Só estas barbas, este cabelo não... Mais branco já que o meu, senhor!

 

Romeiro

- São vinte anos de cativeiro e miséria, de saudades, de ânsias que por aqui passaram. Para a cabeça bastou uma noite como a que veio depois da batalha de Alcácer; a barba, acabaram de a curar o sol da Palestina e as águas do Jordão.

 

Telmo

- Por tão longe andastes?

Romeiro

- E por tão longe eu morrera! Mas não quis Deus assim.

 

Telmo

- Seja feita a Sua vontade.

Romeiro

- Pesa-te?

Telmo

- Oh, senhor!

Romeiro

- Pesa-te.

Telmo

- Há-de me pesar da vossa vida? (aparte) Meu Deus, parece me que menti...

 

Romeiro

- E porque não, se já me pesa a mim dela, se tanto me pesa ela a mim? Amigo, ouve... Tu és meu amigo?

Telmo

- Não sou?

Romeiro

- És, bem sei. E contudo, vinte anos de ausência, e de conversação de novos amigos, fazem esquecer tanto os velhos!... Mas tu és meu amigo. E se tu não o foras, quem o seria?

Telmo

- Senhor!

Romeiro

- Eu não quis acabar com isto, não quis pôr em efeito a minha última resolução sem falar contigo, sem ouvir da tua boca...

Telmo

- O que quereis que vos diga, senhor? Eu...

Romeiro

- Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não quiseste ceder a nenhuma evidência; não me admirou de ti, meu Telmo. Mas também não posso Deus me ouve não posso criminar ninguém porque o acreditasse: as provas eram de convencer todo o ânimo; só lhe podia resistir o coração. E aqui... coração que fosse meu... não havia outro.

Telmo

- Sois injusto.

Romeiro

- Bem sei o que queres dizer. E é verdade isso? É verdade que por toda a parte me procuraram, que por toda a parte... ela mandou mensageiros, dinheiro?

 

Telmo

- Como é certo estar Deus no céu, como é verdade ser aquela a mais honrada e virtuosa dama que tem Portugal.

Romeiro

- Basta: vai dizer lhe que o peregrino era um impostor, que desapareceu, que ninguém mais houve novas dele; que tudo isto foi vil e grosseiro embuste dos inimigos de... dos inimigos desse homem que ela ama... E que sossegue, que seja feliz. Telmo, adeus!

 

Telmo

- E eu hei-de mentir, senhor, eu hei-de renegar de vós, como um ruim vilão que não sou?

Romeiro

- Hás-de, porque eu te mando.

Telmo
(em grande ansiedade)

- Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade do vosso servo. É que vós não sabeis... D. João, meu senhor, meu amo, meu filho, vós não sabeis...

Romeiro

- O quê?

Telmo

- Que há aqui um anjo... uma outra filha minha, senhor, que eu também criei...

 

Romeiro

- E a quem já queres mais que a mim, dize a verdade.

 

Telmo

- Não mo pergunteis.

Romeiro

- Nem é preciso. Assim devia de ser. Também tu! Tiraram me tudo. (pausa) E têm um filho, eles?... Eu não... E mais, imagino... Oh, passaram hoje pior a noite do que eu. Que lho leve Deus em conta e lhes perdoe como eu perdoei já. Telmo, vai fazer o que te mandei.

Telmo

- Meu Deus, meu Deus! que hei de eu fazer?

 

Romeiro

- O que te ordena teu amo. Telmo, dá me um abraço. (abraçam-se) Adeus, adeus, até...

Telmo
(com ansiedade crescente)

- Até quando, senhor?

Romeiro

- Até ao dia de juízo.

Telmo

- Pois vós?...

Romeiro

- Eu... Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso remediar o mal feito. Fui imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E para quê? D. João de Portugal morreu no dia em que sua mulher disse que ele morrera. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que ele amava... oh, Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! sua mulher que ele já não pode amar sem desonra e vergonha!... Na hora em que ela acreditou na minha morte, nessa hora morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não há de desonrar a sua viúva. Não, vai; dito por ti terá dobrada força: dize lhe que falaste com o romeiro, que o examina-te, que o convenceste de falso e de impostor... dize o que quiseres, mas salva-a a ela da vergonha, e ao meu nome da afronta. De mim já não há senão esse nome, ainda honrado; a memória dele que fique sem mancha. Está em tuas mãos, Telmo, entrego-te mais do que a minha vida. Queres faltar me agora?

Telmo

- Não, meu senhor; a resolução é nobre e digna de vós. Mas pode ela aproveitar ainda?

 

Romeiro

- Porque não?

Telmo

- Eu sei! Talvez...

Joaquim Matias da Silva

 

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