É no palácio que fora
de D. João de Portugal, em Almada: salão antigo
de gosto melancólico e pesado, com grandes retratos de
família, muitos de corpo inteiro, bispos, donas,
cavaleiros, monges: estão em lugar mais
conspícuo no
fundo, o do el‑rei D. Sebastião, o de Camões e o de D.
João de Portugal. Portas do lado direito para o
exterior, do esquerdo para o interior, cobertas
de reposteiros com as armas dos condes de
Vimioso.
São as
antigas da casa de Bragança, uma
aspa vermelha sobre o
campo de prata com cinco escudos de reino, um no meio e
os quatro nos quatro extremos da aspa; em cada braço e
entre os dois escudos uma cruz
floreteada, tudo do modo
que trazem actualmente os
duques de Cadaval; sobre o
escudo, coroa de conde. No fundo, um reposteiro muito
maior e com as mesmas armas cobre as portadas da tribuna
que deita sobre a capela da Senhora da Piedade na igreja
de S. Paulo dos
Domínicos de Almada.
CENA I
MARIA,
TELMO
Maria
(saindo pela porta da
esquerda e trazendo pela mão Telmo, que parece vir de
pouca vontade)
- Vinde, não façais
bulha, que minha mãe ainda dorme. Aqui, aqui nesta sala
é que quero conversar. E não teimes, Telmo, que fiz
tenção e acabou‑se.
Telmo
‑ Menina!...
Maria
‑ «Menina
e moça me levaram de casa de meu pai»
‑ é o princípio daquele livro tão bonito que minha mãe
diz que não intende: intendo‑o eu. ‑Mas aqui não há
menina nem moça; e vós, senhor Telmo Pais, meu fiei
escudeiro, «faredes o que mandado vos é» E não me
repliques que então
altercamos, faz‑se bulha, e acorda
minha mãe, que é o que eu não quero. Coitada! Há oito
dias que aqui estamos
nesta casa, e é a primeira noite
que dorme com sossego. Aquele palácio a arder, aquele
povo a gritar, o rebate dos sinos, aquela cena toda...
oh! tão grandiosa e sublime que a mim me encheu de
maravilha, que foi um espectáculo como nunca vi outro de
igual majestade!... à minha pobre mãe aterrou‑a, não se
lhe tira dos olhos: vai a fechá‑los para dormir e diz
que vê aquelas chamas enoveladas em fumo a rodear‑lhe a
casa, a crescer para o ar, e a devorar tudo com fúria
infernal!... O retrato de meu pai, aquele do quarto de
lavor tão seu favorito, em que ele estava tão
gentil‑homem, vestido de cavaleiro de Malta com a sua
cruz branca no peito, aquele retrato não se pode
consolar de que lho não salvassem, que se queimasse ali.
Vês tu? Ela que não cria em agouros, que sempre me
estava a repreender pelas minhas
cismas, agora não lhe
sai da cabeça que a perda do retrato é
prognóstico fatal
de outra perda maior que está perto, de alguma desgraça
inesperada, mas certa, que a tem de separar de meu pai.
‑ E eu agora é que faço de forte e assisada, que zombo
de
agouros e de
sinas... para a animar, coitada!... que
aqui entre nós, Telmo, nunca tive tanta fé neles. Creio,
oh, se creio! que são avisos que Deus nos manda para nos
preparar. E há... oh! há grande desgraça a cair sobre
meu pai... decerto! e sobre minha mãe também, que é o
mesmo.
Telmo
(disfarçando o terror
de que está tomado)
‑
Não digais isso... Deus há‑de fazê‑lo por melhor, que
lho merecem ambos. (cobrando ânimo e exaltando‑se)
Vosso pai, D. Maria, é um português às direitas. Eu
sempre o tive em boa conta; mas agora, depois que lhe vi
fazer aquela acção, que o vi, com aquela alma de
português velho, deitar a mão às tochas, e lançar ele
mesmo o fogo à sua própria casa; queimar e destruir numa
hora tanto de seu haver, tanta coisa de seu gosto, para
dar um exemplo de liberdade, uma lição tremenda a estes
nossos tiranos... Oh, minha querida filha, aquilo é um
homem. A minha vida que ele queira é sua. E a minha
pena, toda a minha pena é que o não conheci, que o não
estimei sempre no que ele valia.
Maria
(com as lágrimas nos
olhos, e tomando‑lhe as mãos)
‑
Meu Telmo, meu bom Telmo!... é uma glória ser filha de
tal pai, não é? Dize!
Telmo
‑ Sim, é; Deus o
defenda!
Maria
‑ Deus o defenda! Ámen.
E eles, os tiranos governadores ainda estarão muito
contra meu pai? Já soubeste hoje alguma cousa das
diligências do tio Frei Jorge?
Telmo
‑ Já, sim. Vão‑se
desvanecendo ‑ ainda bem! ‑ os agouros de vossa mãe...
hão‑de sair falsos de todo. O arcebispo, o conde de
Sabugal, e os outros, já vosso tio
os trouxe à razão, já
os moderou. Miguei de Moura é que ainda está
renitente;
mas há‑de‑lhe passar. Por estes dias fica tudo
sossegado. Já o estava se ele quisesse dizer que o fogo
tinha pegado por acaso. Mas ainda bem que o não quis
fazer: era desculpar com a
vilania de
uma mentira o
generoso crime por que o perseguem.
Maria
‑ Meu nobre pai! Mas
quando há‑de ele sair daquele
homizio? Passar os dias
retirado nessa quinta tão triste d' além do Alfeite, e
não poder vir aqui sendo de noite, por instantes, e Deus
sabe com que perigo!
Telmo
‑ Perigo nenhum; todos
o sabem e fecham os olhos. Agora é só conservar as
aparências aí mais uns dias, e depois fica tudo como
dantes.
Maria
‑ Ficará, pode ser,
Deus queira que seja! Mas tenho cá uma coisa que me diz
que aquela tristeza de minha mãe, aquele susto, aquele
terror em que está, e que ela disfarça com tanto
trabalho na presença de meu pai (também a mim mo queria
incobrir, mas agora já não pode, coitada!), aquilo é
pressentimento de desgraça grande... ‑ Oh! mas é
verdade... vinde cá. (Leva‑o diante dos três retratos
que estão no fundo; e apontando para o de D. João)
De quem é
este retrato aqui, Telmo?
Telmo
(olha, e vira a cara de repente)
‑ Esse é... há‑de
ser... é um da família, destes senhores da casa de
Vimioso, que aqui estão tantos.
Maria
(ameaçando‑o com o
dedo)
‑ Tunão dizes a
verdade, Telmo.
Telmo
(quase ofendido)
‑ Eu nunca menti,
senhora D. Maria de Noronha.
Maria
‑ Mas não diz a verdade
toda o senhor Telmo Pais, que é quase o mesmo.
Telmo
‑ O mesmo! ...
Disse‑vos o que sei, e o que é verdade; é um cavaleiro
da família de meu outro amo que Deus ... que Deus tenha
em bom lugar.
Maria
‑ E não tem nome o
cavaleiro?
Telmo
(embaraçado)
‑ Há‑de ter; mas eu é
que...
Maria
(como quem lhe vai
tapar a boca)
‑ Agoraé que tu ias
mentir de todo; cala‑te. Não sei para que são estes
mistérios: cuidam que eu hei‑de ser sempre criança! Na
noite que viemos para esta casa, no meio de toda aquela
desordem, eu e minha mãe entrámos por aqui dentro sós e
viemos ter a esta sala. Estava ali um brandão aceso,
encostado a uma dessas cadeiras que tinham posto no meio
da casa; dava todo o clarão da luz naquele retrato...
Minha mãe, que me trazia pela mão, põe de repente os
olhos nele, e dá um grito. Oh, meu Deus!.... ficou tão
perdida de susto, ou não sei de quê, que me ia caindo em
cima. Pergunto‑lhe o que é; não me respondeu. Arrebata
da tocha, e leva‑me com uma força... com uma pressa a
correr por essas casas, que parecia que vinha alguma
coisa má atrás de nós. Ficou naquele estado em que a
temos visto há oito dias e não lhe quis falar mais em
tal. Mas este retrato que ela não nomeia nunca de quem é
e só diz assim às vezes: «O outro, o outro ...». Este
retrato, e o de meu pai que se queimou, são duas imagens
que lhe não saem do pensamento.
‑ Não;desde
ontem pela tarde, que cá esteve o tio Frei Jorge e a
animou com muitas palavras de consolação e de esperança
em Deus, e que lhe disse do que contava abrandar os
governadores, minha mãe ficou outra; passou‑lhe de todo,
ao menos até agora. Mas então, vamos, tu não me dizes do
retrato? Olha (designando o de el‑rei D. Sebastião)
aquele do meio, bem sabes se o conhecerei; é o do
meu querido e amado rei D. Sebastião. Que majestade! que
testa aquela tão
austera, mesmo dum rei moço e sincero
ainda, leal, verdadeiro, que tomou ao sério o cargo de
reinar, e jurou que
há‑de engrandecer e cobrir de glória
o seu reino! Ele ali está... E pensar que havia de
morrer às mãos de mouros, no meio de um deserto, que
numa hora se havia de apagar toda a
ousadia reflectida
que está naqueles olhos rasgados, no apertar
daquela
boca!... Não pode ser, não pode ser. Deus não podia
consentir em tal.
Telmo
‑ Que Deus te ouvisse,
anjo do céu!
Maria
‑ Pois não há profecias
que o dizem? Há, e eu creio nelas. E também creio
naqueloutro que ali está (indica o retrato de
Camões), aquele teu amigo com quem tu andaste lá
pela índia, nessa terra de
prodígios e bizarrias, por
onde ele ia... como é? ah, sim...
«N' uma mão sempre a
espada e n' outra a pena ... »
Telmo
‑ Oh! o meu Luís,
coitado! bem lho pagaram. Era um rapaz, mais moço do que
eu, muito mais... e quando o vi a última vez... foi no
alpendre de
S. Domingos em Lisboa
‑ parece‑me que o
estou a ver ‑, tão mal trajado, tão encolhido... ele que
era tão desembaraçado e
galã... e então velho! velho
alquebrado, com aquele olho que valia por dois, mas tão
sumido e encovado já, que eu disse comigo:
«Ruim terra
te comerá cedo, corpo da maior alma que deitou
Portugal!» E dei‑lhe um abraço... foi o último... Ele
pareceu ouvir o que me estava dizendo o pensamento cá
por dentro, e disse‑me: «Adeus Telmo!
S. Telmo
seja
comigo neste
cabo da navegação... que já vejo terra,
amigo.» ‑ e apontou para uma cova que ali se estava a
abrir. Os frades rezavam o ofício dos mortos na
igreja... Ele entrou para lá, e eu fui‑me embora. Daí a
um mês, vieram‑me aqui dizer: Lá foi Luís de Camões num
lençol para Sant'Ana.» E ninguém mais falou nele.
Maria
‑ Ninguém mais!... Pois
não lêem aquele livro que é para dar memória aos mais
esquecidos?
Telmo
‑ O livro sim:
aceitaram‑no como tributo de um escravo. Estes ricos,
estes grandes, que oprimem e desprezam tudo o que não
são as suas vaidades, tomaram o livro como uma cousa que
lhes fizesse um servo seu e para honra deles. O servo,
acabada a obra, deixaram‑no morrer ao desamparo sem lhe
importar com isso... Quem sabe se folgaram? Podia
pedir‑lhes uma esmola, escusavam de se incomodar
a dizer
que não.
Maria
(com entusiasmo)
‑ Está no Céu. Que o
Céu fez‑se para os bons e para os infelizes, para os que
já cá da terra o adivinharam! ‑ Este lia nos mistérios
de Deus; as suas palavras são de profeta. Não te lembras
o que lá diz do nosso rei D. Sebastião?... Como havia de
ele então morrer? Não morreu. (mudando de tom)
Mas o outro, o outro... quem é este outro, Telmo? Aquele
aspecto tão triste, aquela expressão de melancolia tão
profunda.... aquelas barbas tão negras e cerradas ... e
aquela mão que descansa na espada como quem não tem
outro
arrimo, nem outro amor nesta vida ...
‑ Poistinha,
oh,
se tinha...(Maria olha para Telmo, como quem
compreendeu, depois torna a fixar a vista no retrato; e
ambos ficam diante dele como fascinados. No entretanto,
e às últimas palavras de Maria, um homem embuçado com o
chapéu sobre os olhos, levanta o reposteiro da direita e
vem, pé ante pé, aproximando‑se dos dois que o não
sentem.)